Sebastião Moreira/ EFE
Sebastião Moreira/ EFE

País vacina só 48% dos idosos acima de 90 enquanto imuniza 142 mil entre os menos prioritários

Faixas etárias que deveriam estar recebendo imunizante só em etapas futuras da campanha conseguiram dose antes de meta dos mais vulneráveis ser atingida

Fabiana Cambricoli e Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2021 | 16h31
Atualizado 26 de fevereiro de 2021 | 19h51

SÃO PAULO - Em meio à escassez de doses da vacina contra a covid-19, o Brasil ainda não conseguiu vacinar nem metade de seus idosos acima de 90 anos, mas já tem registro de ao menos 142 mil pessoas de grupos menos prioritários imunizadas, como 119,6 mil idosos com menos de 75 anos, grupo ainda não contemplado na atual fase da campanha, segundo diretrizes federais e estaduais.

Levantamento feito pelo Estadão a partir de dados do Ministério da Saúde disponibilizados pela plataforma Brasil.IO indica que somente 48,8% dos brasileiros com 90 anos ou mais conseguiram receber a imunização até agora. O grupo é o primeiro na lista de prioridades do governo federal por faixa etária, mas só teve 436,6 mil vacinados entre os 893,8 mil previstos.

Ao mesmo tempo, o sistema federal registra a vacinação de 29,7 mil pessoas de 70 a 74 anos, 36,1 mil entre 65 a 69 anos e 53,7 mil na faixa etária dos 60 a 64 anos que, embora façam parte de grupos prioritários, ainda não poderiam estar contempladas na atual fase da campanha. Os números já excluem os idosos de menos de 75 anos do Amazonas e de outros Estados do Norte que tiveram autorização excepcional para vacinar essa faixa etária por causa da situação epidemiológica preocupante.

Os dados do ministério apontam outros problemas na priorização dos vacinados no País. Há entre os já imunizados 11,9 mil doentes crônicos com menos de 60 anos, 3,9 mil agentes das forças de segurança, 1,9 mil trabalhadores da educação e 387 militares. Os quatro grupos também deveriam ser vacinados só em etapas futuras da campanha.

Especialistas apontam que, diante dos números, é preciso investigar se há ‘fura-filas’ nesses registros, mas apontam também outras razões que podem explicar o cenário, como a falta de padronização dos critérios de vacinação entre diferentes municípios, necessidade de utilizar doses de um frasco já aberto em idosos mais jovens para não haver descarte e até erros de preenchimento no sistema.

Eles ressaltam, no entanto, que o objetivo maior da vacinação nesta fase - evitar hospitalizações e mortes - pode ser prejudicado com a baixa cobertura entre os mais vulneráveis.

“É claro que a gente quer que todo mundo seja vacinado e a vacina chegue aos 60 e 70 anos, mas, diante do número limitado de doses, precisamos ter prioridades. Quanto mais idoso, maior a chance de morrer de covid, por isso o esforço deve ser nos mais velhos”, afirma Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Assessor técnico do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), Alessandro Chagas explica que o órgão tem orientado os secretários a seguir as diretrizes do ministério de priorizar os mais vulneráveis. “O município tem autonomia para elaborar suas estratégias e pode até ampliar o público com alguma justificativa epidemiológica, mas a diretriz geral é da União. Se tem município em que a vacinação está chegando nos menos idosos, eles já deveriam estar com uma alta cobertura entre os mais idosos”, afirma.

Para a infectologista Ana Luiza Gibertoni, falta uma estratégia na definição de grupos prioritários e na distribuição das vacinas. “Falta conhecimento epidemiológico para desenhar uma estratégia que maximize o impacto da vacinação sobre a população. Dessa forma que está sendo feita, o impacto é mínimo”, diz.

Ela fala que o Brasil tem profissionais capacitados para articular essa estratégia, mas que eles “não estão dentro do governo”. “Falta uma liderança nacional, com voz, respeitada na sociedade e na comunidade científica para conduzir o plano nacional de imunização”. 

