Governo do Estado de São Paulo/Divulgação
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Para Dimas Covas, reabertura do comércio em SP é precoce e pode gerar segundo pico da doença

Ex-diretor do Centro de Contingência para a covid-19 do governo de São Paulo diz que ‘abertura do comércio está acontecendo por pressão de prefeitos que estão em campanha eleitoral’

Ana Paula Niederauer e Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2020 | 18h45

Em uma live com pesquisadores nesta quarta-feira, 10, Dimas Covas, diretor-geral do Instituto Butantã e ex-diretor do Centro de Contingência para a covid-19 do governo de São Paulo, criticou a reabertura do comércio neste momento. Para ele, o plano de reabertura é "precoce" e não deveria ocorrer ao passo que o Estado ultrapassa a marca de 10 mil mortos por coronavírus.


"Não era para ser feita a abertura agora, está certo. Era uma possibilidade do plano. Porque na realidade é o seguinte: quando você faz um planejamento, você tem de prever quando que vai sair daquela situação. Mas nenhum especialista, nenhum infectologista, nenhum epidemiologista fala pra você que você pode sair com curva em ascensão. Quer dizer, isso não faz muito sentido, você está entendendo? E no Estado de São Paulo, nós não temos nenhuma curva em descenso", disse Dimas em vídeo exibido pela TV Globo.

Segundo Covas, a reabertura do comércio incentiva a circulação de pessoas e pode gerar o segundo pico da doença. "Se você abre, você de novo propicia a circulação e aí você vai ter o segundo pico. Quer dizer, tá estimulando isso", disse ele.

Ainda de acordo com Covas, a volta do comércio está acontecendo por pressão dos prefeitos que estão em campanha para eleição municipal.

"Eu acho assim que o timing dessa abertura, que muitos aconteceram, estão acontecendo por pressão dos prefeitos. Prefeito está em ano de eleição, quer dizer que é outro complicador né. Além da dubiedade de orientação para o enfrentamento da epidemia, está no meio aí uma eleição municipal que já tem data pro dia 15 de dezembro. Então os prefeitos estão em campanha. Quer dizer, vai falar para o prefeito contrariar a base dele, contrariar os lojistas, os donos dos negócios, os financiadores. Você vê, até isso a gente não conseguiu entender o momento social, o momento político e o momento da gravidade da epidemia que estamos vivendo."

Questionado em coletiva desta quinta-feira, 11, ao lado do governador João Doria, Dimas Covas recuou e disse que contexto das frases era outro. "Ontem eu participei de uma conferência científica no Instituto de Estudos Avançados da USP e lá foi discutido. Tinha lá o Dráuzio Varella, outros professores e epidemiologistas, então veja, o contexto que eu mencionei não foi esse contexto que você mencionou", disse Covas.

Em conversas reservadas com o Estadão, três membros do centro de contingência do Estado afirmaram que a maioria dos integrantes do colegiado foram contrários à reabertura do comércio em parte do Estado no dia 1 de junho e revelaram, inclusive, que foram pegos de surpresa com o anúncio da data de reabertura feita pelo governador João Doria.

"Participamos de uma reunião dias antes do anúncio na qual nos foi apresentado o plano. Achamos a proposta muito boa por dividir o Estado em várias regiões e prever protocolos de segurança para reabertura, mas em nenhum momento nos foi falado que o plano já seria implantado na semana seguinte. Soubemos no mesmo dia que a imprensa. Todos que são técnicos se mostraram frustrados com a decisão", disse um dos integrantes.

Outro membro relatou que causou estranheza aos especialistas do comitê a decisão de reabrir justamente no momento em que os casos estavam subindo no Estado, principalmente no interior. "Sabemos que houve pressão dos prefeitos e da área econômica. No aspecto de saúde, era o momento de continuar tudo fechado, não de reabrir", relatou outro especialista ouvido pela reportagem. 

Eles disseram ainda que gerou preocupação entre os membros do centro de contingência a mensagem que ficou para a população com o anúncio de reabertura por Doria. "No primeiro dia de retomada já vimos uma multidão nas ruas. Se já estava dificil fazer cumprir o isolamento antes, depois do anúncio do governador ficou pior, porque passa uma mensagem de que a situação da pandemia já não é tão grave", disse um dos integrantes. 

O  centro é formado por 18 especialistas. A maioria tem destacada carreira acadêmica, com atuação nas principais universidades paulistas.  Na opinião dos especialistas, "era uma questao de dias" para que os casos de covid crescessem nos locais reabertos e o governo tivesse que recuar na reabertura de algumas regiões, como aconteceu nesta quarta.

Em nota oficial enviada ao Estadão, a Secretaria de Estado da Saúde informou que "a quarentena no estado de São Paulo está prorrogada até 28 de junho" e que "as decisões do Governo de São Paulo em relação à abertura lenta e gradual da economia, respeitando cinco diferentes fases, são pautadas por manifestação do Centro de Contingência, formado por 18 especialistas. As opiniões pessoais dos seus integrantes podem divergir, mas a decisão que prevalece é o do colegiado, que são baseadas em dados técnico-científicos."

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