Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Papinha ganha opção gourmet e orgânica; tem até paleta de cordeiro

Mercado cresce e atrai pais que não sabem cozinhar ou não encontram tempo para preparar as refeições para os filhos pequenos

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2017 | 06h00

SÃO PAULO - Paleta de cordeiro, aspargos, ragu com polenta, ingredientes orgânicos e selecionados. Pratos que poderiam aparecem em cardápios de restaurantes integram o menu de lojas especializadas em papinhas e comidinhas para crianças e têm conquistado cada vez mais pais que não sabem cozinhar ou não encontram tempo para preparar as refeições.

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A consultora de recursos humanos Nathalia Sobral, de 30 anos, conheceu o tipo de serviço há três anos, quando começou a comprar algumas unidades para a filha mais velha. Agora, para a segunda filha, ela aumentou a quantidade e tem opções para, ao menos, cinco refeições por semana para Lílian, de 4 anos e meio, e Elisa, de 1 ano e três meses.

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"Sempre quero ter algo no freezer. Hoje, na minha rotina, não consigo cozinhar tudo. Faço o básico: arroz, feijão, mas a mistura é o mais difícil. A minha prioridade é garantir um alimento saudável para as minhas filhas. É uma opção que traz uma variedade de alimentos que eu não poderia proporcionar em casa."

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As comidas fazem tanto sucesso que até Nathalia come de vez em quando. "Antes de começar a comprar, eu experimentei. Às vezes, quando não tem nada no freezer, coloco um para mim também. É uma comida que vem balanceada."

A papinha de frango com milho está entre as favoritas da filha mais nova. Já a mais velha tem gostado bastante de uma versão infantil de feijoada. A sobrinha de 4 anos da gerente de recursos humanos também virou "cliente" das comidinhas. "Ela mora no interior, em Jales, e, toda vez que vou visitá-la, tenho de levar."

Cozinhar não é o forte da produtora Melissa Alpiste, de 33 anos. Mãe de Bento, de 2 anos e 10 meses, ela conta que ele começou a gostar de comer com 1 ano e meio. "Fiquei preocupada, porque a gente sabe que o leite materno é completo. Quando pesquisei, nem pensava muito nessa coisa de orgânico."

No início, ela só comprava para os fins de semana. "Durante a semana, pegava o cardápio (da loja) e buscava imitar, fazer uma receita parecida, mas não sou boa na cozinha. Agora, eu estoco, mas não compro para o mês inteiro."

Melissa conta que não se prende ao conceito "gourmet", mas afirma que as opções diversificadas e com ingredientes selecionados aprimoraram o paladar do filho. "Ele gosta muito de um prato de fígado que compro, sempre quer essa. Não gosta muito de doces, prefere comer as frutas. Também gosta de coisas cítricas e apimentadas, de ovo, de brócolis. Com certeza foi o que diversificou a alimentação dele."

Ela diz que o resultado também tem aparecido nas consultas do filho. "Toda vez que vou ao pediatra, está tudo bem. Ele está ganhando peso. Então, não é só praticidade, faz bem e não tem preço ver que está saudável por causa da alimentação, que é um remédio para a vida."

Mercado

Chef da Gourmetzinho Comidinhas, Amilcar Azevedo resolveu abrir o negócio há três anos após fazer a introdução alimentar do primeiro filho e receber a sugestão de amigos. Embora trabalhe em dois restaurantes, ele diz que o processo de criação dos pratos passa por uma rigorosa análise de outros profissionais.

"A gente sempre segue a linha do que os pediatras recomendam. Contamos com uma equipe de consultores, pediatras e nutricionistas", afirma Azevedo. "Faço uma receita pensando no sabor e elas apontam se precisa de mais carboidratos ou proteínas até alcançarmos a recomendação nutricional."

Azevedo diz que a linha de produtos é direcionada para crianças a partir dos 6 meses e há também opções para lanches, passeios e viagens. As papinhas de fruta custam R$ 9,90 e os pratos infantis, R$ 17,90.

"Sobre o perfil dos clientes, diria que 98% são mulheres que trabalham fora e, apesar de terem a preocupação de preparar o alimento dos filhos, compram para um almoço ou jantar. Não compram para todos os dias. A gente não vende comida, vende tempo para as pessoas curtirem seus filhos."

Mesmo assim, a procura é tão grande que ele projeta um crescimento entre 50% e 70% do faturamento em relação ao ano passado. Segundo Azevedo, apesar do nome da empresa, o objetivo não é "gourmetizar" as comidas infantis, colocando apenas ingredientes nobres e caros.

"O nosso propósito de vida é oferecer para as crianças a possibilidade de desenvolver um paladar aberto para não depender de uma alimentação processada e industrializada, todas as papinhas têm texturas e cores variadas para ter a capacidade de se alimentar com o que a natureza tem para oferecer."

