Para especialista, Brasil aceita risco de infecção hospitalar

Denise Cardo acredita que no País há menos cobrança da sociedade por mais segurança que nos EUA

Fabiane Leite, de O Estado de S. Paulo,

25 de agosto de 2008 | 18h45

Responsável pela área de infecção hospitalar do Centro de Controle de Doenças dos EUA (CDC), a brasileira Denise Cardo afirma que a diferença entre os dois países no controle do problema é que, nos EUA, aceita-se um nível muito menor de risco e há uma cobrança muito maior da sociedade. "Quando penso na diferença, é o nível que se aceita como risco. Aqui, mais e mais não se aceita que este tipo de coisa aconteça, e quando acontece, existe cobrança da sociedade para que as coisas sejam corrigidas", disse Denise, que tem acompanhado a epidemia de infecções por micobactérias no Brasil pelos jornais.   Veja também:  Saúde terá de notificar casos de infecção por micobactéria  Anvisa quer mudança na lei sobre infecções hospitalares  Anvisa leva 5 anos para combater micobactéria  Anvisa quer limitar número de cirurgias com câmeras  Conte o que você sabe sobre micobactérias    Leia trechos da entrevista concedida ao Estado.   O que causa uma epidemia como esta atualmente no Brasil?   Muitas vez são várias coisas juntas . É complexo, mas não quer dizer que não é evitável. Ainda mais uma situação como está, que vem de alguns anos, e em vários Estados. Quando temos surtos desta maneira, é importante ver se há causas comuns, muitas vezes não se acha a causa, mas coisas que não estão da maneira ideal. E é sempre uma oportunidade para mostrar que as coisas devem ser feitas da maneira correta sempre, sempre que há queda nas medidas de controle acaba havendo infecção.   É possível fazer um paralelo com os EUA?   O que vemos em surtos nos EUA é que as pessoas não sabem o que deveriam estar fazendo, falhas na priorização dos hospitais, porque às vezes aquilo não é uma prioridade, e falha na fiscalização, porque às vezes mesmo que haja fiscalização, as pessoas não sabem o que devem procurar. Quando você tem de atuar em tudo isto, educar os profissionais, os administradores dos hospitais, facilitar para que os profissionais possam seguir as recomendações e ter uma maneira de fiscalizar, mas também poder incentivar aqueles que não estão fazendo bem. Quando penso na diferença no Brasil e daqui, é o nível que se aceita de risco. E aqui, mais e mais não se aceita que este tipo de coisa aconteça, e quando acontece, existe cobrança da sociedade para que as coisas sejam corrigidas.   Há participação de toda a sociedade.   Controle de infecção não é só responsabilidade dos que trabalham na comissão de infecção, é de todos que trabalham na área de saúde, é responsabilidade do diretor do hospital, do diretor da clínica, do médico, da enfermeira, do farmacêutico, do que limpa o chão, é uma responsabilidade de todos. Uma coisa é clara:, não é que os profissionais querem causar infecção, mas causam por desconhecimento. Primeiro, eles precisam saber que o que estão fazendo causa infecção. De que se você não lava mão, ou usa água em algo que você desinfeta, você pode causar um problema. Outra coisa é do ponto de vista administrativo, não adianta ter todo conhecimento e não ter onde lavar sua mão, não ter luva suficiente, avental suficiente. Precisa de apoio administrativo junto com este conhecimento.   E há questão dos hábitos dos profissionais.   Sim, é o "sempre fiz isto assim e nunca aconteceu nada". Isto é algo que não dá para aceitar.   Aqui não se informou onde está acontecendo o problema das infecções. Como é a divulgação do problema para a população nos EUA?   A gente não informa, mas geralmente os serviços preferem ser proativos e eles mesmo fazem informes à imprensa. As instituições vêem que é benéfico mostrar que estão fazendo alguma coisa e que é necessário prevenir.

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