FELIPE RAU/ESTADAO
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'Pânico não pode tomar leitos dedicados a infecções graves', diz presidente do Einstein

Médico Sidney Klajner, presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, conta como foi a preparação do hospital para a possibilidade de atender um caso de coronavírus. 'Boa comunicação é fundamental', diz

Entrevista com

Sidney Klajner, presidente do Hospital Israelita Albert Einstein

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

29 de fevereiro de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - Presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, local de diagnóstico do primeiro caso de coronavírus no Brasil, o médico Sidney Klajner conta como foi a preparação do hospital para essa possibilidade, as medidas tomadas após a confirmação do diagnóstico e disse acreditar que o vírus infecte mais pessoas no Brasil, mas com baixa letalidade. Para ele, o mais importante é dar atenção especial às pessoas com maior risco de desenvolver formas graves da infecção, como idosos. “A tarefa da boa comunicação é fundamental para que o pânico não tome conta desnecessariamente de leitos que devem ser dedicados para infecções mais graves”, diz. Leia abaixo os principais trechos da entrevista concedida por Klajner ao Estado.

Vocês ficaram surpresos com o fato de o primeiro caso brasileiro de coronavírus ser diagnosticado no Einstein?

O Einstein, desde que começou a epidemia na China, começou a preparar o hospital para a possível vinda de casos para cá porque a gente atende um tipo de público que viaja bastante, ainda mais no período pós-férias ou de casos como o desse paciente, que viaja a trabalho para o exterior e volta. Então, a gente já começou uma preparação por representantes de cada setor da instituição para implementar as medidas necessárias de atendimento que a gente usa normalmente para a gripe. A gente tem algumas orientações que funcionam aqui no Einstein, nos dois hospitais públicos que a gente maneja e nas unidades básicas que o Einstein tem seus profissionais. Esse grupo se reúne duas vezes por semana desde dezembro, onde se atualiza as informações sobre o que está acontecendo, quais são as diretrizes da Organização Mundial da Saúde e do CDC (Centro de Controle de Doenças) dos Estados Unidos. Esses protocolos de atendimento são repassados, implementando as medidas de prevenção.

Nesse caso em especial, o paciente apresentava sintomas muito leves de gripe, mas ele tinha no histórico a vinda da Itália. Apesar de não constar na diretriz da OMS que a gente tinha que ter preocupação com cidadãos oriundos da Itália, a gente entendeu que pela viagem dele e, por naquele fim de semana, estar aumentando o número de casos na Itália, seria melhor certificar e colher o sangue dele.

Naquele momento do atendimento, ninguém sabia que ele podia ter o coronavírus, mas colheu-se amostra de sangue e o nosso laboratório, por conta da preparação desde dezembro, estava preparado com teste adequado. Foi feita a primeira verificação, viram que deu positivo e aí reconfirmaram para, assim que tivesse a certeza no nosso laboratório, a gente pudesse fazer a notificação e encaminhar, como manda o Ministério da Saúde, para a chancela do Instituto Adolfo Lutz. Esse paciente, por ter sintomas leves de gripe, foi orientado a aguardar todo esse resultado na sua casa, alertando que ele poderia ser portador do vírus. Ele foi orientado a ficar em casa, com orientação para os familiares que o rodeiam, uso de álcool gel, não tossir ou espirrar perto de pessoas sem proteção. Cuidados básicos para não se transmitir doença.

Essa decisão de fazer o exame de coronavírus mesmo no caso de paciente com sintomas leves e sem a diretriz da OMS de monitorar passageiros vindos da Itália partiu de quem?

A Itália não estava na lista do Ministério da Saúde e da OMS, mas ela entrou na nossa lista por decisão do grupo que decide os protocolos aqui dentro. Ela passou a fazer parte dos países suspeitos antes mesmo de entrar na lista. Para isso que esse grupo se reúne duas vezes por semana e estabelece o protocolo de atuação aqui dentro do Einstein.

Como é a dinâmica de comunicação das decisões desse grupo com os médicos do Einstein?

Ele emite o comunicado para os profissionais do pronto-atendimento que podem ter contato com esse tipo de paciente.

Quantas pessoas integram esse grupo?

Em dezembro, os principais participantes desse grupo eram de 10 a 15 pessoas que representavam as áreas do hospital, como o coordenador da comissão de infecção hospitalar, o superintendente, o diretor de prática médica, a diretora de prática assistencial, lideranças-chave do hospital. Conforme a situação foi se tornando mais passível de epidemia, esse grupo está contando com uma reunião diária com 40 a 50 pessoas porque tem todas as áreas envolvidas, desde o SAC até nutrição e limpeza. A partir de quando o caso foi descoberto na terça de manhã, já houve a primeira mesa para tratar do caso, às 14 horas. Eu estava longe do hospital, mas participei por call. 

Mas ainda não tinha a contraprova do Adolfo Lutz?

Não, mas nós já sabíamos que era positivo. Alinhamos com o Ministério da Saúde que seria feita uma comunicação em conjunto, depois da confirmação do Adolfo Lutz.

O paciente não chegou a ficar internado, certo? Como foi o procedimento depois que vocês tiveram o resultado? Vocês ligaram para que ele retornasse ao hospital?

Não, a gente está fazendo tudo com ele no lar, a gente tem recursos de telemedicina para falar com ele. Se a gente quiser averiguar um sinal, um sintoma, tem recursos de videoconferência para isso. 

O que mudou dentro do hospital após a confirmação do caso?

