Robin Van Lonkhuijsen/ EFE
Laboratorista mostra kit de teste; no País, cidades com mais de 500 mil habitantes devem receber teste de coronavírus antes. Robin Van Lonkhuijsen/ EFE

Para conter coronavírus, isolamento social precisa durar ao menos dois meses

Medida é necessária para tentar evitar quebra do sistema de saúde, defendem especialistas; fim da pandemia só deve ocorrer quando 70% da população tiver sido infectada e curada - ou quando tivermos uma vacina

Giovana Girardi e Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2020 | 12h00

SÃO PAULO E RIO - Pelo menos 70% dos brasileiros precisam estar imunizados para que possamos começar a falar em fim da epidemia de covid-19 no País. Chegar a esse porcentual só será possível depois que a maioria da população tiver sido infectada pelo novo coronavírus e curada. A alternativa é ter uma vacina pronta – trabalho que exige uma série de testes e o imunizante dificilmente chegará ao mercado antes do fim do ano.

Tentar prever como ou quando atingiremos esse patamar é um exercício de futurologia. Não há precedentes na história recente da humanidade para a crise atual. Por isso, não se pode mirar eventos passados em busca de respostas. Alguns estudos, porém, tentam olhar para o futuro e apontar caminhos possíveis. Uma unanimidade entre os especialistas é a adoção do distanciamento social de forma prolongada para retardar o aumento explosivo no número de casos.

“Não existem ainda meios de avaliar se as medidas que estão sendo implementadas, sobretudo pelos governos estaduais e municipais, surtirão os efeitos necessários”, afirma o especialista em modelagem epidemiológica da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Roberto Kraenkel.  “Mas projeções feitas para outros países indicam a necessidade de um lockdown (isolamento total das cidades, com manutenção apenas dos serviços essenciais) por, ao menos, dois meses.”

Estimativas feitas por especialistas da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio) e da Fiocruz apontam que, até  30 de março, o País deve contabilizar oficialmente 6.375 casos de covid-19 – número que pode variar entre 3.555 (cenário otimista) e 11.548 (cenário pessimista). A expectativa é de que, na próxima semana, o total de casos no Brasil comece a aumentar exponencialmente até que os efeitos das atuais medidas de distanciamento social e isolamento comecem a ser sentidos.

“A perspectiva é atingir o pico da epidemia em abril, mas não sabemos ainda aonde esse pico vai chegar”, explica o infectologista Antonio Flores, da organização Médicos Sem Fronteiras. “Dependendo das medidas de distanciamento físico implementadas e da adesão da população, teremos uma curva mais alta ou menos alta.”

Caso essas medidas mais drásticas não sejam cumpridas pela população - ou sejam suspensas, como sugeriu o presidente Jair Bolsonaro em cadeia nacional de rádio e TV -, a epidemia no Brasil pode seguir o mesmo caminho trilhado pela infecção na Itália e na Espanha, que já somam 12,6 mil mortes. Nesses países, o número de casos cresceu mais rápido do que a capacidade de o sistema de saúde de absorver pacientes. Os médicos estão sendo forçados a decidir quem pode ser levado para a UTI (e ter chance de ser curado) e quem é deixado de lado para morrer.

A ideia de reduzir o brutal impacto econômico das estratégias de mitigação e isolar só os mais vulneráveis à doença (idosos e doentes crônicos, por exemplo), como propôs Bolsonaro, foi aventada por outros líderes mundiais nas últimas semanas. A própria Itália contemplou a estratégia no início da epidemia. Rapidamente, diante da explosão de casos e de mortes, mudou de ideia. O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, também. O que fez o líder britânco (que teve diagnóstico confirmado para coronavírus confirmado nesta sexta, 27) recuar foi um estudo do Imperial College de Londres, divulgado em 16 de março. O trabalho projetou 250 mil mortes no país se apenas medidas de isolamento mais brandas fossem adotadas.

Os pesquisadores, liderados por Neil Ferguson, simularam como poderia se desenrolar a epidemia nos Estados Unidos e no Reino Unido, com base na observação das medidas tomadas na China, na Coreia e na Itália.

Eles modelaram duas estratégias: uma de mitigação, que se concentra em desacelerar, mas não necessariamente em impedir a propagação do vírus, o que reduz o pico de demanda de cuidados de saúde e protege aqueles com maior risco doença grave por infecção; e a segunda, de supressão, que visa a reverter o crescimento epidêmico, reduzindo o número de casos a níveis baixos.

