Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

Pacientes vão à Alesp por liberação da 'pílula do câncer'

Grupo ocupou o plenário para cobrar a votação de um projeto de lei que libera a produção e distribuição da fosfoetanolamina

Paula Felix, O Estado de S. Paulo

16 Dezembro 2015 | 19h44

Atualizada às 21h14

SÃO PAULO - Pacientes com câncer e defensores da distribuição da fosfoetanolamina sintética, substância com suposto potencial para curar o câncer, ocuparam o plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo, nesta quarta-feira, 16, para cobrar a votação do Projeto de Lei 1435/2015, que libera a produção e distribuição da substância no Estado. Eles pediam ainda um acordo para que o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) libere a pílula.

O grupo participava de uma audiência pública que discutia o projeto, durante a manhã, e se dirigiu para o plenário no início da tarde, onde permanecia até as 20 horas. Cruzes brancas e balões foram colocados sobre as mesas. Os defensores da pílula também portavam faixas e cartazes pedindo a liberação da substância.

“Queremos que as liminares sejam liberadas e que a fosfoetanolamina seja produzida e entregue de imediato”, diz a dona de casa Rosany Cristina Zanini, de 55 anos, que tem um câncer de mama com metástase óssea. Ela chegou a tomar as cápsulas, cuja distribuição foi suspensa em novembro por decisão do Órgão Especial do TJ-SP. “Essa proibição foi um assassinato. Acabou com a nossa esperança”, afirma.

Desenvolvida pelo professor aposentado Gilberto Chierice, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos, a fosfoetanolamina se tornou polêmica por ter sido distribuída sem ter passado por testes com seres humanos e por não ter autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para ser usada como medicamento. Pacientes afirmam sua eficácia, mas, até o momento, não há comprovação científica. 

Durante dois meses, o comerciante Alex Sandro de Vargas Garcia, de 30 anos, tomou as cápsulas enquanto fazia radioterapia. Ele tem um tipo de câncer raro que tirou o movimento de suas pernas. “Fiquei na cadeira de rodas. Duas semanas após começar a tomar, fiquei de muleta. Depois, voltei a andar. A fosfoetanolamina reduziu meu tumor em três centímetros, e eu parei de tomar morfina.”

Natural do Rio Grande do Sul, Garcia veio para São Paulo para encorpar o grupo. “Tenho esperança de que vão liberar.”

Autor do projeto de lei que quer a liberação da substância, o deputado estadual Rafael Lima (PDT) disse compreender a atitude das cerca de cem pessoas que foram pressionar os deputados estaduais no plenário. “São mais de 8 mil liminares paradas. Eles querem ficar aqui porque estão sofrendo no corpo com essa doença.”

O grupo afirmava que não deixaria o plenário antes de ter um posicionamento sobre o caso. “Não vamos sair daqui. Não faz diferença se vamos morrer em um hospital ou na Assembleia. Já temos uma sentença de morte”, diz a analista de sistemas Bernadete Cioff, de 56 anos.

Acompanhando a filha de 28 anos, que tem um tumor na tireoide, o artista plástico Paulo Simonic, de 59 anos, disse ter ido preparado para passar a noite no plenário. “Na família, já tiveram minha sogra, minha cunhada e, agora, a minha menina. Ela foi diagnosticada há quatro meses e vem fazendo quimioterapia.”

Simonic levou uma faixa com a inscrição: “Em defesa da vida, fosfoetanolamina já!”. 

Uma comissão formada por pacientes e o presidente da Assembleia, Fernando Capez (PSDB), foram ao TJ para tentar uma reunião também para abordar a liberação das cápsulas.

Testes. No mês passado, o secretário estadual de Saúde, David Uip, anunciou que a fosfoetanolamina será testada em cinco hospitais da rede estadual por até 1 mil voluntários. O trabalho será encabeçado pelo Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e terá como alvo sete tipos da doença.

Também em novembro, o governador Geraldo Alckmin entregou para o ministro da Saúde, Marcelo Castro, um documento com um pedido para liberação da pílula em regime compassivo, quando ela pode ser usada por pacientes que já tentaram outros tratamentos sem sucesso mesmo sem ter autorização da Anvisa para ser distribuída. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação também anunciou que vai investir R$ 10 milhões em pesquisas com a substância. 

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