Uma forma de aumentar esse impacto é respeitar a ordem de vacinação. “Não dá para pulverizar a vacina entre todos os grupos prioritários, é preciso seguir a ordem. Mesmo se a pessoa tiver comorbidades, se ela for jovem deve esperar”.

Para a epidemiologista Carla Domingues, que foi coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI) entre 2011 e 2019, a escassez de doses, as falhas na distribuição e a falta de uma comunicação mais assertiva do ministério são os responsáveis pelas distorções na priorização dos vacinados.

“Não dá para dizer que os municípios que estão ampliando o público estão errados. Falta uma coordenação nacional. Fica essa distribuição de doses a conta-gotas. Às vezes um município tem poucos idosos de mais de 90 anos e precisa usar as doses do frasco aberto em até seis horas. É muito difícil de operacionalizar dessa forma”, diz.

Carla e Isabella opinam que a baixa cobertura no grupo de 90 anos ou mais pode estar relacionada à dificuldade de acesso desses idosos aos postos de saúde e à complexidade das vacinações domiciliares. "Neste grupo estão os idosos com mais dificuldade de mobilidade, que dependem mais da família. Acho que é um problema principalmente de acesso, porque eles precisam esperar a vacinação domiciliar”, diz Isabella.

Critérios para vacinação de trabalhadores da saúde variam entre cidades

Entre as categorias prioritárias para vacinação, a dos trabalhadores de saúde é a que gera mais divergência entre os municípios. Enquanto alguns oferecem vacina para todos os profissionais da área, outros restringem os imunizantes àqueles que atuam em hospitais, unidades de pronto atendimento ou na atenção primária. O plano nacional de imunização dá brecha às diferentes interpretações.

O levantamento feito pelo Estadão mostra que 3,3 milhões de trabalhadores da área já receberam ao menos uma dose da vacina. As equipes de apoio, como recepcionistas, funcionários da limpeza e porteiros, estão incluídas nos números. O PNI previa imunizar 4,9 milhões deles até a etapa atual.

Apesar de a cobertura vacinal estar em 67% do esperado, especialistas questionam a prioridade dada a algumas categorias e a falta de detalhamento do plano. Os dados mostram que já foram vacinados, por exemplo, 6.979 médicos veterinários e 769 auxiliares de veterinário. Embora eles não atendam pessoas potencialmente infectadas, as categorias foram incluídas no PNI como trabalhadores de saúde e, portanto, estão no grupo prioritário.

O plano não explica em detalhes como deve ser a prioridade dentro das categorias. A infectologista Ana Luiza Gibertoni fala que isso abre espaço para que cada município interprete-o de maneira diferente na hora de operacionalizar a campanha de vacinação.  “Você precisa proteger a força de trabalho e vacinar os profissionais que trabalham com o público, que estão expostos à doença. Os demais devem esperar”, aconselha. 

A médica trabalha no sistema nacional de saúde do Reino Unido e conta que no país os profissionais foram convocados nominalmente para a vacinação. Num cenário de escassez de vacinas como o brasileiro, isso seria o ideal. “Não dá para pedir que as pessoas se apresentem voluntariamente para a vacinação. Deve haver um convite pessoal e tem de estar muito claro por que o profissional está sendo imunizado”, fala.

As principais categorias de vacinados entre os trabalhadores de saúde são técnicos de enfermagem (370 mil), enfermeiros (180 mil) e médicos (172 mil). A maioria desses profissionais, no entanto, não estão classificados em subcategorias no sistema. Mais de 1,8 milhão de registros estão descritos como “outros”, o que dificulta o controle sobre a distribuição das doses.

Só em São Paulo há 1,1 milhão de trabalhadores de saúde sem subcategoria. Não é possível dizer, pelos dados do Ministério da Saúde, quantos médicos, enfermeiros ou veterinários foram vacinados no Estado. 

