Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Pandemia de coronavírus modifica relação das pessoas com o luto

Mudanças na vida cotidiana confundem as diferentes fases emocionais da aceitação da morte, diz professor

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2020 | 14h00

A pandemia de coronavírus, marcada pelas atualizações constantes do número de infectados e mortes em várias partes do País e do mundo e pela alteração profunda da vida cotidiana, modifica a relação das pessoas com o luto e confunde as diferentes fases emocionais até a aceitação da morte. Essa é a opinião do psicólogo Marcelo Santos, professor de Psicologia da Universidade Mackenzie Campinas.

“Estágios como negação, depressão, raiva e barganha, que não ocorrem necessariamente nessa ordem, se confundem porque as pessoas revivem a morte diariamente, seja na hora de ligar a TV ou quando alguém fala da pandemia. Com isso, o luto sofre um alongamento e a aceitação pode ficar mais difícil”, diz o especialista.

As teorias citadas por Santos, que dividem a relação com a morte em fases foram desenvolvidas pela psiquiatra suíça Elizabeth Kubler-Ross. Outras teorias apontam um processo dual do luto no qual as ondas (ou oscilações) entre perda e restauração se alternam.

Para Maria Julia Kovács, professora do Instituto de Psicologia da USP, o luto, processo de elaboração pela perda de uma pessoa querida que envolve sentimentos de diversas ordens e intensidades, encontra dificuldades adicionais durante a pandemia. Mas existem formas de tentar aliviar a dor. “Velórios e enterros virtuais, atendimento do luto por psicólogos online e projetos de manutenção de lembranças e memórias virtuais são meios que ajudam nesse processo. É uma forma de aliviar a dor no momento”, diz.

A mãe do representante comercial Robson (nome fictício) morreu de covid-19 após dez dias de internação em um hospital particular de São Paulo, o pai foi sozinho reconhecer o corpo e ao crematório. Quando a pandemia passar, ele quer organizar uma missa para celebrar a vida de sua mãe, que tinha 57 anos e nenhuma doença preexistente.

Paralelamente à dor do luto, muitas famílias têm de conviver com o estigma, ou seja, a marca pela morte de parentes. “Essas famílias têm de conviver com a dificuldade da perda e ficam expostos à estigmatização de possível contágio. Elas sofrem duplamente. A verdade é que todos estamos sujeitos ao coronavírus. Aquele que estigmatiza poderá ser estigmatizado”, explica Santos.

O especialista lembra que existem exemplos históricos de estigmatização relacionados às doenças. No livro A Praga, a jornalista Manuela Castro mostra como as pessoas com hanseníase eram colocadas à margem da sociedade em função do perigo do contágio. Entre 1924 e 1962, o Brasil utilizou a internação compulsória de pacientes com hanseníase como forma de controle da doença.

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