Mitchell Walters/University of Chicago/Divulgação
Mitchell Walters/University of Chicago/Divulgação

Pássaros australianos atraem fêmeas com 'efeito de filme de terror'

Aves sexualmente promíscuas cantam para chamar parceiras cada vez que ouvem os predadores

estadão.com.br

18 Janeiro 2011 | 18h28

Usar um filme de terror para trazer sua namorada para perto de você é uma atitude clássica na cartilha dos adolescentes. Agora, um estudo sobre aves australianas revela que outros animais usam o mesmo "efeito de filme de terror" para atrair a atenção do sexo feminino, emitindo sinais de acasalamento junto com os sons de predadores.

Os machos do gênero Malurus, um pequeno pássaro nativo da Austrália e sexualmente promíscuo, são conhecidos por cantar uma música especial para chamar as fêmeas cada vez que ouvem o apelo de seus predadores, as gralhas do gênero Cracticus. Um novo estudo de cientistas da Universidade de Chicago, nos EUA, considera que esse comportamento aparentemente perigoso - por sinalizar aos predadores a localização dos machos - serve como um convite para potenciais parceiras, ou seja, um flerte com medo.

Publicado na revista Behavioral Ecology, o trabalho envolveu uma cuidadosa pesquisa de campo que reproduziu sons para Malurus em um centro de conservação no sul da Austrália. Os experimentos determinaram que a "carona vocal" dos pássaros é um comportamento de galanteio que utiliza o anúncio dos predadores para atrair a atenção das aves do sexo feminino - isso porque é nessa hora que elas mais prestam atenção aos sons em volta.

"Nós mostramos que as fêmeas se tornam especialmente atentas após ouvir as chamadas das gralhas", afirma a PhD Emma Greig, principal autora e pesquisadora de pós-doutorado na Universidade Cornell, no Estado de Nova York. "Assim, parece que o macho canta quando sabe que terá um público atento e, com base na resposta do sexo feminino, a estratégia pode realmente funcionar", revela.

Esses pássaros são interessantes para os cientistas que estudam a evolução e os padrões de acasalamento, por sua singular estrutura social, diz o PhD Stephen Pruett-Jones, autor sênior do estudo e professor adjunto de ecologia e evolução. Enquanto as aves em geral são socialmente monogâmicas, formando pares que duram a vida toda, esse gênero é sexualmente promíscuo, acasalando-se predominantemente com as fêmeas que não são suas companheiras.

Depois de anos de observação e análise de Malurus e de seus parentes próximos, os cientistas notaram um emparelhamento único e consistente de sons entre eles e seus predadores. "O macho inicia sua canção imediatamente após a gralha anunciar sua presença, então os sons basicamente se sobrepõem, como em um dueto", conta Pruett-Jones.

Várias teorias tentam explicar por que esse gênero de aves, ao cantar, corre o risco de expor sua localização para um predador. Seria um grito de alarme para outro pássaro na área? Ou exibição de sua bravura e aptidão física para atrair as fêmeas? Ou ainda um meio eficaz de captar a atenção de outras espécies do sexo feminino nas redondezas?

Para realizar o trabalho, Greig usou diferentes combinações de músicas de seu iPod para machos e fêmeas Malurus em seu hábitat natural: uma canção territorial e o som de machos com e sem o apelo anterior do predador. Os experimentos descobriram que as fêmeas estavam mais atentas no segundo caso - olhando na direção da chamada e respondendo com suas próprias músicas.

Os resultados sugerem que os machos usam os sons do predador como um "sinal de alerta", destaca Pruett-Jones, semelhante ao modo como os humanos captam a atenção de outra pessoa, iniciando sua frase com "Ei!". Para as fêmeas, esse sinal pode conter informações sobre a localização de potenciais companheiros em territórios vizinhos e também pode empurrá-las para o acasalamento, diz Greig.

"A possibilidade mais interessante é que essas canções têm uma função sexual, e que as fêmeas ficam mais facilmente estimuladas ou receptivas depois de serem alertadas por um predador, de modo que a música do macho se torna especialmente atraente", afirma Greig.

A pesquisa atualmente em curso mede os atributos físicos e genéticos do macho e de seus descendentes, para ver se há uma conexão entre essa música especial e o sucesso do acasalamento. Mas, até agora, não foi encontrada nenhuma relação entre o comportamento e a saúde física das aves, o que sugere que as canções não são uma vantagem autoimposta para tornar os machos mais aptos e atraentes às fêmeas.

"Todos os machos, independentemente de idade, cor e outras medidas de 'qualidade', apresentaram as canções na mesma frequência, o que sugere que o canto depois do predador pode não ser um comportamento tão arriscado quanto se imagina", ressalta Greig. "Ao contrário, cantar nessa hora pode ser muito seguro: o macho sabe onde a ameaça está, e também sabe que o predador não está caçando ativamente naquele momento, mas anunciando sua chegada.

Greig está testando quão comum é o "efeito de filme de terror" em pássaros em geral. Apesar de apenas outros dois gêneros - Gerygone e Calocitta - exibirem comportamentos semelhantes, os pesquisadores acreditam que isso pode estar presente e ainda não detectado em várias espécies.

"Suspeitamos que isso pode ser mais comum do que se pensava. Definitivamente, é raro, mas os especialistas simplesmente não têm acompanhado outras espécies para fazer experimentos", finaliza Pruett-Jones.

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