Sócia da PapaBaba, Mariana Ozores Michalany diz que seus principais clientes são mães que querem oferecer uma alimentação balanceada e com ingredientes orgânicos, mas não têm tempo para procurar esses produtos.

"Não são todas as mães que arriscam na hora que estão cozinhando e na hora de comprar", afirma Mariana. "Quanto mais variada a alimentação, além de acostumar e ampliar o paladar da criança, tem a variedade nutricional e de cores e sabores." 

Com pratos a partir de R$ 15, a empresa não oferece a linha de introdução alimentar, mas tem opções para almoço e jantar semelhantes à comida de gente grande, como escondidinho e lasanha.

A empresária Luciane Motta, de 43 anos, compra produtos para a filha de 8 anos há um ano. "Gostava muito de cozinhar, de acompanhar o que ela comia, mas, quando a gente parte para o próprio negócio, não tem tempo. As comidas congeladas e industrializadas não me satisfaziam, porque não têm um balanço nutricional. Quando encontrei a comida que, embora congelada, era orgânica, vi que era um negócio mão na roda."

Ela conta que sempre tem um estoque com seis a oito opções. Grávida de três meses, ela já pensa em dar as papinhas ao começar a introdução alimentar do bebê que está a caminho.

"Quando a criança vê no potinho as combinações, as faixas de cores, vira uma brincadeira, é lúdico. Ter encontrado (a possibilidade de comprar as papinhas) me dá um conforto."

 

Sem conservantes

Nutricionista responsável do Empório da Papinha, Gislaine Donelli explica que, além das opções oferecidas pela loja, existe a possibilidade de elaborar um cardápio levando em consideração as necessidades do bebê.

"Nós montamos o cardápio de acordo com a indicação do pediatra e a escolha dos produtos depende muito das necessidades do bebê", diz Gislaine. "Caso o bebê esteja constipado, por exemplo, oferecemos produtos que contenham mais fibras."

Criada em 2009, a marca tem mais de 50 pontos de venda e oferece produtos entre R$ 9,90 e R$ 21,90. Também tem kits para viagens, fins de semana e até pacotes mensais.

"Nossos clientes são famílias que se preocupam com a saúde dos seus filhos e prezam por uma alimentação orgânica. Isso porque, os alimentos orgânicos são livres de aditivos, conservantes e produtos químicos, que ao serem consumidos, podem causar dados à saúde", diz Rafael Mendonça, sócio-diretor da empresa, que teve um crescimento de 72% em 2016, comparado ao mesmo período em 2015.

As marcas de grande porte também têm trabalhado para oferecer opções mais saudáveis para as primeiras experiências alimentares das crianças. No segmento há 49 anos, a Nestlé diz que suas papinhas não possuem açúcar e, com o fechamento a vácuo, não têm a adição de conservantes. As tendências para a alimentação infantil têm sido seguidas, segundo a empresa.

"Ano após ano, (as papinhas) vêm passando por uma jornada constante de melhorias para atender as solicitações de consumidores e garantir ainda mais benefícios. Um exemplo é a redução de sódio nas papinhas salgadas realizada nos últimos anos. Somente em 2014, oito variedades da etapa 2 tiveram uma redução média de 88% de sódio", informou a empresa. 

Três perguntas para:

Erika Romano, nutricionista do Grupo de Estudos em Nutrição, Transtornos Alimentares e Obesidade (GENTA) e da clínica Romano

1 - Os pais podem comprar papinhas e comidas prontas para as crianças?

Elas podem ser compradas contanto que saibamos a procedência dos alimentos e que haja um controle higiênico. É uma alternativa para facilitar o dia a dia, mas o ideal é que elas sejam feitas em casa com alimentos selecionados.

2 - Qual a importância de a comida ser preparada em casa?

Para que haja o resgate da refeição feita em casa, porque o exemplo dos pais é o maior fator educacional para a alimentação da criança. É importante a comida estar relacionada com o afeto, os pais devem mostrar a comida e interagir, não é um momento de só nutrir, mas de muita afinidade e de estreitamento dos laços, que deve ser feita com carinho e em um lugar tranquilo

3 - O conceito de gourmet e os alimentos orgânicos fazem parte de algumas dessas opções de papinhas e comidas. Qual a importância do uso de ingredientes variados, inclusive do universo adulto, e saudáveis para o início da alimentação?

Se a comida não for variada, não estimula as papilas gustativas, criando uma monotonia. Não precisa ser caro, mas um prato bonito e com sabores diferentes. O importante é fazer uma alimentação balanceada com fontes de energia, como batata, vitaminas, minerais, fibras, como legumes, proteínas e grupos dos feijões. Colocando um representante de cada grupo desse, fica muito bem feito.

 

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