Eduardo Melo
Fabricia Garcia com os três filhos: ela procurou e teve dificuldades para achar vacina na rede pública para o mais velho. Eduardo Melo

País tem piores índices de cobertura da série histórica nas principais vacinas

Em alguns casos, como os dos imunizantes contra tuberculose e poliomielite, o porcentual de vacinados em 2019 foi o menor em mais de 20 anos

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - Sete das nove vacinas indicadas para bebês tiveram em 2019 os piores índices de cobertura pelo menos desde 2013 no País. Em alguns casos, como os dos imunizantes contra tuberculose (BCG) e poliomielite, o porcentual de crianças vacinadas em 2019 foi o menor em mais de 20 anos, segundo dados oficiais do Programa Nacional de Imunizações (PNI) tabulados pelo Estadão no portal Datasus, do Ministério da Saúde. Nenhuma das nove vacinas atingiu a meta prevista pelo governo. Quatro delas tiveram os piores resultados da série histórica.

A queda na cobertura vacinal já vinha sendo observada em anos anteriores, mas atingiu patamares ainda mais preocupantes no ano passado. A BCG, por exemplo, dada aos recém-nascidos na maternidade, teve a menor cobertura da série histórica, divulgada desde 1994. Com 85,1% dos bebês vacinados em 2019, foi a primeira vez em 25 anos que ela não alcançou a meta federal de ter 90% dos recém-nascidos protegidos.

Outra vacina que tradicionalmente registrou altas coberturas no País e sofreu queda na adesão foi a da poliomielite. No ano passado, 82,6% das crianças tomaram a dose, o menor índice desde 1997. A vacina contra a hepatite B, dada ainda nos primeiros 30 dias de vida, registrou a pior taxa de cobertura vacinal desde 2014, ano em que foi incluída no SUS: 77,5%.

O imunizante contra meningite C e a vacina pentavalente tiveram, em 2019, as menores taxas de adesão desde 2011 e 2013, respectivamente, primeiro ano completo em que estavam disponíveis na rede pública. A primeira registrou cobertura de 85,6% no ano passado. A segunda, que protege contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e contra a bactéria haemophilus influenza tipo b, alcançou taxa de apenas 69,6%.

As vacinas contra rotavírus e pneumonia tiveram os piores índices desde 2011 e 2012, respectivamente. O imunizante contra hepatite A, única das nove vacinas para bebês que teve aumento de cobertura entre 2018 e 2019, ainda está com adesão abaixo da meta: 83,7%. Já a tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, melhorou em relação a 2017, mas também não atingiu a meta de 95% de vacinados. No ano passado, o índice foi de 91,5%.

Para especialistas em imunização, embora os movimentos antivacina tenham um impacto na diminuição da adesão, os principais motivos para a queda da cobertura vacinal no País são a baixa percepção de risco da população sobre doenças erradicadas e dificuldades no acesso aos imunizantes nos postos de saúde. “Um dos problemas é a falta de vacinas. Os pais procuram os postos e nem sempre encontram todas as vacinas. Isso afeta a credibilidade do programa. Nos últimos anos, com frequência recebíamos comunicados do ministério avisando sobre o desabastecimento de alguma vacina”, relata Alessandro Chagas, assessor técnico do Conselho Nacional de Secretarias Municipais da Saúde (Conasems).

Para Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), a escassez de alguns imunizantes levou à adoção de alternativas que dificultam a adesão da população, como a restrição de dias e horários em que uma determinada vacina é aplicada. “A BCG é um exemplo. Sempre tivemos altas coberturas porque o bebê já é vacinado na maternidade. No ano passado, algumas cidades passaram a agendar a vacinação no posto para otimizar os frascos (cada frasco tem dez doses e, após aberto, dura somente seis horas). Aí você já perde a janela de oportunidade de vacinar na maternidade.”

Ela cita ainda o caso da pentavalente, que ficou meses em falta em 2019. “É claro que fake news existem e prejudicam, mas parte do problema é falta de estrutura e comunicação com a população”, afirma.