Em nota, o Estado alega que o PNI não prevê a subcategorização dos profissionais de saúde e que “em nenhum momento pontuou a necessidade deste tipo de segmentação em campanhas”. O governo disse também que na plataforma estadual Vacivida é possível acompanhar a segmentação dos grupos prioritários, mas não soube informar à reportagem quantos profissionais foram imunizados em cada subcategoria.

Na categoria de idosos, 9 mil vacinados com menos de 60 anos

O levantamento feito pelo Estadão mostra ainda problemas no registro de vacinados que podem indicar até fraudes. No grupo categorizado como idosos, a reportagem encontrou 9 mil registros de imunizados com menos de 60 anos, segundo análise feita segundo a data de nascimento e a idade informada.

Há até registros de vacinados menores de idade - grupo que não pode receber a vacina por falta de testes clínicos nessa faixa etária. São 94 pessoas com menos de 18 anos classificadas no grupo dos idosos. Em outras categorias, como trabalhadores da saúde e indígenas, a inconsistência também aparece, totalizando 2,4 mil pessoas com 17 anos ou menos vacinadas.

Outro problema é a falta de categorização de parte dos vacinados. Há 118 mil imunizados que não foram incluídos em nenhum grupo prioritário no sistema, o que dificulta o controle sobre a administração devida das doses aos mais vulneráveis e favorece até possíveis desvios para indivíduos de fora dos grupos.

Responsabilidade de cumprir critérios é dos Estados e municípios, diz ministério

Questionado sobre a baixa cobertura da vacinação entre idosos com 90 anos ou mais, o Ministério da Saúde afirmou que repassou aos Estados doses suficientes para a cobertura de 100% desse público, mas ressaltou que as unidades da federação são responsáveis pela organização do cronograma de distribuição aos municípios, que por sua vez devem “seguir e obedecer o cronograma do PNI e, em caso de baixa cobertura, fazer busca ativa dos grupos estabelecidos como prioritários que estão abaixo da meta”.

A pasta disse ainda ter enviado ofício no dia 8 de fevereiro aos Estados e municípios alertando que não seguir a ordem priorizada pelo programa poderia  “acarretar na falta de vacinas para os grupos de maior risco de adoecimento e óbito pela covid-19”. Orientações referentes para cada etapa, diz o ministério, são realizadas por meio de informes técnicos, com as definições referentes aos grupos que deverão ser atendidos com o quantitativo de doses enviado por etapa.

Sobre a vacinação de faixas etárias não preconizadas pelo Ministério da Saúde, como menores de 60 anos sem comorbidades, a pasta disse que cabe aos municípios e Distrito Federal, responsáveis pela vacinação, a responsabilidade por estes casos, uma vez que repassa informações que “deixam claro o público-alvo a ser vacinado”.

Sobre as falhas no sistema de registro de vacinação, o órgão afirmou que  está “trabalhando incansavelmente para identificar e mitigar possíveis problemas relacionados ao funcionamento do sistema de registro de doses aplicadas e suas inconsistências”. A pasta disse que o modelo atual, de registro nominal, é uma inovação e está sendo monitorado.

“As inconsistências, que podem ser identificadas pelas diversas instâncias envolvidas na vacinação, são discutidas com o DataSUS, no que diz respeito a possibilidades de erros de sistemas, e também são repassadas aos municípios para a verificação de possíveis erros de registros”, afirmou o ministério. A pasta disse que a verificação demanda tempo, mas que já está trabalhando para solucionar possíveis inconsistências.

“Cabe ressaltar que São Paulo, Rio Grande do Norte e 70 municípios utilizam um sistema de registro de aplicação de doses diferente do Ministério da Saúde. Isso corrobora para possíveis inconsistências, como duplicidade de registros, que também são solucionadas pelo DataSUS”.

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