Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Pandemia faz pacientes de glaucoma adiarem exames; médicos temem pressão no SUS em 2022

Isolamento social e medo do contágio fez pessoas ficaram em casa; queda dificulta descoberta de casos novos e atrasa início de tratamento

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2021 | 15h00

O isolamento social imposto pela pandemia e o medo do contágio pela covid-19 têm feito muitas pessoas adiarem a ida ao médico e os exames de saúde. O impacto pode ser especialmente grave no caso de doenças crônicas como o glaucoma – principal causa evitável de cegueira no mundo. Dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) revelam uma queda de 27% na realização de exames para diagnóstico precoce da doença e de 22% para cirurgias relacionadas à doença em 2020. Especialistas temem o agravamento da saúde dos pacientes e uma demanda extremamente alta no SUS no próximo ano.

A queda prejudica a investigação de possíveis casos novos da doença, contribuindo para o atraso no início do tratamento, e o acompanhamento de casos confirmados, que exigem monitoramento para evitar seu agravamento.  De acordo com o levantamento do CBO, feito com suporte da consultoria 360º CI, oito tipos diferentes de exames realizados no SUS são utilizados pelos oftalmologistas para diagnosticar o glaucoma.

"De um ano para o outro, o volume de atendimento tende sempre a crescer", explica o diretor do Departamento de Glaucoma da Santa Casa de São Paulo, Cristiano Caixeta Umbelino, vice-presidente do CBO. "Isso é muito preocupante porque o glaucoma é uma doença que não tem cura, mas tem controle. Com o diagnóstico feito numa fase mais avançada, no entanto, haverá lesões irrecuperáveis."

De acordo com a análise do CBO, em 2019, foram realizados na rede pública 5,9 milhões de exames. Durante a pandemia, no entanto, esse número teve uma queda de 1,6 milhão (27%). Segundo dados do Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS, em 2020 a redução de exames preventivos para glaucoma afetou todas as regiões brasileiras. Em valores absolutos, o impacto foi mais sensível em São Paulo (348,6 mil a menos), Bahia (-202,4 mil) e Rio Grande do Sul (-122,5 mil).

Pelo menos 6,5 mil cirurgias indicadas para o tratamento e a reversão do glaucoma deixaram de ser realizadas no SUS em 2020. Foi uma queda de 22%. Com a flexibilização do isolamento social na maior parte do País e a retomada das operações, os oftalmologistas temem alta expressiva da demanda e pacientes com a doença em estágio agravado. 

"O maior problema é o agravamento da condição dos pacientes, que pode ter consequências irreversíveis", aponta Caixeta Umbelino. "O sistema público já tem filas enormes de atendimento. Com o represamento das cirurgias, infelizmente haverá aumento das filas", avalia.

Foram analisados quatro tipos diferentes de cirurgias realizadas no SUS e que são utilizadas para tratamento do glaucoma. De acordo com a análise, todas as regiões registraram redução no número de procedimentos. Só no Sudeste, houve diminuição de quase 3,7 mil (cerca de 27%) dos procedimentos para tratamento do glaucoma em 2020.

"O sistema público já tem filas enormes de atendimento. Com o represamento das cirurgias em 2020 e 2021 infelizmente haverá aumento das filas", avalia o especialista.

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