Tiago Queiroz/Estadão
Médicos e enfermeiros fazem procedimento em paciente com mais de 80 anos no Hospital Emílio Ribas. Tiago Queiroz/Estadão

Pacientes sem ar e profissionais com medo lutam juntos para sobreviver ao coronavírus

Instituto de Infectologia Emílio Ribas é referência pública em São Paulo e está lotado de pacientes com covid-19

Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2020 | 05h00

Das 30 pessoas que, na sexta-feira, 24, estavam internadas na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, primeiro centro médico paulista a lotar por causa do coronavírus, sete tiveram falência renal e precisam de hemodiálise. O esforço para respirar é tanto que os rins ou o sistema digestivo podem parar de funcionar, de modo que respiradores são apenas um dos equipamentos vitais para sobreviver à doença.

A técnica de hemodiálise Eva Betânia Fiori, de 50 anos, começa a detalhar isso ao Estado. Mas logo marejou os olhos e saiu totalmente do tema. “O mais difícil é perder tanta gente.” Ela perdeu um amigo há alguns dias, enfermeiro do Hospital Heliópolis que contraiu coronavírus. Também já viu a morte de pacientes. E relatou sentir medo de contrair a covid-19, e mais ainda de infectar marido, filhos, nora e neto. “Quando o aparelho (da hemodiálise) apita, temos de nos paramentar (com os equipamentos de proteção) rápido”, afirmou a técnica, ao falar do riscos que enfrenta, sem desistir. 

Mesmo os pacientes que estão na enfermaria, menos graves, chegam no Emílio Ribas com uma série de debilitações por causa da dificuldade de respirar. A fraqueza decorrente do esforço para tomar ar faz com que não se alimentem. Não têm força para mastigar. “Alguns chegam em jejum”, conta a chefe da nutrição clínica do hospital, Miriam Barcha Schlesinger, de 48 anos. 

No passado, no Emílio Ribas, os nutricionistas sentavam ao lado do paciente, os entrevistavam e definiam a dieta. Agora, dada a facilidade da propagação da doença, a equipe evita entrar nos quartos e escolhe o cardápio com base nos prontuários. Precisamos economizar os EPIs (equipamentos de proteção individual). Às vezes, conseguimos ligar para o paciente e tirar alguma dúvida”, afirmou Miriam. Como não conseguem digerir e estão fracos, os pacientes em geral recebem suplementos alimentares fáceis de engolir e hipercalóricos.

A falta de ar traz um dilema. De um lado, há a necessidade dos respiradores, vitais para ajudar o corpo a receber oxigênio e fazer as trocas de gases que mantém o organismo funcionando. De outro, se forem usados durante muito tempo, enfraquecem a musculatura dos pulmões. Por isso, os pacientes também precisam de fisioterapia. “Eles recebem fisioterapia tanto na UTI quanto na enfermaria”, conta Graziela Ultramari Domingos, chefe dos fisioterapeutas. É quando saem da UTI que o trabalho é mais vital, explica ela.

O hospital

O Emílio Ribas é uma instituição centenária (existe desde 1880) que sempre recebeu pacientes de doenças infecciosas. Tratou varíola, gripe espanhola, meningite, aids. É o lugar do Sistema Único de Saúde (SUS) em São Paulo que serve de barreira para doenças que podem se espalhar. 

A auxiliar de enfermagem Monica Cordeiro, de 45 anos, 22 de Emílio, já estava no centro médico no combate ao último grande surto, de H1N1, de 2009. “A diferença do H1N1 para agora é que, agora, perdemos muito mais gente”, disse a auxiliar, também marejando os olhos. “Os pacientes morrem mais.” Havia para a H1N1 o remédio Tamiflu.

Antes da crise, os pacientes, na maioria, tinham aids, e a preocupação era evitar que os internados se contaminarem com doenças trazidas pelos enfermeiros. “Antes, era a gente que tinha de tomar cuidado para não levar nenhuma doença para eles”, conta Monica. Agora, a preocupação é não se contaminar, levar o coronavírus para a rua e para casa. 

Os funcionários estão trabalhando mais. Têm mais funções, mais gente para cuidar. Eram 12 os leitos de UTI. Se dizem exaustos, mas gostam de trabalhar ali. “Aqui não falta equipamento de proteção individual, temos como nos proteger. É diferente do que está acontecendo na rede municipal”, disse a também enfermeira Flávia Santos, de 43 anos.

