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Pais, tenham paciência

Escolas não sabem ensinar pela internet, os professores nunca fizeram

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2020 | 05h00


O assunto do momento nos grupos de WhatsApp de pais é discutir as atividades online que as escolas têm passado para seus filhos. Ou reclamar delas. Um dos questionamentos comuns é a quantidade, considerada insuficiente, de lição. Muitos pais acreditam que os meninos e as meninas deveriam dedicar mais tempo aos estudos a distância. Também se discute a forma. Quem tem filho adolescente diz que ele fica entediado com aulas gravadas em vídeos e muitos pedem explicações e correções ao vivo dos professores, usando ferramentas de chat.

Na verdade, há reivindicações de todos os tipos. Pais se sentem inseguros em relação ao que a escola está fazendo nessa onda forçada de educação a distância. É tudo muito novo, para todos. Em defesa das escolas, é preciso dizer que legalmente o ensino fundamental não presencial só é autorizado no Brasil em casos emergenciais. Mesmo com a óbvia emergência atual, ainda foram necessárias deliberações específicas dos conselhos estaduais de educação para regular esse tipo de atividade agora.

Além da amarra legal, ensino a distância para crianças e adolescentes vai contra a própria essência da escola, em especial para os pequenos. Como escreveu Tânia Rezende, educadora e diretora da Escola de Educação Infantil Jacarandá, ao comentar a crise atual, "escola é presença, é coletivo, olho no olho, toque, experiências compartilhadas".

Portanto, as escolas não sabem ensinar pela internet. Os professores nunca fizeram, não conhecem as ferramentas, não têm ideia de como transformar online aquilo que programaram para fazer em classe. Estão testando enquanto fazem, vendo o que dá certo, aprimorando a cada dia, a cada semana de isolamento - essencial para conter o novo coronavírus. Então, pais, tenham paciência (e aqui me incluo).

Dito isso, não é fácil ser paciente com crianças ou adolescentes em casa perguntando a toda hora o que podem fazer, entediados, correndo para as telas, já que não estão autorizados a ver amigos ou a sair para brincar. Segundo pesquisa divulgada recentemente nos Estados Unidos, pais com filhos menores de 18 anos são os que mais se declaram afetados pela crise causada pela pandemia. São totalmente compreensíveis textos e áudios que aparecem na internet de mulheres enlouquecidas - fakes ou não - , dizendo que vão deixar as crianças na frente da TV o dia todo porque não nasceram para fazer homeschooling. Em declaração ao The New York Times, uma mãe de Massachusetts afirmou que sente que tem agora cinco empregos, "mãe, cozinheira, faxineira, professora e gerente de uma empresa de serviços", esse último seu emprego de fato, para qual ela trabalha em home office, por causa do coronavírus. 

O cenário é tão incerto que não dá nem ainda para saber se essas atividades online serão consideradas como horas oficiais de aula. Isso porque a deliberação do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, por exemplo, exige que elas sejam documentadas e comprovadas para um eventual desconto de horas - escolas precisam cumprir 800 horas anuais de aulas. Por essa dificuldade, algumas instituições de ensino passaram a decretar férias nesse período, adiantando as de julho e seguindo sugestão do sindicato da categoria.

A professora Ana Paula Chinelato, que trabalha no Colégio Porto Seguro, um dos poucos que estão dando aulas online diárias e ao vivo, já notou que o que os alunos mais sentem falta não é do conteúdo, tão cobrado por alguns pais. "Quando eles me veem, é incrível como se sentem acolhidos. São tão carinhosos, mandam beijos pelo vídeo, corações. A pergunta que aparece todo dia é: quando vamos voltar?" Escola é presença. 

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