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Para ter sucesso contra o HIV

'Algumas novas tecnologias, já em uso em alguns países e em fase final de avaliação e aprovação aqui no Brasil, podem ajudar'

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

29 Novembro 2015 | 05h00

Na próxima terça, Dia Mundial de Luta contra a Aids, o Ministério da Saúde divulga o novo boletim epidemiológico, com os números mais recentes da infecção pelo HIV no Brasil. Se a tendência dos últimos anos for mantida, serão cerca de 40 mil novos casos, a maioria deles na população jovem.

Os últimos anos trouxeram mudanças importantes em conceitos e estratégias de prevenção e combate ao HIV. A primeira consiste na importância de fazer com que as pessoas sejam testadas. Especialistas estimam que ainda hoje no País cerca de 20% dos infectados (150 mil pessoas) desconhecem seu status sorológico. O segundo passo seria fazer com que o uso dos medicamentos seja iniciado o mais cedo possível. A terceira etapa seria a adesão ao tratamento e a carga viral indetectável, o que torna a chance de transmissão do vírus praticamente nula.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) avalia que se 90% dos soropositivos fossem testados, se 90% deles estivessem sob tratamento e se 90% dos tratados “zerassem” sua carga viral, a transmissão sexual do HIV poderia ser interrompida em até 15 anos. A razão por trás dessa equação é que, com cada vez menos vírus circulando, seria muito mais improvável que alguém se contaminasse pelo sexo.

Algumas novas tecnologias, já em uso em alguns países e em fase final de avaliação e aprovação aqui no Brasil, podem ajudar a “fechar essa conta”. O uso do autoteste de HIV, regulamentado pela Anvisa no último dia 20, pode fazer com que mais pessoas busquem saber se estão infectadas. Com ele, uma barreira inicial importante para muita gente (a vergonha ou o receio de procurar pelo teste em postos de saúde ou ONGs) seria eliminada. O teste comprado em farmácia vai ser uma espécie de triagem, que exigirá uma confirmação em laboratório posterior.

A profilaxia pré-exposição (PreP) também pode ajudar na prevenção. Pessoas com maior risco de entrar em contato com o vírus, como homens que fazem sexo com outros homens e não usam camisinha de forma regular, podem tomar um medicamento (combinação de dois antivirais) que praticamente bloqueia o risco de eles se infectarem. Importante lembrar que esse método não substitui o preservativo, mas é uma camada adicional de proteção. 

Hoje com camisinha, testes mais rápidos e acessíveis, tratamento para todos, possibilidade concreta de zerar a carga viral em poucos meses e profilaxias pré e pós exposição disponíveis (a primeira ainda em fase de avaliação para possível implementação na rede pública em 2016), reunimos, pelo menos em teoria, o maior número de insumos e estratégias já disponíveis para mudar a história da epidemia no Brasil. 

O grande desafio ainda consiste em implementar todas essas etapas. Em primeiro lugar, educar os jovens desde cedo nas escolas para uma vida sexual mais responsável e com mais autonomia. Depois, fazer com que quem se expôs a risco vença seus medos e tabus e faça o teste. O passo seguinte seria acelerar o início do tratamento. Para completar, uma atenção especial para garantir a adesão aos antivirais.

Artigo recente do The New York Times explica como a cidade de São Francisco, nos EUA, conseguiu sucesso nessas estratégias. Uma campanha permanente mostra a importância da testagem. Uma vez feito o diagnóstico, não é incomum que a pessoa comece a tomar medicamentos quase que imediatamente. Além disso, cerca de 20% da população de homens que fazem sexo com homens usa a PreP. Há ainda um acompanhamento muito próximo dos pacientes, até mesmo com troca de mensagens eletrônicas, lembrando sobre consultas, exames de rotina e uso dos remédios. Para garantir a adesão, até visitas domiciliares dos agentes de saúde (quando necessárias) podem acontecer.

JAIRO BOUER É PSIQUIATRA

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