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Passado e futuro

Quando olharmos para o passado ao fazer planos, este ano de 2020 sempre estará lá

Daniel Martins de Barros*, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2020 | 05h00

Ao nos aproximarmos de janeiro sempre me lembro do deus Janus da mitologia romana (ele não constava na mitologia grega), que emprestou seu nome ao mês. Era o deus dos portais, das pontes, das passagens em geral, concretas ou abstratas. Era, por conseguinte, o deus das mudanças e dos começos. Só por isso já acho a sua figura fascinante, ao nos lembrar que passar de um lugar para outro, de uma condição para outra, de um tempo para o outro, estamos experimentando mudanças, mas também novos começos.

Nas esculturas e pinturas, Janus era representado tendo duas faces em sua cabeça, uma olhando para frente, contemplando o futuro, e outra olhando para trás, mirando o passado. O que faz todo sentido nas passagens, mudanças e recomeços: é preciso compreender de onde viemos, o que fizemos, como chegamos até ali, para poder seguir em frente com objetivos e direções.

Imagino o trabalho que esse deus teria em 2020. Nossa geração talvez nunca tenha precisado com tanta intensidade dar sentido e tirar lições dos acontecimentos pregressos nem necessitado tão desesperadamente antever caminhos e traçar rotas para o futuro.

As lições deste ano são tantas que é impossível reunir todas em um só lugar – precisaríamos (ou precisaremos) escrever livros de imunologia, infectologia, epidemiologia, mas também de sociologia, ciência política, psicologia, marketing, se quisermos compreender o passado tão recente. O que por si só já é um grande aprendizado: em seu desejo de conhecer as coisas da forma mais profunda possível a humanidade produziu superespecialistas que dominam absolutamente suas áreas, mas que isolados podem muito pouco diante dos problemas reais de um mundo complexo. Não basta saber tudo sobre o comportamento do vírus se ignorarmos o comportamento humano. O desenvolvimento de vacinas seguras e eficazes será inútil sem o desenvolvimento paralelo de formas de fazê-las chegar até as pessoas e meios eficazes de persuadi-las a tomar a injeção.

Contemplando esse passado observamos que os maiores avanços neste ano ocorreram quando a interdisciplinaridade foi mais do que uma ideia teórica. Isso nos aponta um importante caminho para o futuro, no qual essa interdisciplinaridade será tão importante quanto o conhecimento profundo. Não sei o quanto é factível formar sujeitos ao mesmo tempo superespecializados em algo e ainda assim capazes de articular esse conhecimento com outras áreas – mas o fato é que alguém precisa fazê-lo. Paradoxalmente, talvez precisemos de outros especialistas, preparados para reunir pesquisadores de diferentes campos e articulá-los com políticos, tomadores de decisão e, em última análise, com a sociedade em geral.

Esse exercício de olhar para trás é essencial porque há erros que só notamos retrospectivamente. Vejamos a grande lição do Reino Unido. Há anos eles se preparam para uma pandemia, reunindo dados, produzindo estudos, financiando pesquisas, tudo para saber a melhor forma de lidar com a eclosão da próxima pandemia. De influenza. Em retrospecto, grande parte dos erros que cometeram no início da pandemia da covid-19 – política à parte – foi por tentar aplicar nesse contexto protocolos pensados para outra doença. Agora é fácil falar, claro. Não devemos julgar uma decisão por seus resultados, mas apenas pelo conhecimento que estava disponível no momento que ela foi tomada (E no início do ano se acreditava que a covid-19 seria parecida com a influenza, o que só com o tempo se mostrou um equívoco). No entanto, os resultados – bons ou ruins – aumentam o conhecimento disponível para as próximas decisões que viermos a tomar. E é bom termos aprendido que: 1) nem todas as doenças virais transmitidas pelo ar são iguais; 2) diante de situações novas, seguir rigidamente protocolos antigos pode trazer mais ameaça do que segurança. 

Em poucos dias estaremos em 2021 e creio que ele será um ano melhor. Mas em vários sentidos 2020 será o ano que nunca terminará. Como Janus, quando olharmos para o passado ao fazer nossos planos, este ano sempre estará lá, visível, com suas infindáveis lições para quem quiser forjar um futuro melhor. 

*É PROFESSOR COLABORADOR DO DEPARTAMENTO E INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (FMUSP) 

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