A gerente de projetos Fabrícia de Souza Garcia, de 37 anos, demorou mais de um ano para encontrar, na rede pública, a vacina DTP para a filha, então com 4 anos. A DTP também protege contra difteria, tétano e coqueluche e é um reforço para a pentavalente. “Era para ela ter tomado com 4 anos, mas só consegui dar quando ela tinha mais de 5 anos. Ia toda semana no posto, mas não tinha”, conta.

Governo

Questionado sobre a queda na cobertura vacinal e a falta de imunizantes, o Ministério da Saúde afirmou que “vários fatores têm interferido nas coberturas vacinais, variando desde a falsa sensação de segurança causada pela diminuição ou ausência de doenças imunopreveníveis, desconhecimento da importância da vacinação por parte da população e as falsas notícias veiculadas especialmente nas redes sociais sobre o malefício que as vacinas podem provocar à saúde”.

Quanto ao desabastecimento de alguns imunizantes, alegou que “tem buscado alternativas e parcerias no mercado internacional a fim de suprir a demanda”. Entre as alternativas, diz a pasta, está a aquisição de um mesmo produto de diferentes laboratórios e remanejamento de vacinas dentro do território nacional para suprir a falta temporária em determinadas localidades do País.

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Com pandemia, cobertura vacinal despenca para menos de 60% e governo prepara campanha

O medo dos pais de levarem as crianças aos postos de saúde por causa do novo coronavírus é a principal razão para as baixas coberturas

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - Os números parciais de cobertura vacinal para 2020 indicam que a pandemia pode ter reduzido ainda mais a procura por imunização no País. Dados preliminares do Ministério da Saúde obtidos pelo Estadão apontam que a maioria das vacinas infantis registrou, no primeiro semestre do ano, coberturas na faixa dos 50% a 60%.

A cobertura da BCG para o período de janeiro a junho está em apenas 57,4%. A da poliomielite alcançou somente 59,5%. A da tríplice viral, que protege contra sarampo e outras duas doenças, está em 64,3%. A dose da vacina da hepatite B dada aos recém-nascidos teve apenas 50,5% da meta alcançada.

Os dados ainda não são os finais pois os gestores municipais, responsáveis por executar as ações de vacinação, têm até março do ano seguinte para registrar no sistema federal todas as doses aplicadas. Mas especialistas em imunização e o próprio Ministério da Saúde já veem o cenário com preocupação. A pasta prepara uma campanha de multivacinação para outubro para tentar colocar em dia as doses em atraso.

Para Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), mesmo com o prazo prolongado dado aos gestores, é incomum ver coberturas tão baixas nesta época do ano. “Mesmo que eles tenham meses para notificar, os índices parciais não costumam destoar tanto dos que vemos no fim do ano. Acredito que tenha um impacto, sim, da pandemia. Muitos estão adiando a vacinação com medo do vírus”, diz.

O medo dos pais de levarem as crianças aos postos de saúde em meio à pandemia é a principal razão para as baixas coberturas, diz. Mas problemas nas notificações das doses dadas também podem estar afetando os números. “Os sistemas de registro são complexos, nem sempre funcionam. No meio da pandemia, a prioridade de atendimento era outra e pode ser que algumas doses dadas não tenham sido notificadas ainda”, explica Alessandro Chagas, assessor técnico do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems).

Isabella destaca o risco de retomada das aulas presenciais com as carteiras de vacinação atrasadas. “Neste ano, mesmo com todo mundo isolado, tivemos 7 mil casos de sarampo. Imaginem se as crianças estivessem indo nas escolas. É muito preocupante. É importante que, nos protocolos de retomadas das aulas, esteja como um dos pontos fundamentais a atualização das doses em atraso”, diz ela.

Questionado sobre os impactos da pandemia na adesão à vacinação, o Ministério da Saúde afirmou que foram mantidas e prorrogadas as estratégias de vacinação contra o sarampo em pessoas de 20 a 49 anos. Disse ainda que outras ações serão realizadas no segundo semestre, como as campanhas nacionais de vacinação contra a poliomielite e a multivacinação para a atualização da situação vacinal. “O público-alvo das ações inclui crianças e adolescentes de até 15 anos cujas doses estão atrasadas por qualquer motivo, inclusive a pandemia”, disse a pasta.

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