Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Pandemia não vai acabar se priorizarmos 3ª dose da vacina, diz diretor do Covax

Em entrevista ao Estadão, Santiago Cornejo, diretor de Envolvimento de Países no consórcio de compra de imunizantes, defende distribuição de doses a nações pobres

Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2021 | 10h00

Para frear a pandemia, é imprescindível garantir que as vacinas cheguem a todos os países de forma igualitária. O primeiro passo para isso é vacinar ao menos 20% da população de cada país, faixa que concentra as pessoas de alto risco para a covid-19, como idosos e trabalhadores da saúde. Mas o mundo está longe de atingir este objetivo.

Isso é o que defende o argentino Santiago Cornejo, diretor de Engajamento com os Países do Covax Facility, em entrevista exclusiva ao Estadão. Segundo ele, a iniciativa ainda precisa distribuir 1,7 bilhão de doses para atingir a meta. Até o momento, foram entregues 200 milhões de doses por meio da coalizão. Cornejo também é diretor de Financiamento de Imunização e Sustentabilidade da Gavi, a Aliança da Vacinação.

Até o momento, já foram aplicados 5,4 bilhões de doses de vacinas contra a covid-19 em todo o mundo. Apesar do alto índice - cerca de 40% da população mundial recebeu ao menos uma injeção -, as vacinas não estão igualmente distribuídas. Nos países de renda baixa, apenas 1,8% da população teve a chance de começar a imunização. Os dados são da plataforma Our World In Data, vinculado à Universidade de Oxford, do Reino Unido.

Leia abaixo trechos da entrevista.

Como surgiu o Covax Facility? Houve alguma outra aliança como esta na história?

​​A ameaça da pandemia exigiu uma ação nunca vista antes. Quando começamos a pensar, na Gavi, o que poderíamos fazer para apoiar a luta contra a covid-19, percebemos, junto à Organização Mundial da Saúde (OMS) e a outros parceiros, que precisávamos de uma solução global. O primeiro passo para isso foi implementar o Covax. É a primeira vez na história em que tivemos um esforço global para lançar uma vacina em um ano e torná-la disponível em um conjunto muito amplo de países, com níveis de cobertura nunca vistos. É um empreendimento bastante complexo e a única solução que temos para derrotar esta pandemia.

Todos os países poderiam aderir ao Covax ou apenas aqueles de baixa e média renda?

Todos os países poderiam ter se juntado a nós, não tínhamos nenhum critério de elegibilidade. A única diferença entre as nações é que o Covax paga as doses distribuídas aos 92 países mais vulneráveis, enquanto os outros participantes, incluindo o Brasil e a maioria dos países da América Latina, são auto-financiados. Abrimos as portas para todos os países porque, quando começamos a trabalhar, compreendemos que a compra de vacinas era um problema global. Por isso, percebemos que a única solução seria reunir no Covax todos os países, as organizações e os fabricantes de vacinas para encontrar uma solução. 

Quem determina a quantidade de doses que cada país recebe?

Para os países de média e alta renda, que se auto-financiam, pedimos que definissem suas metas. Em geral, essas nações pediram para receber doses suficientes para vacinar entre 10% e 20% de sua população. Para os 92 países financiados pelo Covax, nossa meta é alcançar pelo menos 20% de cobertura. Dessa forma, podemos garantir a imunização dos grupos de risco. Esperamos atingir a meta de 20% até o final do ano e continuar apoiando esses países para que alcancem níveis muito mais elevados de cobertura em 2022.

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Sou otimista, então gosto de pensar que vamos alcançar nosso objetivo. O mundo precisa disso para encerrar a fase mais aguda da pandemia
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Santiago Cornejo, diretor de Engajamento com os Países do Covax Facility

O Covax tem uma estimativa de quantas vacinas faltam para atingir essa meta?

Nosso objetivo é entregar 1,9 bilhão de doses de vacinas contra a covid-19 em 2021. Até o momento, distribuímos 200 milhões. Ainda faltam 1,7 bilhão de doses. Temos vacinas suficientes contratadas com os fabricantes para cumprir essa meta até o fim do ano. O que precisamos é que os contratos sejam cumpridos e que as doações prometidas por outros países sejam entregues. Eu sou otimista, então gosto de pensar que vamos alcançar nosso objetivo. O mundo precisa disso para encerrar a fase mais aguda da pandemia.

Documentos entregues à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que investiga o papel do governo no controle da pandemia, revelaram que o Brasil poderia ter pedido doses suficientes para vacinar 50% da sua população, mas escolheu a cota mínima, de 10%. Como o Covax viu essa decisão? 

Assim como o Brasil, muitos países solicitaram 10%, enquanto outros pediram um pouco mais, 20%. Acredito que essa tenha sido uma decisão nacional, baseada em planos, estratégias e necessidades do País. O Brasil é um parceiro estratégico do Covax e temos um ótimo relacionamento desde o início. 

Se o País tivesse pedido o máximo possível de vacinas, já teria recebido mais doses por meio do consórcio?