Parte da razão de o Emílio ter lotado tão rápido é a pouca quantidade de vagas. São 30 leitos de UTI, e antes da crise eram apenas 12. O hospital passa por reforma desde 2013, o que reduzia a capacidade de atendimento. Há um mês, dois dos nove andares estavam fechados. 

Agora, as obras aceleraram. O oitavo andar, que havia sido projetado para ser enfermaria, foi adaptado para virar uma das novas UTI. Cada quarto tem dois leitos, com os equipamentos necessários a uma terapia intensiva. Na UTI antiga, do terceiro andar, os quartos são câmaras de vidro, individuais. 

No térreo, o aspecto de prédio em reforma é mais claro. UTIs e enfermarias são alas com aspectos parecidos com locais da rede privada, mas no térreo há chão em concreto cru e paredes sem reboco.

É no térreo que fica o pronto-socorro, que nesta segunda-feira passará a ser “portas abertas” – ou seja, atenderá pessoas sem encaminhamento prévio para atendimento da covid-19.

“O paciente fará a ficha aqui na recepção, e mostrará seus documentos pelo vidro, sem que a atendente pegue neles. Depois, aguarda na espera pela triagem”, explica a auxiliar de enfermagem Antonilma Argolo, de 53 anos, funcionária do Emílio Ribas há 15. “Ele pode ser orientado para ir embora ou ser encaminhado para o terceiro andar, onde fica a enfermaria.” 

Nilma, como se apresenta, detalha que a mudança deve afetar outros pacientes. “Ontem, veio aqui um paciente com HIV, que estava com uma ferida na região genital. Nós tivemos de encaminhá-lo para outro hospital”, conta. Antes do coronavírus, ali seria o melhor lugar para ser atendido.  

UTI

Com 40 leitos de UTI em operação e mais 10 a caminho, os funcionários esperam que a nova infraestrutura se mantenha após a crise do coronavírus. “O Emílio Ribas deverá ser o último hospital a ser desmobilizado”, disse o infectologista Ralcyon Teixeira, diretor da divisão médica do hospital. 

Teixeira conversou com o Estado dentro da UTI do terceiro andar, na frente de um dos quartos. Dentro dele, havia um homem de 52 anos, ora acordado, ora de olhos fechados. “O corpo resiste ao respirador”, conta o infectologista, o que faz com que os pacientes fiquem muitas vezes sedados. A observação na UTI é se o paciente consegue ficar acordado sem o aparelho. É o indicativo de que pode ir para o quarto. Metade dos pacientes tem menos de 60 anos, idade que faz a fronteira entre o grupo de risco do coronavírus e o restante da população. 

Isolados e sozinhos, os pacientes não têm contato com o mundo de fora. “Cada paciente recebe em média 20 visitas diárias”, contou Teixeira. São visitas para medicação, alimentação e higiene. Os enfermeiros entram em grupos, tanto para otimizar o trabalho, que é pensado antes da entrada no quarto, quanto para economizar os EPIs. 

“Eles perguntam quando vão melhorar”, conta Teixeira, 16 anos de infectologia e 10 de Emílio Ribas, “Quando estão na enfermaria, querem saber se terão de ir para a UTI”, diz. o resultado é uma diferença entre sentimentos: esperança vinda dos pacientes intensivos, temor dos que estão na enfermaria, segundo o médico. 

Nem os pacientes na enfermaria recebem visitas sob os atuais protocolos do Emílio Ribas. O contato é feito por intermédio dos médicos. Até a semana passada, os familiares tinham de se dirigir ao hospital para receber informações. A partir desta semana, graças à doação de celulares recebida de uma empresa varejista, os médicos deverão fazer chamadas de vídeo para conversar com os parentes no momento da visita. O familiar poderá falar com médico e matar a saudade do parente na mesma conversa.