No cenário de mitigação (que combina estratégias de isolamento em casa dos pacientes com suspeita de infecção, quarentena para quem mora com pessoas suspeitas e distanciamento social para os mais velhos e aqueles em maior risco de doença severa), o pico de demanda por atendimento cairia em 2/3 e as mortes, pela metade. Mas, ainda assim, resultaria em muitas mortes, como as 250 mil citadas acima. Nos EUA, pelas contas, cerca de 1 milhão morreriam.

O estudo concluiu que a única estratégia capaz de evitar muitos óbitos e a sobrecarga do sistema de saúde é impor regras de distanciamento social para toda a população; isolar casos confirmados e seus contatos; e fechar escolas, universidades e grande parte do comércio.

 

“Se as medidas de isolamento e contenção propostas pelos Estados forem respeitadas, podemos considerar um crescimento da epidemia similar ao da França (o país europeu confirmou o 1º caso em janeiro. Hoje, tem cerca de 29,5 mil pacientes e 1,7 mil mortes)”, afirmou Silvio Hamacher, da PUC-RJ, integrante do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (Nois), grupo faz modelagens de cenários futuros no País. “Contudo, se a população seguir o que foi preconizado por Bolsonaro, ou seja, reabertura do comércio e das escolas, a trajetória da epidemia pode seguir a de países como Espanha, onde as medidas de isolamento foram tardias.”

Segundo os pesquisadores do Imperial College, porém, para surtir efeito sustentável, a estratégia teria de continuar por muitos meses. Idealmente, deveria ir até o desenvolvimento de uma vacina ou a chamada imunização de rebanho, quando a maioria da população já foi contaminada e não corre mais o risco de ficar doente. Pelos cálculos do grupo, até seria possível suspender o isolamento de tempos em tempos, mas muito brevemente, para não abrir caminho para novos surtos.

Necessidade pode ser de isolamento de ao menos dois meses

Com a pandemia ainda em curso, e em franco crescimento em muitos países, quem já passou pela fase aguda traz mais ensinamentos. Após cerca de três meses do início oficial da epidemia, só agora a China começa a reabrir a província de Hubei, onde fica Wuhan, depois de ter zerado a transmissão local, mas a cidade epicentro inicial do novo coronavírus ainda deve ficar fechada por mais duas semanas. Os primeiros registros da doença foram feitos nessa região, em dezembro. 

O país, porém, começou a registrar casos importados de covid-19, e nesta quinta, 26, anunciou que fechará temporariamente suas fronteiras para a maioria dos estrangeiros a fim de evitar a retomada da transmissão, visto que só uma parcela muito pequena da população está imunizada.

Conforme os pesquisadores, a reabertura, para dar certo, demanda vigilância permanente e a continuação dos testes em massa, a fim de detectar rapidamente inícios de novos surtos e, de novo, estabelecer medidas mais restritivas. Isso até se conseguir uma vacina ou a chamada imunização de rebanho, quando grande parcela da população foi contaminada e já não corre mais o risco de ficar doente.

O biólogo Fernando Reinach, colunista do Estado, afirma que acompanhar os desdobramentos da reabertura de Wuhan será fundamental para entender como a epidemia vai se comportar. “O vírus continuará presente, por exemplo, com pessoas que estarão chegando contaminadas do exterior, e vai ser importante ver como vão evitar novos surtos."

Para ele, por enquanto, o único caminho que parece seguro para evitar muitas mortes é mesmo conter a população. O outro caminho, diz, seria fazer como a Coreia, que está testando em massa a população e agindo rapidamente para conter quando há infectados e rastrear seus contatos, a fim de evitar a dispersão. O país tem um número grande de casos, cerca de 9 mil, mas já fez mais de 300 mil testes e teve cerca de 120 mortes, 1,3% dos casos.  

Mas enquanto o país soma 51 milhões de habitantes, o Brasil tem 210 milhões. O governo Bolsonaro prometeu esta semana 22,9 milhões de testes, mas esbarra em desafios logísticos, como a capacidade de produção da Fiocruz, laboratório público responsável por fabricar grande parte dos exames, e a disputa pelo produto no mercado internacional.

