Divulgação Hospital de Amor.
Divulgação Hospital de Amor.

Pandemia reduz doações e Hospital de Amor em Barretos busca mobilização social

Referência para tratamento de câncer, centro parou de receber cerca de R$ 8 milhões provenientes de eventos solidários que deixaram de ocorrer por causa do novo coronavírus

Ludimila Honorato e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2020 | 15h31

SÃO PAULO - A pandemia do novo coronavírus pressionou o sistema de saúde no Brasil e o impacto resvalou em áreas indiretamente ligadas à covid-19. Com as recomendações para se evitar aglomerações, os eventos beneficentes presenciais que garantiam cerca de R$ 8 milhões em doação para o Hospital de Amor de Barretos deixaram de ser realizados. Porém, em meio ao caos, o centro de referência para tratamento de câncer se viu acolhido por uma espontânea rede de solidariedade que tem começado a recuperar as perdas.

Cidades do entorno realizam leilões virtuais e shows transmitidos pela internet têm arrecadado recursos para o hospital. Durante as lives de cantores como Leonardo, Daniel, Paula Fernandes e Luan Santana, o público de casa pode fazer contribuições financeiras por meio de um código que aparece na tela. Uma vaquinha online também já arrecadou R$ 228 mil com doações de 911 apoiadores para ajudar a manter a estrutura de 16 institutos de prevenção, cinco unidades de tratamento e mais de 25 unidades móveis.

Com uma média de 6 mil atendimentos por dia, o Hospital de Amor tem custo mensal de R$ 40 milhões, dos quais R$ 15 milhões são pagos pelo Sistema Único de Saúde para atendimentos gratuitos. Além da queda de doações, o centro médico teve de suspender as atividades ambulatoriais e hospitalares no último dia 20 após uma decisão judicial determinar o afastamento de 400 profissionais da saúde que fazem parte do grupo de risco para a covid-19. Sem condições financeiras para arcar com a substituição de pessoal, os serviços foram retomados três dias depois a partir de uma liminar deferida pelo Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região.

“O hospital foi afetado 100% por uma ação judicial do sindicato dos enfermeiros de obrigar '110%' [das pessoas] a colocar EPIs. Foi um absurdo. Como não tínhamos nem financeiro nem material para fazer isso, nós fechamos”, explica Henrique Prata, presidente do Hospital de Amor. “Mas conseguimos uma ação em Campinas, o bom senso e o equilíbrio de um juiz, que fez com que voltássemos a cumprir as normas da OMS, do Ministério da Saúde, da secretaria [de Saúde].”

Dia a dia

Junto das ações em prol do Hospital de Amor, um pedido chamou a atenção dos internautas recentemente. A pequena Luíza, de 6 anos, realiza tratamento no local há quase um ano após ser diagnosticada com sarcoma de Ewing e fez um apelo por doações. A ideia de gravar um vídeo em que a menina aparece exibindo cartazes falando sobre a situação foi da mãe dela, a funcionária pública Ana Paula Cardoso, de 38 anos.

“Eu que frequento o hospital todos os dias via os funcionários todos abatidos, preocupados, o cansaço era visível. Eles não têm material, e a crise financeira do hospital já era conhecida de todo mundo desde que começou a pandemia. A arrecadação caiu demais e isso que me motivou a fazer o vídeo”, conta.

“Ela mesma [Luíza], sabendo da situação, queria ajudar o hospital dela, ela gosta muito do hospital.” O vídeo publicado no Facebook atingiu 46 mil visualizações em uma semana e mais de 3,9 mil compartilhamentos. A semente gerou frutos e ações semelhantes se espalharam pela rede social.

Ana Paula sabe bem a importância de doações. Para fazer o tratamento da filha no HA, a família se mudou de Águas de Lindóia para Barretos porque era inviável ir e voltar várias vezes para as longas internações da Luíza. A funcionária pública teve de pedir dispensa do trabalho, bem como o marido dela, que trabalhava de garçom em um hotel. Na nova cidade, ele conseguiu emprego numa pizzaria, mas ela tinha de levar a menina todos os dias ao hospital.

“A solução para se manter aqui foi a ajuda das pessoas. Foram feitos rifas, bingos, bazares, o pessoal da minha cidade, colegas de trabalho voluntariamente resolveram fazer vaquinha mensal para me ajudar”, conta. A corrente do bem se multiplicou e, em meio à pandemia, se fortaleceu.

“O momento é crítico, tudo está girando em torno do coronavírus, mas as outras doenças existem e não podem deixar de ser tratadas”, pontua Ana Paula, que elogia o serviço prestado pelo hospital. “O tratamento é exemplar, de primeiro mundo. É um trabalho que merece ajuda, respeito e toda ação que possa ser feita em benefício desse hospital é muito bem vinda.”

Henrique Prata se diz otimista com a arrecadação e acredita que nos próximos meses será possível conseguir o valor que deixou de receber agora. “Uma cidade não faz um leilão por mês, faz um ou dois por ano. Então, daqui dois, três meses, ela faz. O Hospital tem uma comoção nacional, atendemos 20 Estados. Nós continuamos trabalhando e continuamos tendo a solidariedade da população.”

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