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No Rio, médicos se isolam para proteger famílias do contágio pelo coronavírus

Mesmo com rígidas regras de segurança, hospital Copa Star tem profissionais afastados e há quem opte por ficar em hotéis para evitar contágio

Roberta Jansen, Rio de Janeiro

26 de abril de 2020 | 05h00

RIO - Na linha de frente do combate aos casos mais graves da covid-19, os profissionais de saúde que trabalham num dos mais conceituados hospitais privados do Rio de Janeiro estão também sucumbindo ao novo coronavírus. A despeito da adoção das mais estritas regras de segurança, a doença já atingiu de 15% a 20% da equipe – o percentual chega a dobrar na rede pública - revelando uma das mais cruéis facetas da pandemia.

O hospital Copa Star é considerado top de linha no enfrentamento à doença, não só do ponto de vista de tecnologia, mas também de pessoal. São 60 médicos e 300 auxiliares, entre enfermeiros, técnicos de enfermagem e fisioterapeutas. Atualmente está com 65 pacientes, grande parte entubada e em estado grave. A maioria dos doentes é idosa e apresenta alguma comorbidade, mas há pacientes de todas as idades. Segundo estatísticas, 25% dos óbitos são de pessoas que estão fora da chamada zona de risco.

"Um lado muito cruel dessa doença é o isolamento dos pacientes e também dos próprios médicos; muitos deles optaram por sair de casa”, contou o diretor médico do hospital, Bruno Celoria, de 35 anos. “O impacto é muito grande; tivemos perda de mão de obra, recepcionistas, médicos, enfermeiros. E todos eles fazem falta, o hospital é um organismo.”

Um dos coordenadores das unidades de terapia intensiva do hospital, Márcio Ananias, de 53 anos, não apresentava nenhum fator de risco, mas acabou desenvolvendo a forma grave da doença e teve que ficar dez dias internados na mesma unidade em que trabalha.

“Eu achei mesmo que ia morrer, cheguei a ligar para o seguro de vida e para a gerente do banco”, contou o médico, que já teve alta e se prepara para voltar ao trabalho na próxima semana. “E eu ficava pensando que, se eu morresse no hospital, não veria nunca mais nem a minha mulher, nem a minha filha; e que elas, por sua vez, não iam poder me ver nem mesmo dentro de um caixão.”

Justamente para impedir a circulação do vírus, os pacientes da Covid-19 ficam internados em unidades completamente isoladas do restante do hospital e não podem receber visitas. Embora totalmente necessário, o isolamento dos doentes de seus parentes é apontado como outra faceta cruel da nova epidemia.

“Eu me sentia solitário, deprimido, fiquei mal da cabeça mesmo”, enumera Ananias. “Eu que nunca tomei remédio para dormir, implorava ao meu médico que me desse algo; minha cabeça estava a mil por hora.”

O Copa Star é um dos poucos hospitais que tem 14 leitos de pressão negativa – quartos especialmente destinados a doenças infecciosas, que têm uma antecâmara e é dotado de uma espécie de filtro que impede a saída do vírus para o ambiente. Num primeiro momento, o diretor do hospital, João Pantoja, achou que esses leitos seriam suficientes para os pacientes Covid-19. Mas já abriu três unidades exclusivas para os doentes do novo coronavírus e planeja abrir uma quarta.

“Achamos que esses leitos dariam conta, mas rapidamente percebemos que teríamos que abrir unidades isoladas”, contou Pantoja.

Para entrar nesses espaços, os profissionais têm que colocar uma roupa especial, touca e máscara N9, que filtra 95% do ar. Uma vez no covidário (que é como os médicos chamam as unidades exclusivas para pacientes Covid-19), eles precisam acrescentar novas barreiras físicas de segurança, com luvas, óculos, lâmina de proteção do rosto (face shield) e avental descartável, toda vez que entram em contato direto com os pacientes.

Estudos divulgados recentemente mostram que boa parte da transmissão do vírus ocorre quando o paciente ainda não apresentou sintomas; o que dificulta muito a prevenção. Márcio Ananias, por exemplo, acabou pegando a doença de uma paciente particular, que tratava uma diverticulite e nem sabia que estava com a covid-19.

O próprio diretor do hospital conta que já teve covid-19, mas foi um dos pacientes assintomáticos. Só ficou sabendo porque fez um exame de sorologia em que a presença de anticorpos no sangue é apontada. O coordenador das unidades de terapia intensiva do hospital, Fábio Miranda, de 63 anos, apresentou alguns sintomas leves e está em casa, se recuperando da doença. A técnica de enfermagem Thais Cristina da Silva Santos, de 32 anos, acaba de voltar ao trabalho depois de passar 14 dias em casa.