No âmbito de dentro do hospital, obviamente a gente também precisa informar melhor os médicos do nosso corpo clínico. Uma paciente que eu iria operar na quarta-feira cedo me ligou na terça-feira perguntando se não valia a pena adiar a cirurgia porque o hospital estaria infestado de vírus. Nós precisamos passar informações com referência, conversar com as secretárias dos consultórios que estão aqui dentro, dos profissionais de atendimento, que não estão na área de pronto-atendimento, mas que vão lidar com o público, como o call-center, o SAC, a própria assessoria de imprensa.

Houve uma estratégia para mostrar que o ambiente é saudável, que o hospital jamais colocou a frente de qualidade e segurança do paciente qualquer tipo de prioridade. A gente garante isso inclusive com a criação de um fluxo diferenciado de estrutura física (para pacientes suspeitos). Os pacientes que na triagem mostrarem sintomas respiratórios vão ser dirigidos para outro ambiente, em um andar diferente. Isso já estava preparado desde dezembro, mas a gente vai começar a usar agora. Esse paciente já sai da triagem com máscara, higienizando a mão com álcool gel e vai para outro espaço. De modo eletrônico o profissional já fica sabendo.

Qual foi sua resposta para sua paciente que queria adiar a cirurgia?

A minha resposta foi que os vírus não se transmitem porque eles ficam dispersos no ar, eles se transmitem por superfícies quando elas não são limpas ou de pessoa a pessoa. E esse paciente tinha passado menos de uma hora no hospital no dia anterior. Eu falei para ela que estou indo para o hospital todos os dias às 6 horas da manhã porque eu julgo que o hospital é o lugar mais seguro para eu estar. Daí ela se convenceu, já operou e foi para casa no mesmo dia. 

Outros pacientes quiseram cancelar procedimentos por medo do coronavírus?

Houve casos de consultas que foram cancelados no primeiro dia e que, no dia seguinte, com o número adequado de esclarecimentos, o número caiu para 15% de cancelamentos do primeiro dia. Foram 21 cancelamentos no primeiro dia e 4 no dia seguinte. Eles foram reagendados.

E quanto aos médicos? Alguns, por não serem da infectologia ou do pronto-atendimento, tiveram dúvidas?

Por um desconhecimento, a gente encontrou orientações das secretárias dos médicos as mais variadas possíveis, do tipo: ‘use máscara na entrada do consultório’. Daí a nossa diretoria de prática médica parou tudo que estava fazendo e fez a abordagem consultório por consultório pessoalmente para explicar, deixar um QR Code que direciona para o blog com perguntas e respostas e orientar os médicos no homem a homem.

O hospital ampliou áreas de isolamento? 

Temos 12 leitos de isolamento nessa estrutura de pronto-atendimento, além dos leitos no hospital. 

Eles já existiam ou foram ampliados?

Foram criados em dezembro.

Vocês têm alguma parceria com a rede pública para enfrentar o coronavírus?

Nós temos atuação nos equipamentos de saúde da Prefeitura que temos contato; temos um infectologista nosso na comissão que o Estado criou e estamos buscando contribuir com o Ministério da Saúde.

De que forma?

O nosso laboratório está à disposição, caso o Ministério ou a Secretaria da Saúde necessitem. O nosso responsável de telemedicina está em conversas com a secretaria de Estado para, caso seja necessário, a nossa telemedicina seja oferecida para quem estiver isolado. Aliás, faz parte das recomendações do CDC o uso da telemedicina no mundo para controle dos pacientes infectados. 

Como o senhor vê a expansão global do vírus? O Brasil está preparado para lidar com uma epidemia?

Acho que a gente vai ter um número grande de pessoas infectadas, porém uma mortalidade e um aumento de casos graves naqueles pacientes principalmente idosos e imunocomprometidos, e esse tem que ser o maior cuidado. Porque grande parte das pessoas vão ter ou ausência total de sintomas ou um resfriado leve. É inevitável, a gente pode fazer quarentena com Deus e o mundo, mas o vírus vai acabar se espalhando, talvez em uma velocidade não tão grande que permita a gente ter condições de lidar com ele na nossa infraestrutura para lidar com casos mais graves. E essa tarefa da boa comunicação é fundamental para que o pânico não tome conta desnecessariamente de leitos que devem ser dedicados para infecções mais graves.

Mas mesmo que o número de casos graves não seja tão alto no Brasil, já temos uma carência de leitos na rede pública atualmente. Vamos conseguir lidar com mais uma doença?

Concordo que haja carência tanto profissional quanto de infraestrutura, principalmente na alta complexidade. Inclusive esse é o papel do Einstein nas parcerias que a gente atua com o SUS. O sistema público talvez nade de braçada na prevenção, atenção primária, programa saúde da família, mas não na alta complexidade. Temos hospitais privados que podem ajudar o ministério e o governo, então essa contratação emergencial (de mil leitos de UTI anunciada pelo ministério) poderia usar leitos ociosos de hospitais privados, sobretudo no Norte e Nordeste. A gente não fez a lição de casa com infarto, AVC. Se já falta leito para isso, vai faltar para coronavírus.

Acho também que é o momento ideal para que a gente enterre todo esse corporativismo médico e passe a fazer o bom uso do que o próprio CDC tem preconizado como padrão ouro para tender as pessoas infectadas: a telemedicina, que nos permite avaliar quando o paciente tem que voltar ao hospital, quando ele vira uma alta complexidade. A gente tem que, neste momento, fazer bom uso das tecnologias que tem em mãos para oferecer um atendimento adequado aos que não têm um bom profissional por perto. 

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