“Neste momento, não parece que o Brasil conseguirá fazer essa testagem em massa, mas o país poderia se preparar para alcançar esse cenário em três meses e, então, começar a liberar as pessoas aos poucos, mantendo uma vigilância constante e tomando providências rapidamente diante do surgimento de novos casos”, defende Reinach.

Mas mesmo uma resposta perfeita do governo e da população não vai acabar de vez com a pandemia. Enquanto o vírus existir em algum lugar, ele sempre poderá retornar e dar início a uma nova epidemia.

O infectologista Fernando Bozza, da Fiocruz e do Instituto D’Or, lembra que a gripe espanhola (que começou em 1918 e se estendeu até 1920), por exemplo, teve três grandes ondas. Por outro lado, a epidemia da Sindrome Respiratória Aguda Grave (a SARS, que começou na China em 2002 e durou até 2003), teve apenas uma onda e depois, simplesmente, desapareceu. “A essa altura, só dá pra fazer previsão de curto prazo; todo o resto é especulação”, diz ele, que também integra o grupo Nois de modelagem de cenários.

 

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Da caverna pré-histórica à covid-19: xamãs, influencers e a tradição dos idosos

Quem não está se sentindo minimamente desconfortável ou até mesmo com sintomas ansiosos, depressivos ou hipocondríacos diante da pandemia mente pra si mesmo

Rodrigo Martins Leite*, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2020 | 12h00

   

Segundo o psicanalista britânico Wilfred Ruprecht Bion (1897-1979), a vida humana seria o processo de aguardar por algum acidente ou percalço incontornável, invariavelmente. Esta sentença, ao mesmo tempo perturbadora e realista, nos fala da falsa ilusão de sermos capazes de controlar os acontecimentos e da via final comum da doença, da incapacidade e da morte.

A vida psíquica é pródiga em nos proteger de realidades dolorosas como essa: negamos, minimizamos, fingimos que só acontece com os outros. Estes mecanismos de defesa têm sua razão de ser pois até certo ponto nos permite lidar com o cenário da vida sem enlouquecer. A realidade em si é potencialmente árida e sem confortos.

A experiência religiosa nasce na Pré-História como um unguento para estas percepções dolorosas e para fortalecer o sentimento comunitário. Nestes tempos, a fome, as doenças e o ataque de animais selvagens ou de tribos rivais traziam a expectativa média de vida para a casa dos trinta e poucos anos. Os xamãs e os anciões auxiliavam na elaboração do luto, mantinham os laços de pertencimento, traziam soluções transmitidas oralmente de geração em geração e alimentavam a esperança do grupo. É provável que a noção de vida eterna tenha surgido ali. Apenas 25% dos Neandertais ultrapassavam os 40 anos de idade. Assustador!

Trazemos dentro de nossos cérebros a herança comportamental destes ancestrais: a reação de “luta ou fuga” corresponde a uma série de alterações psicológicas e orgânicas como o aumento da performance muscular e cardíaca e sentimentos de terror, desamparo e angústia, situação análoga à experiência de um indivíduo que tem uma crise de pânico. Na psiquiatria, uma das premissas é despotencializar o medo extremo e educar o paciente a situá-lo numa perspectiva imaginária ao longo do tratamento. Afinal, o homem moderno com acesso à saúde, atendimento às necessidades básicas, segurança e conforto não precisa fugir de nenhum tigre dentes-de-sabre muito menos lidar com uma horda primitiva enfurecida. Certo?

Vivíamos uma "Belle Époque" em que os avanços da ciência e os confortos da vida moderna permitiriam que o homem vivesse até os 100 anos com facilidade e qualidade e que as agruras vividas pelos antepassados não mais se repetiriam. Tudo estava sob controle. A cobertura vacinal havia erradicado doenças transmissíveis potencialmente letais e a pandemia do vírus H1N1, em 2009, foi manejada com relativa facilidade, apesar de ter ceifado em torno de 150 mil vidas em todo o mundo numa estimativa mais modesta.    

Entretanto, a pandemia da covid-19 nos englobou numa experiência traumática coletiva. Os contemporâneos da gripe espanhola nos idos de 1918 e 1919 não estão mais entre nós para contar a história nem dar dicas. Subitamente, a incerteza que nos acompanha sorrateira ao longo dos tempos promove um reset geral: planos, rotinas e a ilusão de segurança postas em cheque. Evidentemente, quem não está se sentindo minimamente desconfortável ou até mesmo com sintomas ansiosos, depressivos ou hipocondríacos diante disso mente pra si mesmo. A pós-verdade, com seu relativismo implacável, alimenta a negação e permite que possamos  desvalorizar estratégias de atenuação do impacto da pandemia nos serviços de saúde como o distanciamento social, por exemplo. Estão manipulando nossa percepção de um modo bastante cruel e novamente caímos nas garras da polarização. “Você é a favor da economia ou da saúde?”