“É um cansaço muito grande, um desconforto respiratório horrível, febre, dor de cabeça e muito medo”, contou Santos que, durante o período de recuperação, teve que ficar isolada em seu quarto para não ter contato com os pais, de mais idade. “Essa doença mexe muito com o nosso emocional.”

O medo de contaminar os parentes é outro drama enfrentado pelos profissionais de saúde da linha de frente. “Quando a coisa começou a esquentar lá no hospital, quando começaram a chegar os primeiros pacientes, há sete, oito semanas, fui para um hotel, fiquei duas semanas lá”, contou Fábio Miranda. “Depois consegui convencer a família toda a ir para a casa de Teresópolis; tá todo mundo lá: mulher, filhos, neto, cachorro. E eu fiquei aqui sozinho.”

Pantoja também ficou em um hotel, sozinho, durante algumas semanas, até descobrir que já tinha tido a doença e, portanto, estava imunizado contra o vírus. Ananias também conseguiu poupar a mulher e a filha. Desde o início da epidemia, por precaução, havia se isolado dentro da própria casa para não ter contato direto com as duas. Nem todos podem fazer isso.

“Minha mulher também é médica e nós temos cinco filhos, não tem como sair de casa”, contou o intensivista Maximiliano Dutra, de 46 anos, supervisor de um dos covidários do Copa Star. “Tomamos todas as precauções, mas os riscos existem, o risco é de todo mundo, da população inteira. E a gente é médico, né, não tem jeito, é o que a gente faz.”

Para os especialistas, a situação ainda vai piorar muito e tentam se preparar para o desafio. O hospital trabalha com a perspectiva de que o pico da epidemia será até o próximo dia 5 de maio. “Soubemos que houve o deslocamento de placas tectônicas, mas só agora é que começamos a enxergar a tsunami”, resumiu Pantoja.

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O que acontece com um paciente de covid-19 na UTI

Unidades de Terapia Intensiva recebem pacientes com as formas mais graves da covid-19

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2020 | 05h00

Um paciente dá entrada no pronto-socorro sentindo muita falta de ar. Com a escalada do novo coronavírus, os médicos começam a investigação de imediato. Correm para medir taxa de oxigênio no sangue, avaliar lesões pulmonares, perguntar o histórico de outras doenças. Nos quadros mais severos, não dá tempo de tentar outro método: a pessoa acaba entubada e, às pressas, vai parar em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

O roteiro descrito acima é comum entre pacientes da covid-19 que conseguem vagas em UTIs, locais destinados aos casos mais agudos da doença, segundo relatam médicos intensivistas e gestores de hospitais ouvidos pelo Estado. A pandemia que já deixou 4.008 mortos no Brasil também tem obrigado as unidades a repensar lógicas de atendimento, alterar rotina de visitas e redobrar cuidados diante dos riscos de a própria equipe acabar infectada.

Por enquanto, ainda não existe vacina ou tratamento contra o coronavírus com eficácia cientificamente comprovada. Para explicar o atendimento prestado às vítimas e o dia a dia nas unidades intensivas, a reportagem conversou com profissionais do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e dos Hospitais Sírio-Libanês e Israelita Albert Einstein, referências da rede pública e privada de São Paulo.

Nessas unidades, pacientes chegam a passar mais de três semanas na UTI -- muitos deles sedados, com a musculatura paralisada, e só respirando com auxílio de aparelhos. Para se ter ideia, levantamento recente da Secretaria Estadual da Saúde, da gestão João Doria (PSDB), indica que 41,5% das pessoas internadas com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por covid-19 acabam em unidades intensivas. Destas, quatro a cada dez vão precisar de respiradores para tentar sobreviver.

 A porta de entrada

O pronto-socorro é a principal porta de entrada dos pacientes graves, segundo profissionais que estão na linha de frente do combate à pandemia. Nos hospitais, triagens foram adaptadas para separar o atendimento de casos suspeitos de coronavírus das demais pessoas.

“A maioria chega por demanda espontânea, buscando atendimento depois de apresentar principalmente sintoma de insuficiência respiratória”, descreve Jaques Sztajnbok, chefe da UTI do Emílio Ribas. Cansaço, congestão nasal, coriza, dor de cabeça, febre, diarreia são sinais que também podem aparecer.

