Ronny Hartmann/ AFP
Ronny Hartmann/ AFP

Países europeus veem nova alta de casos de covid-19; China impõe lockdowns

Autoridades temem novo avanço consistente da doença em um momento de flexibilização das restrições. Brasil vê queda de registros e também está relaxando medidas de controle

Leon Ferrari e João Ker, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2022 | 13h23
Atualizado 16 de março de 2022 | 22h26

A curva global de infecções semanais por covid-19 voltou a subir, movimento que foi puxado pela nova alta registrada em países europeus e na Ásia, especialmente na China. A tendência fez com que autoridades chinesas decretassem lockdowns para conter o avanço do surto e tem chamado a atenção das autoridades, que temem um novo avanço consistente da doença. No Brasil, o momento é de queda dos registros e flexibilizações das restrições

No Brasil há queda dos registros e flexibilizações das restrições, e especialistas não acreditam em uma nova onda, como a causada pela Ômicron no início do ano. Ontem, o País registrou 354 novas mortes. A média semanal de vítimas, que elimina distorções entre dias úteis e fim de semana, ficou em 345, a menor desde 25 de janeiro.

“Sou moderadamente otimista. As flexibilizações ainda são precoces e desnecessárias, principalmente no uso de máscara em lugares fechados, o que nos deixa mais vulneráveis. Porém, não dá para fazer comparação entre nós e os países da Europa que têm taxas de vacinação bem inferiores às nossas”, aponta Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza, infectologista e epidemiologista da Unesp.

“Aqui, as vacinas funcionaram muito bem contra a variante Delta, nem tanto contra a Ômicron. Mas não vejo o Brasil com risco de uma nova onda significativa da pandemia, nem em termos de mortes, nem de casos. É claro que é impossível fazer previsões com certeza. Podemos errar, mas o que está ocorrendo na Ásia e na Europa não é algo tão absurdo ou explosivo em questão de números”, diz Fortaleza.

Superintendente de Vigilância em Saúde de Santa Catarina, Eduardo Macário diz que esse aumento de casos no exterior acende sinal de alerta para o Brasil, mas não acredita que uma nova onda ocorra no País. “Com os dados que tenho disponíveis neste momento, não acredito que tenhamos (uma nova onda) com a mesma intensidade que tivemos entre a segunda quinzena de janeiro e a primeira de fevereiro.”

Por outro lado, Macário destaca que “podemos ser surpreendidos com novas informações vindas desses países”. Na visão dele, tudo pode mudar a depender da eficácia das vacinas contra a subvariante da covid-19 e a capacidade de transmissão dela, bem como do tempo de duração da proteção da vacina de reforço. 

A alta de casos notada em diferentes pontos da Europa ainda não se refletiu nos dados de internações, o que poderia indicar o efeito de proteção oferecido pelas vacinas. Ainda assim, os governos reacenderam o sinal de alerta. 

Na Alemanha, as 1,6 mil novas infecções por 100 mil habitantes foram ultrapassadas pela primeira vez, enquanto a Itália registrou mais de 85 mil novos casos na terça-feira, 15. Na França, espera-se um pico de 120 mil a 150 mil novos casos diários até o fim de março. Já na Áustria, os casos dispararam após a diminuição de restrições. Por outro lado, com exceção do caso alemão, espera-se que as medidas restritivas desapareçam gradualmente. 

A Alemanha, por registrar números recordes de casos, está considerando novas medidas. O país, mais uma vez, registrou um novo recorde consecutivo de incidência de covid-19. As autoridades de saúde relataram 262.593 novos positivos e 269 mortes em 24 horas, em comparação com 215.854 e 314 há uma semana, enquanto os casos ativos são estimados em cerca de 3.637.200. 

Enquanto isso, o Parlamento Legislativo da Alemanha debate nesta quarta-feira, 16, o projeto de modificação da lei de proteção contra doenças infecciosas apresentado pelo governo de coalizão entre social-democratas, verdes e liberais que deve substituir a base legal atual que expira no próximo sábado, 19. 

Na França, espera-se que a recuperação seja revertida em 10 ou 15 dias sobre a pressão hospitalar, o que não alterará a flexibilização das medidas sanitárias. O número de pacientes nos hospitais, que vinha caindo continuamente há mais de um mês, estagnou nos últimos dias. 

O perigo é que a pandemia seja “banalizada”, o que “não acabou”, diz o conselho científico que aconselha o governo francês.

A Espanha registrou uma ligeira recuperação de infecções desde a semana passada, o que quebra a tendência de queda iniciada em meados de janeiro no país, com uma incidência ainda de alto risco, de 432 casos por 100 mil habitantes nos últimos quatorze dias. As secretarias de saúde das diferentes regiões do país atribuem os aumentos ao relaxamento das medidas e às comemorações do carnaval, enquanto especialistas alertam que nos próximos meses, diante de festividades como a Semana Santa, pode haver novos aumentos na transmissão.