A saída para este cenário passa pela atuação dos bons influenciadores, formadores de opinião e lideranças positivas. Ouça e cuide dos seus idosos pois eles têm um legado a ser transmitido. O mundo precisa urgentemente de uma massa crítica de pensadores e do resgate do pensamento reflexivo que vise o bem-comum. O homem não sucumbiu à barbárie graças à capacidade de viver em comunidade presencial ou remota. Estar em distanciamento ou isolamento devido à pandemia não precisa ser sinônimo de solidão. Estávamos usando a tecnologia e as mídias sociais para darmos vazão anônima ou declarada ao ódio, frustração e ressentimento nos últimos tempos. Agora ela é a principal ferramenta de comunicação e troca afetiva.

Reconecte-se com sua rede social mais próxima e busque informações e soluções criativas com os xamãs corretos, sejam eles chefes de Estado, profissionais de saúde mental, professores, intelectuais, nossos idosos, sua esposa ou mesmo o vizinho. A anatomia cerebral é essencialmente a mesma há pelo menos 100 mil anos: as dicas para a saúde mental dos homens da Pré-História e nós em tempos de calamidade são bastante similares. Assim conquistamos a Terra e sobreviveremos a mais um teste. Juntos.  

*Rodrigo Martins Leite é Diretor de Relações Institucionais IPq HCFM/USP

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'É a primeira crise desse tamanho vivenciada pela nossa geração'

Há três anos na UTI do Centro Médico da Rush University, em Chicago, o intensivista brasileiro Ivan da Silva compara o novo coronavírus com a epidemia de H1N1

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2020 | 12h00

  

O intensivista brasileiro Ivan da Silva trabalha há três anos na UTI do Centro Médico da Rush University, em Chicago, que está recebendo pacientes do novo coronavírus. Ele também estava trabalhando nos EUA em 2009, por ocasião da epidemia de H1N1 e compara as duas situações.

Qual é a situação hoje e como ela se compara à do H1N1 em 2009?

Os pacientes começaram a chegar há três semanas, mas agora disparou. Acho que é a primeira crise desse tamanho vivenciada pela nossa geração. Eu estava aqui nos EUA em 2009, mas não chegou perto disso. Porque a covid-19 é menos letal e complicada de forma geral, mas o grande problema é o número elevado de pacientes chegando ao hospital ao mesmo tempo. Estamos convertendo vários lugares em UTI para receber pacientes. É um pesadelo logístico.

O tratamento nos Estados Unidos é diferente do que é feito em outros países?

Uma das grandes diferenças dessa pandemia em relação às epidemias anteriores é que vivemos num mundo extremamente conectado. Então, estamos em contato direto com os colegas da China, da Itália, da França. Seguimos os mesmos protocolos. Todos estamos tratando da mesma forma.

A questão da testagem em massa, no entanto, foi muito diferente entre os países. Como ela se reflete no atendimento?

Sim, a testagem mais ampla levou um tempo para começar nos EUA. Os asiáticos conseguiram adiantar a testagem e fazer isso de forma mais agressiva. Acho que com a testagem mais ampla teremos uma noção melhor da quantidade de pessoas infectadas e do impacto da epidemia. Temos muitas lições a aprender nas próximas semanas.

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'O vírus não é imparável quando o país se mobiliza com liderança forte'

Manuel Gomes é professor de epidemiologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e assessora o governo de Portugal na resposta à epidemia do novo coronavírus

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2020 | 12h00

   

Professor de epidemiologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Manuel Gomes assessora o governo de Portugal na resposta à epidemia do novo coronavírus. “Quando um país entra em negação, mais semana menos semana, perde-se o controle da situação, e as consequências são pesadas”, diz.

Que lições podemos tirar desde o início dessa epidemia há três meses?

