Enny Nuraheni/Reuters
Enny Nuraheni/Reuters

Pais dão preferência aos filhos homens quando há escassez de alimentos

Fato é revelado por estudo da Etiópia com 2 mil jovens em áreas urbanas e rurais durante 5 anos

estadão.com.br

12 Janeiro 2011 | 21h03

Em situações de escassez crônica de alimentos, os pais são inclinados a dar um tratamento preferencial aos meninos. A saúde das filhas, portanto, acaba sofrendo mais de insegurança alimentar. Esse fato é demonstrado por uma pesquisa do Instituto de Medicina Tropical da Etiópia, publicada na revista científica Pediatrics.

É evidente que a escassez de alimentos não é saudável para ninguém, mas até agora não se havia verificado se todas as crianças de uma família sofriam igualmente, ou se havia diferenças de gênero. Na maioria dos estudos sobre os efeitos da insegurança alimentar, os pais foram interrogados, e não os filhos. Cientistas da Universidade Jimma, também na Etiópia, auxiliados por pesquisadores americanos e flamengos, acompanharam 2 mil adolescentes em áreas urbanas e rurais durante 5 anos.

Em situações de insegurança alimentar, uma média de três em cada dez meninas disseram ter ficado doentes no mês anterior ao levantamento, contra dois meninos em cada dez. Nesses domicílios, o relato de sofrimento por doenças em garotas era duas vezes mais provável. As meninas reportaram, ainda, sete vezes mais dificuldades com atividades rotineiras por causa de problemas de saúde ou sensação de cansaço.

Em casos como esse, trabalhadores humanitários devem levar os resultados em consideração, destacam os autores. Na verdade, as meninas deveriam ser mais saudáveis. Biologicamente falando, elas são mais resistentes. Na adolescência, fumam menos e têm menos comportamento de risco que os garotos. Mas a discriminação cultural faz com que sofram mais com situações de escassez.

Os adolescentes e seus familiares foram questionados em uma temporada de fome (estação chuvosa) e durante a primavera, quando há menos risco de insegurança alimentar. Os cientistas observaram, entre outras coisas, o quanto e quão variada é a alimentação, a altura e o peso dos voluntários. Os jovens alegaram cansaço e falta de energia no mês anterior à pesquisa. Para problemas com atividades no trabalho, na escola ou em casa, disseram que têm problemas de saúde. Um quarto das meninas e 16% dos meninos estavam em situação de insegurança alimentar.

Os cientistas deixaram de lado fatores como diversidade alimentar, IMC, local da residência, ambiente de cozimento (quarto, sala, cozinha) distância até o descarte de lixo e presença de animais em casa para tentar isolar o efeito do sexo sobre essas doenças. Mesmo assim, as meninas relataram sete vezes mais baixa energia e 7,4 vezes mais problemas com as atividades diárias. A diferença entre meninos e meninas foi mais intensa nas zonas rurais que nas cidades.

É sabido que as mulheres classificam sua saúde sempre mais problemática que os homens, e que mais frequentemente relatam problemas, por serem mais prudentes que o sexo masculino. Mas nesse caso isso não pode ser uma explicação, porque, quando meninos e meninas viviam uma situação de segurança alimentar, ambos não reportaram diferenças.

Em muitas culturas, os filhos são mais valorizados que as filhas. Uma pesquisa anterior, em países como Filipinas, Etiópia, Nepal, Índia e Guatemala, mostrou que os meninos recebem mais e melhores alimentos. Mas, na Etiópia, em todo caso, essa discriminação só leva a problemas de saúde quando não há comida suficiente disponível.

Os pesquisadores concluem que os trabalhadores humanitários que fornecem mais ou melhores alimentos às pessoas precisam dar mais atenção às meninas quando se trata de um caso de insegurança alimentar. Eles sugerem que uma boa maneira de reduzir as disparidades de gênero é remover as restrições de recursos. Isso pode ser um pouco mais fácil que mudar as regras da população em torno dos sexos.

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