Na Áustria, os casos dispararam menos de duas semanas após o fim de quase todas as restrições no país, o que levou a um novo recorde de 58.583 infecções nas últimas 24 horas, informaram as autoridades de saúde nesta quarta-feira, 16. O número de internações também está aumentando, embora ainda esteja bem abaixo dos registrados em outras ondas da pandemia. A curva de mortalidade também é ascendente, com 28 óbitos nas últimas 24 horas e 176 nos últimos sete dias.

Na Itália, o governo mantém o planejamento para eliminar restrições. Os casos do novo coronavírus aumentaram para níveis de alguns meses atrás, mas o governo continua com a programação para eliminar restrições e a obrigatoriedade do certificado de vacinação a partir de 31 de março em fases diferentes. 

De acordo com o boletim diário comunicado pelo Ministério da Saúde italiano, 85.288 novos casos e 180 mortes foram registrados na terça-feira. A Itália acredita que esse aumento se deve às baixas temperaturas das últimas semanas e observa que a menor agressividade da variante Ômicron e o alto número de italianos vacinados estão mantendo os hospitais em situação tranquila. 

O primeiro-ministro, Mario Draghi, assegurou que o objetivo é "abrir tudo o mais rápido possível" e confirmou que a 31 de março vai acabar o estado de emergência e, com ele, a divisão em zonas de risco das regiões.

A Bélgica também presenciou um aumento de infecções e hospitalizações na última semana de 8.075 e 156,4 diárias, respectivamente, informaram as autoridades de saúde nesta quarta-feira. Esses números representam um aumento nos casos de covid-19 de 30% de 6 a 12 de março em relação ao período de referência anterior. 

O país suspendeu praticamente todas as medidas de saúde para conter a propagação do coronavírus em 7 de março. Desde então, o certificado de vacinação não é obrigatório para entrar em ambientes fechados e o uso de máscara é obrigatório apenas nos transportes públicos, hospitais e lares de idosos.

Na Holanda, o número de pacientes com covid-19 nos hospitais aumentou na última semana, com quase duas mil pessoas internadas principalmente em enfermarias, segundo dados oficiais. As admissões na UTI têm sido relativamente baixas e estáveis com 156 pacientes em terapia intensiva nesta quarta-feira. Além disso, registra-se uma média de 61 mil novos positivos em 24 horas, com tendência decrescente nesta última semana, e as mortes estão em doze por dia.

Lockdowns na China

Autoridades chinesas impõem lockdowns na luta para conter o pior surto de covid-19 no país desde o início de 2020. Na terça-feira, os casos de covid-19 chegaram a mais de 5 mil novas infecções em todo o país. O número é pequeno quando comparado ao de muitos outros países grandes. Mas a China adotou uma estratégia de tolerância zero aos surtos, que exige bloqueios totais rígidos, testagem em massa e quarentena em instalações do governo. 

As autoridades em Pequim e uma lista cada vez maior de cidades e províncias dizem que o vírus ainda está se propagando e que o governo deve tomar medidas cada vez mais severas para detê-lo. Ainda estão estudando como os casos começaram a surgir. Mas fatores indicam a incidência de casos importados do estrangeiro e a prevalência da variante Ômicron.

Diante de uma onda de casos do novo coronavírus, a China liberou leitos hospitalares nesta quarta-feira. A variante Ômicron já causou o confinamento de dezenas de milhões de pessoas. O Ministério da Saúde registrou 3.290 novos casos de covid-19, dos quais 11 graves, em cerca de vinte províncias. Vários confinamentos já foram decretados, especialmente na província de Jilin (nordeste), onde a maioria dos casos foi registrada, e na metrópole tecnológica de Shenzhen (sul), com 17,5 milhões de habitantes.

Em Hong Kong, os profissionais de saúde começaram nesta quarta-feira a armazenar os corpos de pessoas mortas pela covid-19 em contentores frigoríficos devido à falta de espaço adequadoe ao aumento acentuado de infecções atribuídas à variante Ômicron. Hong Kong foi atingida nos últimos meses por um surto mortal da doença que sobrecarregou o sistema de saúde e causou uma onda de mortes, especialmente entre a população idosa que se recusou a ser vacinada.

PANORAMA NACIONAL

Para a pós-doutora em parasitologia e imunoparasitologia Joziana Barçante, do Núcleo de Pesquisa Biomédica e professora do Departamento de Medicina da Universidade Federal de Lavras (UFLA), falta vigilância genômica no Brasil para se ter certeza do que pode acontecer no País em relação à pandemia. “A nossa vigilância genômica é muito baixa, é muito fraca ainda, não conseguimos ter o panorama do que está circulando”, alerta.

O foco, agora, é em sequenciamento das amostras, incentivo da vacinação de reforço e orientação ao grupo de risco. “(Para) grupos de risco é precipitado falar em retirada de máscara. É um grupo que ainda precisa de um cuidado especial, sobretudo pelo fato de que a cobertura vacinal com a dose de reforço não é homogênea em todos os Estados”, afirma Joziana. 

Para o médico José Cherem, é difícil comparar o Brasil à China, que possui outro tipo de postura política de combate à pandemia. “Ela (China) tem uma proposição de covid zero”, explica. /COM EFE e AFP

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