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Allison Zaicha/The New York Times
Allison Zaicha/The New York Times

Pacientes com covid longa enfrentam riscos preocupantes e persistentes para a saúde, indica estudo

Pessoas que não estavam suficientemente doentes para serem hospitalizadas ainda apresentavam um risco significativamente maior de morrer nos seis meses seguintes do que pessoas que não foram infectadas

Pam Belluck, The New York Times

28 de abril de 2021 | 16h30

Os efeitos da covid-19 para a saúde não só podem prolongar-se por meses como, aparentemente, aumentam o risco de morte e de doenças crônicas, mesmo em pessoas que nunca estiveram suficientemente doentes para serem hospitalizadas, mostra um novo e abrangente estudo.

No estudo, publicado na quinta-feira pela revista “Nature”, os pesquisadores examinaram as fichas médicas de mais de 73 mil pessoas nos Estados Unidos, cujas infecções por coronavírus não exigiram hospitalização. De um a seis meses depois de serem infectados, estes pacientes apresentaram um risco consideravelmente maior de morte - 60% mais elevado - do que pessoas que não haviam sido infectadas com o vírus.

A pesquisa baseada em fichas de pacientes do sistema de saúde do Departamento dos Assuntos de Veteranos também constataram que sobreviventes de covid não hospitalizados tinham 20% de chance a mais de precisarem de assistência médica naqueles seis meses do que pessoas que não haviam contraído o coronavírus.

Os sobreviventes tiveram vários problemas de saúde que nunca haviam experimentado antes - não só doenças de pulmão em razão dos efeitos respiratórios do vírus, como também sintomas que poderiam afetar praticamente quaisquer órgãos ou parte do corpo, de neurológicos a cardiovasculares ou gastrointestinais. Eles também sofreram um risco maior de ter problemas de saúde mental, como ansiedade e distúrbios do sono.

“Achamos isso tudo”, disse um dos autores do estudo, o dr. Ziyad al-Aly, chefe do serviço de pesquisa e desenvolvimento do Sistema de Saúde de Veteranos de St. Louis.

“O que foi chocante a respeito desta descoberta quando tivemos uma visão geral foi a sensação de desânimo, ao ver a escala da doença”, acrescentou. “Honestamente, ainda é chocante”.

Além disso, alguns problemas de saúde dos pacientes depois da covid - como diabete, problemas renais e até cardíacos - poderiam tornar-se crônicos a ponto de exigir tratamento pelo resto da vida.

“As pessoas apresentavam problemas respiratórios constantes, dor de cabeça persistente, e várias outras coisas”, disse a dra. Laurie Jacobs, presidente do setor de medicina interna do Centro Médico da Universidade Hackensack, que não participou do estudo. “E não acabou. Nós ainda não compreendemos a causa, e em alguns casos está se tornando crônica ou incapacitante. Em algumas áreas, as pessoas melhoraram, mas a situação varia muito”.

Acredita-se que o estudo seja o mais abrangente já produzido até o momento sobre a avaliação de uma ampla variedade de problemas de saúde. Os sobreviventes da covid que não foram hospitalizados no estudo testaram positivo para o vírus entre 1º de março e novembro de 2020.

A maioria das cerca de 32 milhões de pessoas que contraíram o coronavírus nos Estados Unidos não precisou de hospitalização, por isso, de certo modo, o estudo pode ser aplicado a uma ampla parcela da população. Mas os pacientes estudados do Sistema de Saúde de Veteranos talvez não sejam representativos  em alguns casos, levando-se em consideração que 88% deles eram do sexo masculino e a sua idade média era de 61 anos. Cerca de 25% eram pretos, 70% brancos e, aproximadamente, 5% de outras raças.

Os pesquisadores compararam o seu risco de morte e outras características com os dados de cerca de 5 milhões de pacientes do sistema de Veteranos que não tiveram covid e não foram hospitalizados durante o período. Este grupo tinha uma idade média de 67 anos, 90% eram do sexo masculino, e tinha uma proporção de certo modo maior de pacientes brancos e uma proporção um pouco menor de pacientes pretos.

