Taba Benedicto/Estadão
Renata Paggioli e Ronaldo Buissa, pais de Heitor, de 5 anos: respeito ao funcionamento do cérebro infantil na criação  Taba Benedicto/Estadão

Renata Paggioli e Ronaldo Buissa, pais de Heitor, de 5 anos: respeito ao funcionamento do cérebro infantil na criação  Taba Benedicto/Estadão

Parentalidade gentil: o que é e quais os benefícios para as crianças

Em vez de ameaças, violência ou castigos, método educativo prega respeitar as etapas de desenvolvimento infantil e acolher o choro

Kátia Arima , Especial para o Estadão

Atualizado

Renata Paggioli e Ronaldo Buissa, pais de Heitor, de 5 anos: respeito ao funcionamento do cérebro infantil na criação  Taba Benedicto/Estadão

Respeitar as etapas de desenvolvimento da criança, acolher seu choro e suas necessidades e tratá-la com respeito, sem ameaças, tapas e gritos, deveria ser um padrão na sociedade. Mas está longe de ser, segundo especialistas em parentalidade gentil. “A educação no Brasil não é respeitosa. Na verdade, a infância é tratada com violência na maioria das culturas no mundo”, diz Nanda Perim, psicóloga e educadora parental, autora do livro Educar Sem Pirar. Isso tem consequências na saúde mental e no relacionamento com outras pessoas. “No longo prazo, essa pessoa vai tentar tapar o buraco por não se sentir amada ou valorizada.”

Para os especialistas, há uma crença arraigada de que a palmada educa. “A justificativa para a violência é que bater vai tornar a criança um adulto melhor, quando, na verdade, é o contrário”, explica Nanda. A palmada pode afetar o desenvolvimento do cérebro da criança de forma semelhante a outras violências, concluiu estudo da Universidade Harvard, nos EUA, divulgado em abril de 2021.

De acordo com os autores do estudo, o castigo corporal tem sido associado ao desenvolvimento de problemas de saúde mental, ansiedade, depressão, problemas comportamentais e transtornos por uso de substâncias. Porém, a relação entre a palmada e a atividade cerebral ainda não havia sido estudada e a pesquisa reforça a importância de inibir esse tipo de tratamento dado às crianças. 

Atualmente, 63 países proíbem punição física a crianças em qualquer ambiente, segundo a End Corporal Punishment, iniciativa que agrupa globalmente mais de 500 integrantes – empresas, instituições e governos – para o fim da violência contra crianças. No Brasil, castigar fisicamente ou dar tratamento cruel ou degradante a uma criança ou adolescente é crime, de acordo com a Lei Menino Bernardo, a “lei da palmada”, aprovada em 2014.

Os pais educam de forma violenta, porque é essa referência que eles conhecem, explica a psicanalista e educadora parental Elisama Santos, autora dos livros Educação Não Violenta e Por Que Gritamos. Romper esse ciclo é difícil porque questionar esse padrão leva a refletir sobre as violências já sofridas. “Isso pode doer bastante.”

Quando uma criança ou adolescente tem um comportamento desafiador, Elisama recomenda que os pais ou cuidadores tentem entender o que está sendo comunicado. “Se percebo que a criança não consegue se expressar, devo ajudá-la a entender o que ela sente e a lidar de outra forma com o problema.” Para isso, o adulto deve sair da dinâmica de exercício de poder e assumir sua responsabilidade perante a criança. “É preciso enxergar a criança como um ser humano, não como um robô que precisa me atender de forma imediata.” 

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A justificativa para a violência é que bater vai tornar a criança um adulto melhor, quando, na verdade, é o contrário
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Nanda Perim, psicóloga

Os temidos ataques de “birra”, por exemplo, fazem parte do desenvolvimento da criança, que ainda tem dificuldade de lidar com frustrações, conta Elisama. “Gritar, reclamar, chorar depois de ouvir um ‘não’ faz parte da formação. O que não faz parte é um adulto que, em vez de conversar e ajudar a criança a lidar com suas emoções, se comporte de forma infantil e comece a gritar e bater porque tem mais poder.” Segundo ela, a educação tradicional não ensinou pais e cuidadores a lidar com as próprias emoções. “Por isso, descarregam as dores nas crianças.”

