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Para evitar a obesidade, comece antes do nascimento

Estudos mostram que círculo vicioso do excesso de peso se inicia com as futuras mães e pais que estão com sobrepeso ou são obesos

Jane E. Brody, The New York Times

28 Julho 2016 | 07h00

Para conter a epidemia atual de obesidade, não há dúvida que um pouco de prevenção vale mais que a cura. Como todos os adultos acima do peso sabem muito bem, emagrecer e manter-se assim é muito mais difícil do que engordar. 

Mas para garantir uma nova geração mais magra e mais saudável, talvez seja preciso começar antes mesmo do nascimento do bebê. 

A esmagadora maioria nasce magra, mas quando chegam à pré-escola, muitos adquiriram o excesso de gordura corporal que prepara o corpo para o problema de peso ao longo da vida. 

Estudos recentes indicam que a razão pela qual tantas crianças nos Estados Unidos se tornam obesas é muito mais complicada do que consumir mais calorias do que queimá-las, embora esse certamente seja um fator importante. O que precisa ser feito é impedir que elas acumulem excesso de gordura corporal, o que pode começar mesmo antes da gravidez das mães. 

Pesquisadores estão rastreando as origens do sobrepeso e da obesidade desde o peso dos pais antes da gravidez e suas explicações vão além de simples herança genética: 23 genes são conhecidos por aumentar o risco da obesidade e eles podem atuar muito cedo no crescimento para acelerar o ganho de peso na primeira infância e nos anos que se seguem. 

Na trajetória normal, as crianças nascem magras, tornam-se bebês gordinhos e voltam a emagrecer quando começam a andar, pois além de crescer, ficam mais ativas. Então, antes ou por volta dos 10 anos, a gordura corporal aumenta em preparação para a puberdade, em um fenômeno chamado de reserva adiposa. 

"Em crianças com genes da obesidade, a reserva adiposa ocorre mais cedo e é maior. Elas param de perdê-la mais rapidamente e começam a acumulá-la mais cedo", disse o Dr. Daniel W. Belsky, epidemiologista da Escola de Medicina da Universidade Duke. 

Mesmo assim, estudos familiares e com gêmeos mostram que muitas crianças com esses genes permanecem magras. Além disso, eles já existiam em 1960 e 1970, quando a taxa de obesidade infantil era uma fração do que é hoje. 

Então qual é a diferença? As crianças hoje estão rodeadas por um excesso de alimentos e petiscos de fácil consumo, com calorias ruins, acompanhados da falta de oportunidade para gastá-las através de atividade física regular. E combater um ambiente rico em calorias e sedentário é mais difícil agora do que deveria ser, com a atual ênfase nos estudos, a relutância dos pais em deixar as crianças brincarem fora sozinhas e o intenso apelo dos dispositivos eletrônicos. Todas estas circunstâncias podem dar aos genes da obesidade uma maior chance de se expressar. 

"Não dá para voltar a um mundo em que as calorias eram escassas e obtê-las demandava esforços físicos. E os governos e o público mostraram pouco interesse em regulamentações que poderiam restringir o acesso a alimentos palatáveis, altamente calóricos", escreveu Belsky em um editorial em JAMA Pediatrics. 

Limitar o consumo de bebidas açucaradas e manter alimentos altamente calóricos longe de casa, além de monitorar as situações nas quais as crianças passam seu tempo, é crucial. Isso é especialmente importante para aquelas com grande apetite, que não se satisfazem com facilidade. 

Além disso, os especialistas concordam ser essencial que os pais deem o exemplo de bons hábitos alimentares. "Se você faz, eles imitam. As crianças são como patinhos: querem fazer o que suas mães fazem", disse David S. Ludwig, especialista em obesidade do Hospital Infantil de Boston. 

"Outro fator muito importante é permitir que crianças em instituições - creches, pré-escola e ensino fundamental - sejam tão ativas quanto quiserem, em vez de forçá-las a se sentar quietinhas na maior parte do dia. A atividade física incentiva um metabolismo saudável. Crianças ativas não estão constantemente com fome", disse Belsky. 

E acrescentou: "Face à epidemia da obesidade, eliminar oportunidades de atividades para as crianças durante o dia é uma vergonha. O comportamento sedentário se torna um padrão de vida". 

Outra questão crítica é o círculo vicioso do excesso de peso que começa com as futuras mães e pais que estão com sobrepeso ou são obesos. "Se queremos filhos saudáveis, precisamos de mães saudáveis antes e durante a gravidez. Existem vários caminhos pelos quais o peso prejudicial antes e durante a gestação pode influenciar o peso que uma criança terá", disse Belsky. 

Como explicou Ludwig: "Embora os genes não se modifiquem, o peso da mãe antes e durante a gravidez, sim. O ganho de peso excessivo nesse período determina não só o peso do bebê no nascimento, mas também sua probabilidade de ser obeso na infância". 

"Percebeu-se que o peso do pai também é importante. Fatores adquiridos influenciam a expressão gênica. Ser gordo altera o DNA no sêmen do pai, o que muda a expressão do gene e pode ser transmitido para a próxima geração", acrescentou. 

A maioria dos estudos associa uma maior duração da amamentação à redução dos riscos de excesso de peso infantil. "Embora o efeito não seja dramático, um benefício importante da amamentação é expor o bebê a um leque mais vasto de gostos baseado no que a mãe come. Se a mãe que amamenta come uma grande variedade de alimentos nutritivos, a criança tem uma probabilidade maior de gostar deles", completou Ludwig. 

Antibióticos administrados no início da vida, no entanto, podem acabar com quaisquer benefícios que a amamentação possa vir a ter no ganho de peso, descobriu um novo estudo. Pesquisadores da Universidade de Helsinki, na Finlândia, mostraram que, quando crianças amamentadas são tratadas com antibióticos, estes matam bactérias intestinais que promovem a saúde. "O efeito protetor do aleitamento materno contra infecções e excesso de peso foram enfraquecidos ou completamente eliminados pelo uso de antibióticos no início da vida", escreveu a equipe no JAMA Pediatrics em junho. 

Mesmo que as crianças já estejam no caminho dos maus hábitos alimentares e do excesso de peso, Ludwig disse que não é tarde demais para fazer mudanças saudáveis. Como fundador do programa Optimal Weight for Life e autor de "Ending the Food Fight: Guide Your Child to a Healthy Weight in a Fast Food/Fake Food World" (Acabando com a guerra alimentar: garanta o peso saudável de seu filho em um mundo de alimentos ruins), ele defende um estilo de educação com autoridade, mas não autoritário, que elimina o estresse e os conflitos sobre o que e quando a criança come. 

"Nunca force a criança a comer. Insista de forma suave, mas firme, e esteja preparado para um pouco de negociação. Quando uma criança se recusa a jantar o que é servido, guarde a comida na geladeira para ser comida mais tarde. Se a criança diz 'Não vou comer', a resposta deveria ser, 'Tudo bem, então vá para a cama', e não 'Ok, vou fazer macarrão com queijo'." 

"As crianças devem poder controlar seus corpos, mas os pais têm que fornecer a orientação e o controle do ambiente", disse Ludwig. 

 

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