Presentemente, o mundo é um laboratório epidemiológico ao vivo, onde ocorrem experiências que nos dão ensinamentos. Vemos que os resultados de lidar com o mesmo fenômeno de forma diferente conduz a resultados diferentes. Num extremo, temos a China e a Coreia; no outro, parece estar o Irã. No meio, temos a Alemanha, a Espanha, a Itália, e muitos outros.

Quando um país toma medidas proativas draconianas (China e, depois, a Coreia), é possível controlar a covid-19, mesmo quando o ponto de partida é muito mau e predomina transmissão comunitária da doença. O vírus não é imparável quando a sociedade se mobiliza sob liderança forte.

E quando essas medidas não são adotadas?

Quando um país entra em negação, mais semana menos semana, perde-se o controle da situação, e as consequências são pesadas. De início, parece que o número de casos aumenta muito devagar, mas de repente disparam exponencialmente e tornam-se imparáveis. No Irã, a situação está descontrolada e há pouca informação.

O senhor acha que a Itália esteve em negação?

Na Itália, passamos de zero para dez mil casos num abrir e piscar de olhos. Não diria que o país esteve em negação, nada disso, mas a Itália aparenta ter estado toda a fase inicial da epidemia a reagir, em vez de tomar medidas proativas. Tudo isto está a passar-se à nossa frente. Podemos aprender as lições e aplicar, ou ignorar. O Brasil teve tempo para se preparar.

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'Essa é a pior situação de crise de saúde pública enfrentada há muitos anos no sistema sanitário'

Maria José Amorim é Subdiretora do Hospital Clínico de Zaragoza, na Espanha, e relata o drama vivido em seu hospital, a ponto de entrar em colapso diante do grande número de pacientes graves

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2020 | 12h00

   

Subdiretora do Hospital Clínico de Zaragoza, na região de Aragon, na Espanha, Maria José Amorim relata o drama vivido em seu hospital por causa do novo coronavírus. A instituição está a ponto de entrar em colapso diante do grande número de pacientes graves chegando a cada dia. “Nunca tínhamos vivido algo assim”, contou.

A senhora diria que é a pior crise sanitária enfrentada na Espanha?

Essa é a pior situação de crise de saúde pública enfrentada há muitos anos no sistema sanitário. Temos um sistema forte, robusto, boa infraestrutura, equipamentos e funcionários, mas a magnitude do que estamos vivendo está levando ao limite a nossa capacidade.

As UTIs  estão lotadas?

A situação limite está ocorrendo principalmente nas UTIs. Esses pacientes não se recuperam rapidamente, requerem longos períodos de internação. Entram novos casos a cada dia, mas não saem pacientes, levando ao esgotamento da capacidade dessas unidades. Estamos abrindo novos leitos, mas precisamos de respiradores em número superior ao que dispomos. É uma grande utilização de recursos para a qual não estávamos acostumados, nunca tínhamos vivido algo assim. Por outro lado, como é uma situação internacional, é difícil adquirir respiradores e outros equipamentos.

Qual a situação na região de Aragon?

Estamos nos preparando para o cenário três, que é o de transbordamento da capacidade dos hospitais. Estamos trabalhando com o exército para montar dois hospitais de campanha, com camas para pacientes não especialmente graves,  mas que requerem algum cuidados. 

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Imagem Fernando Reinach
Colunista
Fernando Reinach
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Fernando Reinach: Fechar é mais fácil que abrir

Se é compreensível que entramos despreparados nessa crise, não existe desculpa para não nos prepararmos para sair dela

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2020 | 05h00

Presos em casa estamos todos, vendo o número de casos e mortes pela covid-19 crescer exponencialmente. A subida dessa curva no Brasil é inevitável, e se ela se comportar de maneira semelhante à do inicio do surto na China, Itália e Espanha, vai subir por um ou dois meses, se estabilizar, e depois descer. Serão dois ou três meses duros, nos quais o número de mortes é difícil de prever.

 

Considerando nossa falta de preparo, até que estamos nos saindo bem. O sistema de testes que era inexistente está longe do ideal, mas está se organizando (a Alemanha esta fazendo 500 mil testes por semana). Muitas empresas e governos estão providenciando respiradores, hospitais de emergência estão pipocando pelo País. Mas o mais importante é que adotamos bem cedo políticas rígidas de isolamento, o que já está comprovado cientificamente que reduz o número de vítimas. O erro da Itália foi hesitar por uma semana.