Em tese, a outra maneira de conseguir vaga é se alguma unidade médica pedir, através de um sistema específico, que o paciente seja transferido para lá por não dispor de estrutura adequada para cuidados intensivos. “Em tese” porque, hoje, os 30 leitos de UTI do Emílio Ribas já estão ocupados -- e, portanto, incapazes de receber novas pessoas.

“Cerca de três semanas atrás, solicitaram 17 vagas em um único dia. No outro, mais 30. Aí, passamos 24 horas sem pedidos e, em seguida, vieram mais 54. O susto mesmo foi logo depois: 104 solicitações”, conta  Sztajnbok. Com o avanço da pandemia, o governo Doria já chegou a projetar a lotação de todas as 3,5 mil vagas públicas do Estado em maio.

Hospitais privados também demonstram preocupação com o volume de casos mas até o momento não há relatos de internação negada. Além de por meio dos PSs, pacientes chegam às UTIs por recomendação médica após consultas presenciais, por domicílio ou até por telemedicina, conforme relata o intensivista e clínico-geral do Einstein, Leonardo Rolim. “É uma nova porta de entrada. Em um dia, fizemos 1 mil atendimentos por telemedicina: se for percebida alguma necessidade, o médico já encaminha.”

A internação

Médicos afirmam que a decisão de internar depende de uma somatória de fatores, como a instabilidade da pressão arterial ou retenção de gás carbônico. Para a análise, um dos principais exames é a oximetria, responsável por medir a saturação de oxigênio no sangue, cujos valores em uma pessoa saudável ficam acima de 95%.

“Quando o porcentual aparece abaixo de 90%, em ar ambiente, é sinal grave”, diz Sztajnbok. “Um paciente que chega com falta de ar importante, com valores muito baixos, vai direto para a sala de emergência. Às vezes, é entubado imediatamente.”

Também é praxe realizar tomografia de tórax, pela qual especialistas conseguem detectar lesões característica do novo coronavírus. “É um padrão que a gente chama de ‘vidro fosco’, que aparece por exemplo em pneumonias bacterianas, mas em várias áreas dos dois pulmões”, explica o diretor de governança clínica do Sírio-Libanês, Fernando Ganem.

Para casos menos graves, o socorro pode ser feito por métodos não-invasivos. Basicamente, se aumenta a oferta de oxigênio através de equipamentos como máscara para nebulização ou catéter de alto fluxo. “Alguns pacientes, apenas com essa medida, conseguem ter a reação normalizada”, afirma Rolim, do Einstein.

em cenário de piora, a equipe médica, primeiro, aplica sedativos e relaxante muscular no paciente -- cuidado necessário para evitar tosses involuntárias que acabam despejando grandes cargas de Sars-Cov-2, o vírus causador da covid-19. Em seguida, vai inserindo um tubo pela boca ou narina até a traqueia que, acoplado a um ventilador mecânico (o respirador), compensa a falta de atividade dos pulmões.

A segurança

Segundo especialistas, equipes médicas acabam ficando mais expostas ao coronavírus na hora de fazer a entubação ou extubação (quando o aparelho é removido) do paciente. “É um momento em que há contato. Precisa fazer a visualização direta, levantar a língua, expor a epiglote… Se ele tossir, a carga de vírus é enorme”, afirma Sztajnbok.

Considerada altamente contagiosa, a doença tem levado hospitais a adotar sistemas especiais de segurança nas UTIs. Para chegar aos quartos, isolados uns dos outros, os profissionais precisam se paramentar com máscara, luva, avental e face shield, o escudo facial que protege de microgotículas dispensadas no ar. Procedimentos de vestir - e principalmente de retirar - os equipamentos de proteção seguem protocolos rígidos.

Em algumas unidades, agora só um membro das equipes multiprofissionais vai presencialmente até o paciente -- em vez do time completo (intensivista, enfermeiro, nutricionista, fisioterapeuta respiratório). Controlando acesso, seguranças anotam o nome de cada médico e avisam caso alguém da equipe já tenha ido lá antes.