Conhecendo as próprias emoções

A educação respeitosa permite à criança mais conhecimento sobre si mesma, ensina Elisama. “Na educação tradicional, ela não pode dizer não e, por isso, apenas obedece. Não olha para as próprias emoções.” Além de se conhecer, tem melhor relação interpessoal, pois comunica limites e é atenta ao sentimento do outro. A educação respeitosa também abre espaço para que as crianças cresçam conscientes da própria potência. “Elas não são apenas pessoas que obedecem e sabem que são importantes na comunidade.”

Mãe de Miguel, de 8 anos, e Helena, de 6, Elisama afirma já ver os frutos da criação respeitosa dos filhos. “Eles conhecem suas emoções e são assertivos na hora de comunicar o que precisam.” Ela conta um episódio em que Miguel ficou bravo na escola, aos 4 anos. Ele se deitou na grama e ficou olhando para o céu. Disse à professora que isso o ajudaria a se acalmar. “Ele não bateu, não tratou mal ninguém. É a prova do quanto reconhecer e nomear as nossas emoções nos ajuda.”

A visão de Elisama é compartilhada pela farmacêutica Renata Paggioli, de 44 anos, mãe de Heitor, de 5. Ainda na gravidez já sabia que não educaria o filho com castigos e recompensas. “A educação tradicional me deixou marcas emocionais e não queria que isso se repetisse.”

Quando Heitor nasceu, porém, ela não sabia o que fazer diante do choro incessante do bebê. “Ele ficava várias horas chorando e eu chorava junto”, conta. Renata começou a fazer psicoterapia e a devorar conteúdo sobre parentalidade gentil. Abandonar o filho no berço, chorando, ou realizar “treinos de sono” estavam fora de cogitação. “Nada resolvia os meus problemas. Eu estava no limbo.”

O que salvou Renata foi a metodologia Hand in Hand Parenting, que leva em consideração o funcionamento do cérebro infantil para estabelecer conexão entre adulto e criança, e que valoriza o choro e a gargalhada como processos de alívio emocional. “As pessoas têm medo do choro, pois o veem como sofrimento. Mas ele existe para depurar um sentimento difícil.”

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“As pessoas têm medo do choro, pois o veem como sofrimento. Mas ele existe para depurar um sentimento difícil
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Renata Paggioli, mãe do Heitor, de 5 anos

Esse exercício de expelir o “cocô emocional” – termo usado pelos praticantes do Hand in Hand – vale tanto para adultos quanto para os pequenos. A metodologia inclui um processo de troca de escuta entre cuidadores, que permite “soltar os cachorros”, enquanto a outra pessoa escuta sem julgar ou dar opinião.

“Essa parceria de escuta foi um divisor de águas, pois nesse momento eu dou os meus chiliques e deixo o meu pacote emocional lá.” Quando criança, Renata tinha o seu choro reprimido. “Eu escutava a frase ‘engole o choro’ e isso foi ruim para mim, pois carrego até hoje emoções que não foram processadas.”

Quando a criança chora, deve ter seu choro acolhido até que se acalme, orienta a pedagoga Vanessa Galvani, instrutora do Hand in Hand Parenting. “Caso contrário, representa um abandono emocional. A criança entende que ninguém vai ficar com ela quando ela estiver mal. Sem construir essa conexão, quando se tornar adolescente estará distante dos pais.” 

Para que o adulto consiga acolher o choro da criança, ele precisa ser acolhido. “Ele tem de olhar para a sua caixinha da infância e liberar as tensões. Senão, só vai conseguir gritar diante do choro da criança.”

Ao contrário do que muitos pensam, a criança que tem liberdade para chorar não se tornará mais fraca, declara Vanessa. “Elas vão aprender a se regular emocionalmente e saberão processar seus sentimentos, encarar os problemas do mundo e voltarem mais fortes. Serão adultos resilientes.”

Dormir com os pais e as origens na evolução humana

Desde 2015, a psicóloga Márcia Tosin está empenhada em conquistar mais adeptos ao Movimento Neurocompatível, que leva em consideração na educação infantil a adaptação do sistema nervoso na história evolutiva da nossa espécie. “A criança apresenta mecanismos biológicos que têm sua razão de existir. São etapas de desenvolvimento universais, presentes em crianças de todo o mundo.” 