Mas isso não quer dizer que agora basta esperar a avalanche de casos e lidar com eles. Na verdade, precisamos começar a discutir quando, e mais importante, de que maneira vamos relaxar essas regras rígidas de distanciamento social e isolamento. Os cientistas não têm dúvidas no que se refere a quando devemos relaxar o isolamento. Todos concordam que é necessário esperar algumas semanas após o número de novos casos voltar a níveis baixos. Relaxar as medidas antes da queda da curva pode ser trágico, pois é certo que a epidemia volta rapidamente, os casos aumentam, e teremos uma nova onda a ser combatida como a primeira. 

Os primeiros estudos epidemiológicos que modelam a abertura na China, agora publicados, mostram que foi sábio o país esperar e liberar o isolamento gradativamente a partir de abril (lembre que o isolamento começou em meados de janeiro). Esse adiamento, e a liberação gradual e planejada, deve reduzir em 92% o número de casos da segunda onda que deve ocorrer em meados de 2020. Essa segunda onda é consequência inevitável da abertura. E a China está se preparando para lidar com ela sem fechar a economia.

Mais difícil do que decidir quando liberar é escolher como relaxar as medidas e, ao mesmo tempo, garantir que o aumento de casos resultante seja passível de controle e não desmonte novamente o sistema de saúde e cause outra avalanche de mortes. Esse é o problema que tem tirado o sono dos epidemiologistas. 

Uma coisa é certa: se é compreensível que entramos despreparados nessa crise, não existe desculpa para não nos prepararmos para sair dela. Teremos três meses para discutir e planejar as ações necessárias antes que elas sejam implementadas. A verdade é que montar o sistema de isolamento é muito mais fácil do que desmontá-lo sem jogar no lixo as conquistas que custaram tantas mortes. 

A primeira providência é possuir informações confiáveis sobre o que ocorreu durante o pico de casos. É preciso saber quantas e quem são as pessoas que contraíram a covid-19 e se recuperaram. Essas pessoas poderão voltar a circular livremente. É quase certo que estarão imunes ao vírus por algum tempo. E aí entra a importância de testarmos o maior número possível dos casos que não chegaram aos hospitais, os tais 80% de casos leves. Cada uma dessas pessoas que testou positivo e sarou pode receber o carimbo verde de liberado. Além disso, seria importante identificar as pessoas que talvez tenham sido infectadas e não foram testadas – elas fazem parte do grupo de pessoas que tiveram contato com pessoas identificadas e não apresentaram sintomas claros, muitas delas tiveram a doença. 

Na Alemanha os contatos das pessoas infectadas também estão sendo testados e, caso tenham resultado positivo para a doença, também vão entrar na lista das pessoas automaticamente liberadas após a quarentena. Mas para saber quem são elas, teríamos de montar esse programa de teste nos próximos meses. Outro programa que está sendo iniciado na Inglaterra é usar um novo teste que indica, a posteriori, quem são as pessoas que já foram expostas ao vírus e estão curadas. Essa população testa negativo para o vírus, mas já possui anticorpos contra ele. Saber a proporção da população já exposta é essencial para planejar as medidas de relaxamento. Isso também precisa ser feito.

Também vai ser preciso decidir, com base em modelos epidemiológicos, como vai ser a abertura gradual. Problemas como saber se abrimos primeiro as escolas ou os escritórios, se abrimos todos simultaneamente ou de forma escalonada e, entre as escolas, quais devem ser abertas primeiro, e assim por diante. São decisões difíceis que precisam ser baseadas em modelos epidemiológicos.

E finalmente vai ser preciso montar um sistema de teste amplo e robusto para descobrir e acompanhar os focos e pequenos surtos que vão aparecer logo depois da abertura e ter um plano estruturado de como eles serão combatidos para não crescerem e se tornarem novas epidemias que necessitem de uma nova quarentena generalizada. 

Sem esse sistema funcionando antes da abertura, novos focos não serão descobertos a tempo e podem se tornar novas epidemias. E todo esse sistema de vigilância terá de ser mantido até que surja uma vacina, ou quando 60% a 80% da população já tiver sido exposta ao vírus. Sem isso não será possível uma recuperação econômica livre do medo de novos surtos. Como pode ser visto, sair desse estado de isolamento total é tarefa muito mais difícil do que implementar o isolamento. É preciso esquecer soluções fáceis e começar a planejar essas medidas. Três meses não é muito, mãos à obra.

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