Não, o Brasil teria recebido exatamente a mesma quantia. Estamos distribuindo as vacinas de maneira proporcional à população dos países independentemente do número de doses contratadas. Ainda não alcançamos os 10% que prometemos ao Brasil, mas esperamos cumprir esse percentual até o final do ano. Se o País tivesse solicitado os 50%, a principal diferença seria receber mais doses nos próximos meses.

O Brasil chegou a solicitar doses extras ao Covax após a assinatura do contrato?

Uma vez que os contratos foram assinados, as condições serão mantidas até o fim. Nenhum país pode solicitar doses extras. O que a gente espera é cumprir, até o final de 2021, os compromissos já firmados. E estamos trabalhando para ver como seremos capazes de apoiar os países em 2022.

Assim como os Estados Unidos, Israel e Chile, o Brasil planeja aplicar uma dose extra da vacina contra a covid-19 na sua população mais vulnerável. Como o senhor enxerga isso? O mundo está preparado para a terceira dose?

Este é um tema muito importante. É fundamental que continuemos as pesquisas para desenvolver nosso conhecimento sobre as vacinas e sobre essa doença. E, cientificamente, o que sabemos até agora é que a vacinação completa protege o suficiente até mesmo contra as variantes, como a Delta (cepa identificada originalmente na Índia e mais transmissível), evitando internações graves e mortes. A prioridade máxima do mundo deveria ser garantir que cada país tenha vacinas suficientes para cumprir o esquema vacinal atual, e é isso que defendemos. É isso que vai permitir evitar internações. Assim que tivermos mais suprimentos, assim que alcançarmos essa cobertura mínima em todos os países, poderemos ver como aumentar a proteção com doses extras. Se os países começarem a usar os escassos suprimentos para aplicar uma terceira dose agora, a disponibilidade de vacinas ficará ainda mais limitada. 

Qual é a sua opinião sobre a quebra de patentes das vacinas? Isso poderia aumentar a disponibilidade de imunizantes?

Acho que a patente é um elemento, mas não é a solução ou a única solução, principalmente no curto prazo. A fabricação de vacinas é muito complexa. Não se trata apenas da patente, mas da tecnologia por trás dela. Precisamos de transferências de tecnologia para impulsionar a produção em muitas partes do mundo, não apenas em alguns locais. Leva tempo para que isso aconteça, mas é disso que precisamos para diversificar a produção. Do ponto de vista da Covax, acreditamos que precisamos de mais empresas fabricando as vacinas.

Outro tema bastante discutido é o passaporte da vacina. O que o senhor acha disso? 

Acho que a grande questão de todas essas discussões que estão surgindo é a mesma: precisamos de acesso equitativo às vacinas. Esse é o cerne do que deve ser debatido não apenas pelo Covax, mas também pelos governos, fabricantes de vacinas e sociedade civil. Precisamos que todos realmente trabalhem juntos para esse objetivo.

Muitos países estão tendo dificuldade para ampliar a cobertura vacinal mesmo tendo doses em estoque. Por que o senhor acha que isso está acontecendo e como combater o problema?

Estamos começando a ver alguns países atingirem um platô na vacinação. É triste ver isso em uma pandemia que está tirando muitas vidas. Uma das causas dessa hesitação em receber a vacina é a desinformação e a propagação de notícias falsas sobre os imunizantes. Isso tem um impacto terrível e não podemos pagar por isso. Precisamos que todas as partes envolvidas trabalhem juntas. Não se trata de uma única pessoa, mas sim da sociedade. A solução é comunicação, comunicação e comunicação. Precisamos que os países forneçam evidências científicas, de forma simples, para que as pessoas possam entender a importância da vacinação.

O senhor acha que o acesso desigual à vacinação contribui para o surgimento de variantes mais perigosas?

Com certeza. É por isso que sempre dizemos que precisamos vacinar muito no mundo inteiro. Não podemos ter bolsões de pessoas não vacinadas. Não vai ser apenas um país ou uma região que irá derrotar essa pandemia. Isso é impossível, o mundo de hoje é conectado, as pessoas se movimentam. Precisamos de uma solução global.

Vários países, incluindo o Brasil, começaram a vacinar adolescentes. Como o senhor enxerga isso?

O que defendo é que precisamos de vacinas para as populações de maior risco. Ainda há muitos países que não conseguiram vacinar grupos como profissionais de saúde, trabalhadores da linha de frente, idosos e pessoas com comorbidades. Essa é a nossa prioridade e deve ser a prioridade do mundo inteiro.

A pergunta que todos aguardam pela resposta: a vacinação em massa vai acabar com a pandemia?

Gostaria de poder dizer quando e como a pandemia vai acabar, mas não posso. O que sei é que temos muito trabalho a fazer ainda em 2021 porque não fizemos o suficiente para um acesso equitativo às vacinas. E, o mais importante, já começamos a nos preparar para 2022. No ano que vem, teremos que continuar priorizando a vacinação. Isso será muito importante se quisermos derrotar esta pandemia.

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