TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Pandemia provocou forte impacto na saúde mental

Assunto ganhou relevância nas relações pessoais e também atenção maior das empresas

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especial para o Estadão

30 de outubro de 2021 | 05h00

“Tristeza não tem fim / Felicidade sim.” Os versos eternizados por Tom Jobim e Vinicius de Moraes são uma síntese poética do que mostram os dados sobre o impacto da covid na saúde mental dos brasileiros.

Logo no início da pandemia, uma pesquisa feita pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) detectou que os casos de depressão haviam aumentado 90% em menos de um mês. Foram entrevistadas 1.460 pessoas entre os meses de março e abril de 2020, período no qual as necessárias medidas de isolamento social começaram a ser implementadas no País. Um ano depois, um estudo do Instituto Ipsos mostrou que 53% dos brasileiros tinham sentido piora no bem-estar e na saúde mental.

“A síndrome de burnout entrará na classificação de doenças da Organização Mundial da Saúde em janeiro de 2022. Temos de entender que vivemos com um receio e um medo constantes, estamos numa altura em que o chão foi retirado. Vivemos 20 meses com um mal invisível, e se há algo com que não conseguimos lidar é a incerteza”, observa Rui Brandão, CEO e cofundador da plataforma de saúde emocional e desenvolvimento pessoal Zenklub. “Precisamos de segurança e, por isso, neste momento se fala tanto em segurança psicológica.”

No mundo empresarial, o bem-estar dos colaboradores já vinha sendo visto como central nos planejamentos de gestão, mas a pandemia acelerou o processo, sob o risco de uma queda de produtividade que impacta os resultados financeiros.

Em 2020, uma pesquisa da London School of Economics mostrou que o Brasil perde 78 bilhões de dólares com a queda de produtividade causada por depressão. “O engenheiro deprimido não esquece como se faz uma conta, mas pode errar mais. E o primeiro impacto é nos relacionamentos e no clima organizacional. São problemas tão comuns que o prejuízo global se torna alto”, explica Pedro Pittella, diretor de Recursos Humanos da farmacêutica Sanofi. “É lucrativo tratar da saúde mental.”

Na Sanofi, a saúde dos colaboradores tem sido abordada sob cinco parâmetros: físico; social; emocional; intelectual; e espiritual. Neste momento de trabalho remoto, a companhia tem oferecido consultas digitais de aconselhamento para reconhecer os sinais precoces de eventuais problemas.

A necessidade desse tipo de atendimento é nítida. Na rede de saúde Care Plus, a busca por serviços como telepsicologia e telepsiquiatria cresceu 20.000% na pandemia. Na internet, 2021 foi o ano recorde em buscas por saúde mental. “O tema ainda é um tabu. As pessoas não têm coragem de falar com familiares e outros do seu entorno, mas pesquisam em nossas plataformas”, comenta Clarissa Orberg, head de Parcerias de Conteúdo de Saúde, Educação e Família no YouTube Brasil. A plataforma estruturou uma equipe apta a fazer curadoria de conteúdos sobre o tema. “Quando as pessoas encontram bons conteúdos, sabem quando é necessário buscar uma ajuda profissional.”

No olhar estrito para as relações profissionais, um dos grandes desafios do momento – e que impacta a saúde mental – é o entendimento entre empresas e funcionários sobre o formato de trabalho a ser adotado. Se, em março de 2020, todo mundo precisou se adaptar de forma muito rápida para trabalhar de casa, mesmo que a contragosto, agora a lógica pode ter sido invertida. Quase dois anos em home office fez muita gente repensar a volta ao escritório.

A ideia de um modelo híbrido, que mescle o remoto com o presencial, tende a ter mais adesão. Uma pesquisa da consultoria KPMG ouviu 287 executivos de empresas localizadas em todo o País e mostrou que 29% das empresas pretendem manter o home office duas vezes por semana, enquanto outros 29% afirmaram que pretendem adotar o trabalho remoto três vezes por semana.

Quando a decisão chega na ponta, a ideia de unir o melhor dos dois mundos funciona para muitos, mas gera novas angústias em outros tantos profissionais. “Temos o desafio da síndrome do prisioneiro. Meus colegas voltam ao presencial e eu não. Que medo vou ter de perder minha esfera de influência? Como vou ser aceito em uma reunião na qual somente eu estarei remoto? Vou ser esquecido na reunião?”, indaga Pittella.

Um caminho para encarar esse dilema está na reflexão sobre os propósitos de companhias e colaboradores. É preciso olhar para a cultura organizacional. “Por ficarmos tanto tempo em trabalho remoto, a cultura organizacional ficou mais flácida. É preciso que as organizações redescubram e reorganizem seus propósitos com os que as pessoas trazem agora”, acredita Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural. “Há elementos que precisamos retomar, para que vivamos espaços saudáveis, e outros que vamos costurar com os nossos propósitos no pós-pandemia.”

Para o gestor, o preparo para um ambiente saudável nos moldes do futuro do trabalho requer antes um passo atrás, um retorno aos escritórios para revalidar vínculos que podem ter sido perdidos na pandemia. “Nesse primeiro momento de reabertura, acredito que vale acelerar a volta ao trabalho presencial, para motivar as pessoas a conviverem mais. Fatores como os olhares, o cafezinho e os códigos comunicacionais que não se escrevem são fundamentais para validar o que mobiliza as pessoas. Isso é importante agora para, posteriormente, fazermos os ajustes para os novos formatos de trabalho, como o home office”, acredita Saron.

Se os propósitos das companhias podem precisar ser ajustados, não é de se estranhar que os propósitos pessoais dos colaboradores também possam ter sido chacoalhados durante esse tempo, abalando boa parte das certezas e garantias com as quais se convivia. E, então, na volta, percebe-se que não há mais match entre empresa e funcionário.

Nesse cenário, apesar de a ideia de trabalhar com o que faz sentido para si mesmo soar utópica em meio à necessidade de sustento, principalmente em um contexto de crise econômica, trata-se de um fator que não deve ser abandonado. E, dentro das possibilidades, é bom defini-lo como meta.

“Cada vez mais, percebemos a importância da conexão emocional, de crenças e valores entre a organização e o indivíduo. Muitas vezes, a dissonância entre o que eu acredito e o que a empresa prega pode ser o fator de adoecimento. Não é apenas a equação financeira que importa, temos de trazer o propósito e a conexão”, afirma Brandão, da Zenklub.

Uma pandemia cheia de perdas (e não apenas na saúde)

Como se não bastasse afetar a saúde, a pandemia ainda trouxe uma sensação onipresente de perda, que envolve do luto pelos mortos aos números de desemprego e crise financeira. Essa é a visão do neurocientista Facundo Manaes. “Tudo o que vivemos colocou à prova nossa capacidade de autocontrole. Isso exige um grande esforço e produz fadiga mental”, diz ele. A ressalva é que o sofrimento permite uma adaptação positiva. “É possível que saiamos mais altruístas e compassivos, que o bem-estar dos demais ganhe mais valor que o status individual.”

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