Acompanhantes também foram vetados ou sofreram redução no tempo de visita. No Sírio, por exemplo, há pessoas internadas que falam com familiares através de tablets ou notebooks. “É um problema social que temos encontrado”, afirma Ganem. “Quando o paciente está consciente, ele fica muito deprimido pela situação de isolamento.”

No Emílio Ribas, as UTIs têm antecâmaras com pressão negativa, sistema que impede o ar “infectado” de sair e contaminar outros ambientes. Já o Einstein comprou 150 aparelhos portáteis de pressão negativa para enfrentar o coronavírus. Antes da pandemia, o hospital contava com dois equipamentos similares.

A UTI

Por representar casos de maior instabilidade, pacientes na UTI precisam ser monitorados 24 horas por dia e as equipes médicas devem estar prontas para intervir imediatamente. “Existe um padrão muito curioso, que já foi constatado na literatura lá fora. Por volta do sétimo ao décimo dia, o paciente infectado tem uma virada”, relata Ganem. “Em questão de horas, uma pessoa que estava respirando por conta própria pode ter um descompasso e precisar receber ventilação.”

“O coronavírus é uma doença nova e complicada, com a qual ainda estamos aprendendo a lidar”, diz Sztajnbok -- na UTI do Emílio Ribas, 100% dos atendidos estão entubados. “Nem sempre há o mesmo padrão de lesão pulmonar. Cada comportamento, demanda uma estratégia diferente de ventilação mecânica. O aparelho é complexo, difícil de pilotar. Muitas vezes, a expertise dos médicos é a diferença entre salvar muitas vidas ou morrer muita gente.”

Já no Einstein, cerca de 50% dos internados em terapia intensiva precisam do respirador, segundo Rolim. “Temos pacientes que saíram da internação em terapia intensiva depois de três ou quatro dias. Entre os entubados, a média é de dez dias”, afirma.

Em pacientes de covid-19, os médicos também têm percebido maior intercorrência de insuficiência renal comparado a outras infecções respiratórias. Por isso, aparelhos de diálise chegam a ser usados em até 20% dos casos, segundo estimam. Também há registro pacientes que desenvolvem tromboses, mas sem consenso médico de que esse comportamento destoa de outras patalogias.

Principais Equipamentos da UTI

  1. Monitor multiparamétrico: monitora sinais vitais e trasmite para uma central para acompanhamento médico;

  2. Bomba de infusão: dispositivo eletrônico que aplica de forma contínua medicamentos previamente programados

  3. Respirador: equipamento responsável pela ventilação mecânica

  4. Diálise: máquina que substitui a função dos rins

  5. Cama com balança: permite pesar o paciente sem precisar deslocá-lo, o que é útil para detectar quadros de desidratação ou retenção de líquidos

O(s) tratamento(s)

Integrantes de rede de pesquisa para avaliar segurança e eficácia de medicamentos contra a covid-19, o Sírio e o Einstein têm ministrado hidroxicloroquina para pacientes. Além dos estudos clínicos, outra forma de aplicação é para uso compassivo - quando o doente, com risco de vida e sem tratamento convencional, consente em tentar uma droga nova.

“Como o Ministério da Saúde liberou para casos graves, a gente deixa a critério do médico titular”, afirma Ganem, do Sírio. “Temos médicos que optam por não usar cloroquina. Outros, introduzem. A gente respeita a autonomia do médico, desde que a legislação e as autoridades tenham autorizado." O hospital tem desenvolvido, ainda, testes com plasma.

No Einstein, também são usadas drogas como azitromicina, antibiótico para tratamentos de infecções respiratórias, e dexametasona.  “Qualquer intervenção em que não há comprovação, idealmente tem de ser submetida a estudo clínico”, diz Rolim. "O pesquisador responsável avisa sobre benefícios e riscos. Se o paciente não for capaz de consentir, um representante legal assina o termo.”

"Quando o paciente vem para a UTI, a gente sempre oferece a possibilidade receber a hidroxicloroquina. Houve um politização muito grande sobre o uso ou não uso, mas o fato é que a discussão deve se dar no âmbito médico”, afirma Sztajnbok. No Emílio Ribas, também testa outra possibilidade com remdesivir, antiviral usado contra ebola. “Sem resultado clínico, não existe um tratamento para Sars-Cov-2: o que existem são várias drogas sendo testadas.”

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