É comum que uma criança queira dormir com os pais ou que tenha medo de escuro, por exemplo, já que esse comportamento protegia as crianças de predadores e outros perigos. “A ação dos pais sobre alguns desses comportamentos pode ser irrelevante, já que são dispositivos complexos e antigos que foram constituídos para a nossa sobrevivência. Mas há quem venda cursos, livros e soluções para tentar resolver um problema que evolutivamente não é um problema.” 

A psicóloga acredita que a maioria das pessoas hoje não sabe muito sobre desenvolvimento infantil porque as crianças participam pouco da sociedade e os adultos não têm a oportunidade de notá-las. “As pessoas estão em suas carreiras e, de repente, se veem diante da birra de um filho, estressados, por nunca terem passado por essa experiência”, observa. 

Consciente de que há um ritmo natural de desenvolvimento e que cada criança tem seu tempo para atingir seus marcos, como desmame, desfralde e aprendizagem da leitura e da escrita, o adulto deve abrir mão do controle. “A principal estratégia evolutiva que os humanos usam para se desenvolver é a imitação. A função dos pais é enriquecer esse ambiente e perceber os desenvolvimentos atípicos e, nesses casos, buscar ajuda. A maioria das crianças se desenvolverá bem se receber um ambiente amoroso e estimulante”, admite Márcia. 

Segundo ela, essa é uma quebra de paradigma que choca a sociedade porque ainda vemos a criança como alguém que recebe passivamente o conhecimento do adulto.

Adepta da criação neurocompatível, a policial civil Simone Torres, de 45 anos, mãe de Davi, de 4, costuma receber críticas. “Há quem diga que não coloco limites ou que mimo demais o meu filho. Mas o que importa é que eu seja coerente com os meus princípios.” No dia a dia, Simone não cobra de Davi uma maturidade que não seja compatível com a sua fase. “Se a gente quer dormir junto com ele, a gente dorme. Qual é o problema? Meu marido e eu temos outros momentos para ficarmos juntos, não precisa ser na hora do sono.” 

A comunicadora Priscila Inserra também divide a cama com a filha Clarisse, de 6 anos. Com a filha mais velha, Gabriela, hoje com 15 anos, ela tinha de se levantar da cama para atendê-la no berço, mas percebia que a filha dormia melhor com ela. “Só tenho elogios para a cama compartilhada, que não faz mal à criança, pelo contrário. O apego deixa as crianças mais seguras”, defende. Para ela, permitir que a própria criança guie o seu desmame e o seu desfralde faz parte do respeito ao desenvolvimento infantil. “Digo sempre para a Clarisse que o ‘mamá’ é meu. Ela tem de pedir para mamar e respeitar quando eu estiver cansada. Assim, ensino sobre limites.”

Desde 2006, quando engravidou de Gabriela, Priscila busca praticar a criação gentil. No início, teve dificuldades de abrir mão do autoritarismo e reproduzia falas que aprendeu. “Percebi isso quando minha filha falou que estava com medo de mim.” Dez anos depois, grávida de Clarisse, resolveu se dedicar profissionalmente à causa. 

Desde 2016, promove workshops e encontros parentais. Em 2020, organizou um evento online de 10 dias, com 52 palestrantes e mais de 3 mil participantes. “É um tema em voga, com muitos interessados. Se não é pelo respeito à criança, é pelo mercado de trabalho, que busca um profissional com características emocionais que são obtidas pela educação gentil e empática.”

Conexão com o corpo

Uma educação respeitosa tem como um dos pilares o respeito aos processos fisiológicos da criança no parto, na amamentação, na alimentação, no sono e no desfralde, diz a nefrologista pediátrica Luiza Ghizoni. “Quando uma família força uma criança a raspar o prato na refeição, está desconectando a criança do seu corpo, já que ela vai perder a sua noção de saciedade.” 