A dra. Jacobs disse que a sua clínica estava analisando a grande variedade de sintomas no estudo. Mas acrescentou que o risco de morte entre os pacientes do levantamento era consideravelmente maior do que ela previra. “Fiquei realmente chocada com o número”, afirmou.

De um a seis meses depois de apresentar uma infecção relativamente leve ou moderada, 1.672 dos 73.345 pacientes - cerca de 2,3% - morreram, informou o estudo. Não está indicado o que causou as mortes ou algo específico a respeito das condições destes pacientes.

Os pesquisadores tampouco puderam dizer se as pessoas tinham problemas de saúde anteriores e se os seus novos sintomas eram efeitos diretos da sua infecção por coronavírus, efeitos colaterais de medicamentos que estavam tomando para tratar de alguns dos sintomas, estresse por outros problemas relacionados à pandemia ou outras influências. Os especialistas afirmaram que as descobertas do estudo refletem uma cascata de questões provocadas não apenas pelo vírus em si, mas pela luta do sistema médico para fazer frente à covid e aos seus efeitos a longo prazo.

“Temos centenas de milhares de pessoas com síndromes não identificadas e estamos tentando aprender a respeito da resposta do sistema imunológico e de como o vírus pode mudar esta resposta, e como a resposta imunológica pode incluir todos os sistemas do organismo”, disse o dr. Eleftherios Mylonakis, diretor do departamento de doenças infecciosas dos hospitais da Escola de Medicina Warren Alpert da Universidade Brown e da Lifespan, que  não participou do estudo. “O sistema de saúde não é feito para tratar de uma coisa como esta”.

Em muitos casos, disse Mylonakis, as pessoas que apresentam novos sintomas e que nunca estiveram gravemente doentes por causa da infecção viral entram em um mundo confuso e balcanizado, em que buscam a ajuda de clínicos gerais. Estes, por sua vez, os encaminham para vários especialistas que tentam descobrir como tratar das doenças da área particular de sua especialização. Isto ajuda a explicar por que motivo o estudo constatou que os sobreviventes da covid tiveram cerca de uma vez e meia mais consultas ambulatoriais por mês do que pacientes da população geral da agência dos Veteranos.

“Estamos lidando com 'silos'”, disse Mylonakis. “Toda vez em que temos uma transferência, algo se perde. O paciente perde e isto pode agravar os seus outros sintomas de uma covid prolongada”.

Al-Aly e os seus coautores Yan Xie e Benjamin Bowe, ambos da Universidade Washington de St. Louis, também analisaram as fichas de 13.654 pacientes que haviam sido hospitalizados por sua infecção inicial causada por coronavírus. Como era de se esperar, eles constataram que os mais doentes - os que precisaram de cuidados intensivos - tinham maior risco de complicações a longo prazo, seguidos por aqueles que foram hospitalizados em alas comuns, e então por pacientes que nunca foram hospitalizados.

Não obstante, praticamente cada categoria de sintomas - desde a dor no peito a diabetes e até fraqueza muscular - foram experimentadas por pelo menos algumas das pessoas que nunca foram hospitalizadas,

Mylonakis e outros especialistas notaram que a compreensão do vírus e o tipo de tratamentos médicos evoluem sem alarde e este progresso já se traduz em melhora de alguns pacientes. Além disso, algumas pessoas com covid longa melhoraram com o tempo, quer por contra própria quer com a ajuda de tratamento.

Entretanto, afirmou al-Aly: “Teremos por alguns anos, talvez até por dezenas de anos, de fazer frente ao efeito da pandemia na saúde dos americanos a longo prazo”.

E acrescentou: “Fomos apanhados despreparados pela covid. Não podemos vacilar em relação à covid longa”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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