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Pedalando

Caminhar e pedalar protegem contra o estresse – motoristas sozinhos são os mais estressados

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2022 | 05h00

Meu avô Otávio aparece com certa frequência em meus escritos. Foi para ele que dediquei meu primeiro livro e em várias ocasiões divido com os leitores algumas de suas lições e tiradas engraçadas. 

Depois de uma vida trabalhando com diversas atividades no comércio ele se estabeleceu como bicicleteiro. Sua oficina no bairro de Santana, na capital paulista, era um daqueles pequenos estabelecimentos tradicionais no País, em que improviso e amadorismo empresarial convivem com experiência e esmero técnico. 

Ao todo deve ter se dedicado um bom meio século à causa do ciclismo, montando, consertando, defendendo e divulgando os benefícios de se pedalar.

E o velhinho estava certo – as bicicletas vêm se demonstrando benéficas em diversos aspectos. Um modelo criado por cientistas da Nova Zelândia em 2014 estimou os resultados de as cidades gastarem dinheiro no fomento do ciclismo, levando em conta os fatores mais relevantes nessa modalidade de transporte: acidentes, atividade física, custo de combustíveis, poluição do ar e emissões de carbono.

Os investimentos, segundo os cálculos, seriam amplamente benéficos, trazendo um retorno de ao menos dez dólares para cada dólar gasto.

Quando colocamos a saúde mental e o bem-estar na conta, aí então fica difícil até de argumentar. Este ano foi publicada uma revisão sistemática da literatura científica, avaliando a associação entre esses parâmetros e o meio de deslocamento utilizado pelas pessoas no dia a dia. 

Como já se sabia, um fator muito ligado à qualidade de vida é a duração do trajeto: quanto mais tempo somos obrigados a gastar indo e voltando, pior nos sentimos. 

Caminhar ou ir de bicicleta mostraram-se fatores de proteção contra o estresse, sobretudo quando comparados ao deslocamento de carro – motoristas sozinhos em seus veículos são os mais estressados de todos. E trocar o carro pela bicicleta reduzia não só o risco de depressão, mas melhorava a saúde mental como um todo. 

Hoje em dia eu posso endossar pessoalmente o que essas pesquisas afirmam, já que há alguns meses tenho ido trabalhar uma vez por semana de bicicleta, complementando o trajeto com metrô e uma breve caminhada.

É sem dúvida o dia que me sinto mais bem-humorado na ida ao trabalho e na volta para casa. Tenho o privilégio de contar com ciclofaixa da porta de casa até o metrô e a sorte de haver um bicicletário na estação. 

Mas quanto mais facilitarmos assim a vida dos ciclistas, mais gente terá a chance de experimentar por si mesma os benefícios que o vô Otávio já defendia.

*É PROFESSOR COLABORADOR DO DEPARTAMENTO DE PSIQUIATRIA DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP 

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