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Quando uma família força uma criança a raspar o prato na refeição, está desconectando a criança do seu corpo, já que ela vai perder a sua noção de saciedade
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Luiza Ghizoni, pediatra

Segundo a pediatra, entre as etapas do desenvolvimento, a mais desrespeitada é o desfralde. “A sociedade entende que precisa intervir no desfralde, não confia na sabedoria do corpo da criança. E a consequência é a maior propensão a ter mau funcionamento da bexiga e do intestino. Vejo no meu consultório uma ‘epidemia’ de crianças com dificuldade de controlar excreções.”

Assim como há etapas a cumprir antes de andar, como sentar e engatinhar, o desfralde também inclui estágios anteriores, relacionados ao desenvolvimento motor, cognitivo e emocional. “O processo de desfralde deve ser conduzido pela criança, sem intervenção do adulto, que deve deixá-la de fralda até que ela não queira mais. Não precisa estimular ou premiar”, esclarece Luiza.

A engenheira e empresária Flavia Ramos Tenreiro, de 35 anos, conta que seus filhos Thomás, de 6, e Melina, de 3, guiaram o próprio desfralde. Da mesma forma, buscou uma solução gentil para o desmame: Melina ainda mama e Thomás deixou de mamar aos 5 anos. “A amamentação não é só alimento. É vínculo, carinho, segurança. Por isso, respeito o tempo deles.” 

As dificuldades de seguir a educação respeitosa surgem quando Flavia precisa sair da sua “bolha caseira”. “É muito difícil escolher escola, pediatra ou dentista que sejam respeitosos”, afirma. Flavia conta que uma vez recebeu um papel de um pediatra com a recomendação de não pegar o filho no colo para não ficar mal-acostumado. “Há muitos obstáculos para quem quer praticar a educação respeitosa. Mas assim eles vão saber se respeitar e respeitar o próximo.”

A sobrecarga dos cuidadores (geralmente as mães) é um empecilho à educação respeitosa, na visão de Flavia. “Quando uma mãe não tem com quem dividir a carga, vai falhar mais, pois está no seu limite. Na pandemia, sem rede de apoio, isso ficou nítido na nossa família.”

A psicanalista e educadora parental Thais Basile, autora do livro Nossa Infância, Nossos Filhos, reforça a observação de Flavia. “Muitas mães trabalham formalmente e ainda têm a responsabilidade pelo trabalho doméstico e pelas crianças. E para dar conta, a criança é silenciada”, avalia. Segundo ela, para piorar, há muitos homens que acham que usar o diálogo na criação é “mimar” e “criar crianças fracas” – e demandam que as mães sejam mais rígidas com os filhos.

“Essa responsabilidade não pode ser individualizada. O Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, coloca a sociedade e o Estado como responsáveis pela proteção das crianças e seu desenvolvimento saudável. São os adultos, as instituições e as estruturas que precisam mudar”, acrescenta.

COMO PRATICAR A EDUCAÇÃO RESPEITOSA

  • Encare a criança ou o jovem como uma pessoa que merece respeito. Portanto, nada de palmadas, ameaças, castigos, chantagem e violência psicológica, mesmo que sutil.
  • Lembre-se de que o adulto é você, que deve buscar manter a paciência e o autocontrole mesmo em situações desafiadoras. Caso esteja a ponto de “explodir”, avise a criança que vai se distanciar e saia de perto para gerenciar as suas emoções.
  • Acolha o choro: é esperado que as crianças chorem ou façam “birra”. Ajude a criança a reconhecer os próprios sentimentos e a buscar uma solução para a sua necessidade que não seja violenta.
  • Dialogue: ouça a criança com atenção e comunique-se com clareza, numa linguagem compatível com a idade da criança ou do jovem.
  • Busque a conexão com a criança por meio da brincadeiras ou momentos de diversão.
  • Não minta, para que não haja quebra de confiança.
  • Conheça os marcos de desenvolvimento infantil e entenda que cada criança tem o seu ritmo.
  • Perceba que por trás de um comportamento desafiador de uma criança há uma necessidade mal comunicada.
  • Cuide de si: é preciso estar bem consigo para acolher a criança. Lembre-se de que essa é uma oportunidade para curar as feridas das violências sofridas em sua própria infância. 
  • Reconheça as suas falhas e tropeços. Mostrar-se humano para as crianças ajuda a aproximar-se delas.
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