TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Pacientes do SUS têm 3 vezes menos médicos do que clientes de planos

O Estado de São Paulo tem mais especialistas do que a soma de profissionais das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste

Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

30 Novembro 2015 | 16h40

SÃO PAULO - Os pacientes de planos de saúde têm até três vezes mais médicos disponíveis do que os usuários da rede pública, mostra estudo feito pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp).

De acordo com o estudo Demografia Médica no Brasil 2015, divulgado ontem, a rede pública tem quase o mesmo número de médicos do que a rede privada, mas precisa atender o triplo de pacientes. Conforme dados da pesquisa, 78,4% dos médicos têm vínculos com o setor privado e 73,1%, com o público – os dados se sobrepõem porque boa parte dos profissionais atua nos dois setores. No entanto, a rede privada atende 50 milhões de pessoas, enquanto o SUS é responsável pela saúde de 150 milhões de brasileiros. 

“Essa desigualdade pode diminuir com políticas públicas de saúde, maior capacidade administrativa e criação de uma carreira de Estado para médicos, que traga perspectiva de progressão e melhores condições de trabalho”, diz Carlos Vital, presidente do CFM.

Ainda de acordo com o estudo, 59% dos médicos brasileiros são especialistas e eles também estão mais concentrados no setor privado. Dos que trabalham na rede pública, somente 4,8% atuam em ambulatórios de especialidades. Na rede privada, 60% estão em consultórios ou clínicas do tipo. A distribuição de especialistas também é desigual por região. O Estado de São Paulo, por exemplo, tem mais desses profissionais do que Norte, Nordeste e Centro-Oeste juntos.

Desde 2009, a cirurgiã plástica Erica Manzano, de 40 anos, trabalha exclusivamente na rede privada. “No começo, trabalhava no SUS. O problema é que o setor de cirurgia plástica do hospital foi desativado e fiquei na área privada.” Erica conta que as condições das unidades da rede pública interferiram na sua opção por atuar no setor particular. “Troquei por qualidade de trabalho, estrutura e pelo salário também. É difícil trabalhar em um hospital que não tem estrutura, sem recursos.”

Ela acredita que, cada vez mais, profissionais podem fazer a mesma escolha. “A população está crescendo e a qualidade do serviço está caindo. Em um hospital público, o profissional trabalha com menos qualidade, atende muitos pacientes, correndo risco de vida, e há médicos que são ameaçados.”

Aumento. O estudo mostrou ainda que o índice de médicos por 1 mil habitantes cresceu nos últimos cinco anos no País, mas ainda está abaixo da taxa recomendada pelo Ministério da Saúde. Em 2010, a taxa era de 1,95 profissional do tipo por 1 mil brasileiros. Neste ano, o índice chegou a 2,11, número inferior ao índice de 2,5 considerado ideal para garantir assistência adequada à população.

O maior desafio ainda é a distribuição desigual de médicos entre as regiões brasileiras. No Sudeste, a proporção de médicos pela população é de 2,75, ante 1,09 no Norte. 

A maior disparidade ocorre quando comparado o número de doutores que trabalham nas capitais com os que atuam no interior. Embora as primeiras reúnam apenas 23,8% da população do País, 55,2% dos médicos estão nessas cidades.

Mais mulheres. A pesquisa mostra que a proporção de mulheres formadas em medicina vem crescendo ano a ano em comparação ao número de homens. Em 2014, dos novos registros de médicos no País, 54% foram de profissionais do sexo feminino.

Como determinadas especialidades são ocupadas majoritariamente por um dos gêneros, é possível que o aumento de mulheres na profissão provoque uma mudança na disponibilidade de médicos especialistas. Haveria um aumento de dermatologistas, pediatras e médicos da família, especialidades ocupadas em sua maioria pelo sexo feminino, e a queda de urologistas, ortopedistas e cirurgiões, áreas com concentração de profissionais do sexo masculino.

"É uma tendência internacional o aumento de mulheres na medicina e isso pode ser muito bom para sistemas de saúde ordenados pela atenção básica, como o nosso. Por outro lado, os homens são maioria em todas as especialidades cirúrgicas. Precisamos começar a discutir essas diferenças na formação médica", diz Mario Scheffer, professor da FMUSP e coordenador do estudo. 

Ele ressaltou que, embora o número de mulheres esteja crescendo na carreira, as condições de trabalho não são iguais. "Elas têm jornadas de trabalho e número de empregos muito parecidos aos dos homens, mas ganham muito menos", afirma.

A médica generalista Maria Luiza Paulista de Souza, de 29 anos, entrou na faculdade de Medicina em 2007 na Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto e disse que, em sua turma, entre 30% e 40% dos estudantes eram mulheres. "Eu me lembro que a turma de 2009 teve mais mulheres do que homens. Quando saiu a lista de aprovados, todo mundo falava sobre isso.

Maria Luiza diz que não notou diferença no tratamento entre alunos do sexo feminino e masculino na faculdade nem na residência. Mas ela afirma que há pontos diferentes em relação à escolha da área de atuação.

"Tem especialidades que as mulheres tendem a não escolher, porque exige mais tempo (de dedicação durante o trabalho) e muitas querem ter filhos, cuidar da família. Um exemplo é a área de cirurgia. Mesmo assim, há várias ramificações. Quando um cirurgião fica no pronto-socorro, exige um pouco mais. Mas, no caso de um cirurgião plástico, o médico consegue trabalhar mais em escritório."

Formada desde 2012, a médica diz que pretende fazer residência em Dermatologia e, atualmente, trabalha fazendo triagem e dando orientações para pacientes que são atendidas por ambulâncias de uma empresa privada. "Prefiro trabalhar um pouco fora do hospital."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.