Amanda Perobelli/Reuters
Amanda Perobelli/Reuters

País não deve ter novo pico de mortes, mas interrupção da queda preocupa, diz especialista

Reversão de tendência no Peru e no Chile é alerta para o Brasil, diz o cientista de dados Isaac Schrarstzhaupt, coordenador da Rede Análise Covid-19

Entrevista com

Isaac Schrarstzhaupt, cientista de dados e coordenador da Rede Análise Covid-19

Ítalo Lo Re, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2021 | 15h00

Nos últimos meses, o avanço da vacinação derrubou as taxas de hospitalizações e mortes pela covid-19 no Brasil, que chegou a ser o epicentro da pandemia no primeiro semestre. Em setembro, no entanto, a curva de óbitos parou de cair e, há mais de duas semanas, a média de vítimas segue acima de 500.

Especialistas ainda tentam descobrir os motivos dessa mudança, mas o espalhamento da variante Delta, mais transmissível, e o relaxamento crescente das medidas de isolamento social são apontados como possível explicações. O número ainda grande de brasileiros sem a proteção vacinal completa — entre atrasados e aqueles cuja data de tomar a 2ª dose ainda não chegou — também preocupa. 

Para o coordenador da Rede Análise Covid-19, o cientista de dados Isaac Schrarstzhaupt, o País não deve registrar novos recordes de hospitalizações, mas a interrupção da queda de infectados preocupa. Segundo ele, a reversão da tendência em países vizinhos — como Chile, cuja vacinação está adiantada, e Peru — obriga o Brasil a monitorar a transmissão com cuidado ainda maior. "Os países na América do Sul caminham relativamente juntos", destaca Schrarstzhaupt ao Estadão

O avanço da vacinação garante que os casos não voltem a subir?

Quando a gente pega como referência países que estão mais adiantados no esquema vacinal, grande parte teve alta depois do início da vacinação. Isso pode ter sido, em um primeiro momento, porque o contexto global estava pior. Mas há outros fatores. Um deles é que ao mesmo tempo em que a vacinação avança, os governos diminuem as restrições, como está sendo feito no Brasil. É como um muro em que se põe um tijolo de um lado e tira do outro, o que pode gerar alguns efeitos.

O que os indicadores em alta das últimas semanas dizem sobre o cenário atual?

Nos últimos meses, não só o Brasil, mas a América do Sul, apresentaram uma queda forte nos casos e óbitos. Agora, está com um início de reversão no Peru e começou a reverter a curva no Chile, mesmo com a vacinação bem mais avançada que a nossa. Em alguns locais do Brasil, os índices começaram a subir de novo. É verdade que bem devagarinho, nem perto de antes, mas é preciso ficar atento. Acredito que não vai ter mais recorde de hospitalização, de óbito, mas parece que neste momento as curvas estão querendo estabilizar no País.

Quais outros indícios apontam para essa leitura da situação da pandemia?

A gente está vendo algumas hospitalizações aumentando. No Rio Grande do Sul, por exemplo, houve o terceiro dia (quarta-feira, 29) com aumentos expressivos de internados em UTI. Somando isso à reversão no Chile, ao início de reversão no Peru, liga-se um alerta para o Brasil. Os países na América do Sul caminham relativamente juntos. 

Sem contar que não sabemos ainda qual é a sazonalidade da covid, como se sabe da gripe, por exemplo. Em partes, pode ter acontecido nos últimos o que houve no fim de 2020, quando a gente teve 100 dias com os indicadores em queda, mesmo naquela época ainda estando sem vacina. No início deste ano, voltaram a aumentar. Agora está esse cabo de guerra vacina-transmissão, é preciso acompanhar.

A Universidade de Maryland (EUA) tem uma pesquisa relacionada a sintomas de covid-19. O que diz a pesquisa sobre o Brasil?

Principalmente enquanto os dados de casos ainda estão instáveis no Brasil, por conta de represamentos recentes, a pesquisa de sintomas da Universidade de Maryland é importante para entender o cenário das próximas semanas.

Com base em uma metodologia própria, a universidade fez parceria com o Facebook para direcionar questionários de sintomas de covid para diferentes lugares. A pesquisa pergunta tudo quanto é tipo de coisa e, como a rede social é uma porta de entrada para muitas pessoas, acaba gerando informações em tempo real. 

Esse dado não tem o delay (atraso) que tem nas plataformas do Ministério da Saúde, sem contar que os dados dos sintomas aparecem antes do aumento de casos, o que ajuda a ter uma dimensão do que está havendo. Dito isso, a curva da pesquisa de sintomas de Maryland recentemente estabilizou e depois começou a subir no Brasil. A virada das estações pode até ter um impacto em pessoas com mais sintomas gripais, mas os pesquisadores segmentam bem os questionamentos por conjuntos de sintomas específicos de covid, o que dá uma precisão maior.

Em quais Estados a situação está pior?

Olhando pela pesquisa da Universidade de Maryland, Bahia, Mato Grosso e Pernambuco estão demonstrando indícios mais claros de reversão nas quedas. Ou seja, as pessoas desses locais estão reportando sintomas de covid-19 com maior frequência do que há alguma semanas. Ao passo que São Paulo, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul parecem estar em um "novo piso", com os índices deixando de cair. São alertas que a gente torce para que não se concretizem no registro de mais casos daqui a cerca de 15 dias.

Para além do registro de sintomas, outro dado chama atenção neste momento?

A reversão de óbitos. Ainda pode-se dizer que está estável ou em queda, mas antes estava caindo mais rápido. Tem algo que está freando a queda, esse é um dos pontos principais. Será que chegamos no piso? O que será que houve? Em algumas regiões do Brasil, como no Centro-Oeste, já começou um leve aumento. O que liga o alerta para acompanhar por mais tempo, já que os óbitos não são registrados pela data que ocorrem e, por conta disso, não dá para tachar tão rápido que vivemos um novo momento. Tem que monitorar por um tempo mais longo até para fugir de distorções causadas por represamentos.

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