Parece que a guerra contra a pandemia da covid-19 não acaba

Parece que a guerra contra a pandemia da covid-19 não acaba

Passado mais de um ano, Brasil está no epicentro mundial do novo coronavírus e tem hospitais sob pressão

Sergio Cimerman, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2021 | 05h00

Passado mais de um ano da pandemia, notamos nosso Brasil como epicentro mundial do novo coronavírus. Chega-se a esta triste constatação ao observarmos os dados epidemiológicos atualizados diariamente pela Universidade John Hopkins (EUA), que nos informa desde o número global de infectados até os óbitos de cada país.

Já ocupamos o 2º lugar em número de casos, correspondendo a quase 10% dos casos no mundo – somos superados apenas pelos americanos. A área demográfica da terra do Tio Sam é bem maior e a pandemia em muitos momentos foi muito dura em várias regiões até que a vacinação em massa se iniciou e os números caíram. Por aqui, já ultrapassamos os 3 mil mortos por dia, nos levando a mais de 300 mil vidas perdidas nesta guerra. Somos base de noticiário mundial e iremos colher frutos negativos por muito tempo.

A realização de testagem em massa neste momento seria uma ferramenta para isolar indivíduos assintomáticos e, assim, retirar do contato com as outras pessoas. Sabemos ser difícil esta proposta, porém, devemos ao menos empregar forças neste sentido. Um exemplo desta experiência é o que foi feito no futebol. Conseguiu realizar quase 90 mil testes em mais de 13 mil atletas. A transmissão não existiu intracampo, mas em situações de nosso cotidiano. Foi uma bela contribuição social.

O colapso hospitalar já se nota vivo entre nós tanto no campo público quanto privado com procura dos pacientes em situação de piora clínica. A variante circulante de Manaus pode ter colaborado para isto. Mais transmissível e cada vez mais agressiva. Levando a população mais jovem a internação mais demorada e muitos necessitando de terapia intensiva.

O uso de corticoide precoce pode ser um fator do agravo. Esta droga está muito bem empregada para casos hospitalizados e com resposta clínica favorável. Fazer em outra fase pode ser fator prejudicial como drogas não aprovadas para tratamento precoce sem evidências científicas até este momento. 

A Associação Médica Brasileira (AMB), esta semana, em conjunto com sociedades médico-científicas, faz excelente alerta e levanta a discussão no campo da ciência. Precisamos parabenizar e divulgar esta carta a toda a população. A importância em não se fazer nada sem embasamento científico fica muito clara quando já podemos observar casos de pacientes que caminham ao transplante hepático decorrente do uso indiscriminado de ivermectina. 

Estrangulamos todo sistema: falta de oxigênio, falta de medicamentos para intubação, UTIs lotadas e que chegam a 100% de ocupação. Hospitais privados abrindo áreas novas e contratando profissionais para assumirem a alta demanda que impera no Brasil. O cansaço dos profissionais de saúde se nota claramente, muitos deles já em estado de burnout, tendo a necessidade de afastamento das atividades. Parece que a guerra não acaba. 

Se não bastasse tudo isso, nossa vacinação ainda está muito morosa. Não por falta de capacidade de logística, mas por falta dos imunizantes. Caso tivéssemos as vacinas, o processo seria todo agilizado pela experiência que detemos neste quesito. Espero que o pronunciamento do presidente seja uma verdade: “este ano será o da vacinação dos brasileiros”.

Com a entrada do novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, já se nota o uso da máscara em alguns locais por parte de nosso mandatário. Espero acreditar que possa dar exemplo a nossa população. Em conversa com alguns colegas médicos, eles nos afirmam que o novo ministro irá focar na ciência e na vida dos brasileiros. Espero que não assistamos a mais um enterro de ministro.

Outro dado importante: vacina da influenza. Vamos iniciar a campanha nacional a partir de 12 de abril pelo Programa Nacional de Imunização (PNI) com atenção aos grupos prioritários determinados pelo Ministério da Saúde. A população tem de ser imunizada especialmente neste momento de pandemia.

Uma informação importante: devemos ter intervalo de 14 dias para ser administrada esta vacina em quem já fez uso da vacina de covid-19, independentemente de qualquer fabricante (Butantan ou Fiocruz). A necessidade incorre também em não termos infecções co-adjuntadas e, assim, aumentar a gravidade do quadro clínico do paciente.

Uma sugestão: tomar primeiro a vacina de covid-19 e, depois, a de influenza. Claro que se pela faixa etária ou grupo prioritário o indivíduo estiver longe ainda da vacina de covid-19, que não perca a oportunidade de vacinar o mais rápido possível para influenza. Em clínicas privadas, já existem doses de influenza que podem ser aplicadas.  Finalmente, uma dúvida paira no ar: teremos insumos para as duas campanhas? Creio que sim. O governo, sabedor disto, deve ter provido recursos para a aquisição. O tempo irá nos dizer.

É COORDENADOR CIENTÍFICO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA E MÉDICO DO INSTITUTO DE INFECTOLOGIA EMILIO RIBAS

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