'Para mim, fazer a cirurgia é realmente necessário', afirma outro transexual

Depoimento de *Miguel, 21 anos, transexual, recepcionista de hotel:

Fernanda Bassette, de O Estado de S.Paulo,

22 de abril de 2013 | 10h16

Desde criança achava que tinha alguma coisa errada comigo, eu achava que não era uma criança padrão. A maioria das garotas usava vestido, maquiagem, brinco, e eu nunca gostei disso. Ganhava bonecas de presente e cortava o cabelo delas para transformá-las em caçadores.

Na escola era ruim porque eu era excluído dos dois grupos: não me encaixava nas brincadeiras de meninas e os meninos não me deixavam participar das brincadeiras deles.

Eu não entendia muito bem o que acontecia, só sabia que eu era diferente. Por volta dos 10 anos sofri minha primeira decepção. Escrevi uma cartinha anônima, me declarando para uma menina da classe. Ela reconheceu minha letra e nunca mais falou comigo.

Menstruei aos 12 anos. Foi horrível. Quando a gente é criança acha que um dia vai acordar e vai estar tudo certo. Nessa fase os seios cresceram, surgiram os pelos. Cortei o cabelo, passei a usar roupas largas.

Me dei conta que não era lésbica aos 16 anos. Fui ao médico escondido dos meus pais para iniciar o tratamento hormonal, mas não consegui, pois a lei só autorizava aos 18 anos. Esses dois anos foram angustiantes e, ao completar 18 anos, resolvi contar para minha mãe. Foi libertador. Passei a usar o nome Miguel e foi ela que escolheu.

Nessa época comecei o tratamento hormonal e com psicólogo. Já senti as mudanças no primeiro mês. Em menos de 3 meses parei de menstruar. O que mais me incomoda são os seios, que são grandes e tenho de usar faixas apertadas para esconder.

Para mim, fazer a cirurgia é realmente necessário. A retirada das mamas será metade do caminho, pois não vou à praia desde os 14 anos. Quero viver como qualquer pessoa.

*Foi adotado um nome fictício para que a identidade fosse preservada

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