Paraplégico atravessa França de muletas para alertar sobre lesões na medula

Apoiado em muletas, ele quer mobilizar sociedade a encontrar solução médica para esse tipo de lesão.

Daniela Fernandes, BBC

03 de fevereiro de 2012 | 06h57

Paraplégico há 30 anos, Joe Kals está percorrendo a França a pé, apoiado em muletas e utilizando somente a força dos braços e do abdômen, para tentar mobilizar a sociedade a encontrar uma solução médica para lesões na medula espinhal.

No último domingo, ele atingiu a marca de mil quilômetros. No total ele irá percorrer 1,32 mil km, entre Havre, no noroeste da França, e Menton, no sul do país, próximo a Mônaco, onde reside.

Kals ficou totalmente paralisado da cintura para baixo após sofrer um acidente de moto em 1982.

Para realizar a "caminhada" pelas estradas francesas, ele usa talas que deixam suas pernas rígidas. Apoiado em muletas, ele "dá passos" balançando suas pernas para frente, como um pêndulo.

Em entrevista à BBC Brasil, ele contou ter se preparado durante cinco anos para realizar essa maratona. Graves problemas médicos e uma cirurgia em 2010 atrasaram os preparativos físicos, retomados no final daquele ano.

O francês deixou a cidade de Havre em agosto de 2011 e espera chegar a Menton entre o final de fevereiro e meados de março próximo.

Mobilização

Kals caminha em média dez quilômetros por dia durante quatro dias e depois passa um dia descansando.

"Quero sensibilizar as pessoas em relação a um problema que é mundial. Não quero provar nada a ninguém com essa caminhada. Desejo apenas que haja uma tomada de consciência e uma mobilização para encontrar uma solução para as lesões na medula espinhal", disse.

Ele diz que o fato de ser paraplégico ou tetraplégico é considerado por muitos uma fatalidade, mas ele contesta essa visão.

"Quando sofri meu acidente em 1982 e fiquei paraplégico, os médicos me diziam que a soluções para a lesão na medula estavam muitas próximas de ser obtidas. Mas 30 anos depois, continuam dizendo a mesma coisa."

"Quero criar um movimento para que as coisas avancem em relação a isso. Gostaria que no futuro, o mais próximo possível, as pessoas não tenham mais sequelas de uma lesão medular e possam viver com dignidade", diz ele, acrescentando que a paraplegia causa sofrimento físico e também moral.

Sensação de liberdade

Atualmente, Kals se encontra nos arredores da cidade de Aix-en-Provence, próxima à Marselha, no sul do país.

Ele afirma que continua "caminhando" normalmente pelas estradas, apesar do frio rigoroso que atravessa a França atualmente, com temperaturas negativas por todo o país. "Enquanto não me deparar com estradas cobertas de gelo ou neve, vou continuar caminhando."

Como qualquer "maratonista", Kals também enfrenta problemas ligados ao esforço físico. Mas como a paraplegia o impede de sentir dores abaixo da cintura, ele não sente, por exemplo, quando está com bolhas nos pés.

"Após dezenas de anos em uma cadeira rolante, as sensações são inúmeras. Cada passo que dou, não farei novamente no futuro. Então aproveito cada instante, cada paisagem, cada encontro. Estou me sentindo livre", diz Kals. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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