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Pediatras dos EUA fazem novas recomendações para uso infantil de mídias digitais

Segundo a Academia Americana de Pediatria, o uso de tablets, videogames e internet por crianças não é nocivo em si, mas precisa de acompanhamento constante

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

23 Outubro 2016 | 04h00

A Academia Americana de Pediatria anunciou novas recomendações para o uso infantil de mídias digitais. De acordo com os pediatras, além de ficar atentos ao tempo que os filhos dedicam aos equipamentos digitais, os pais devem observar também quando, como e onde eles são utilizados.

Para crianças de dois a cinco anos, o uso de mídias digitais deve ser limitado a uma hora por dia e deve envolver programação de alta qualidade ou algo que os pais e filhos possam assistir ou se envolver juntos. Com a exceção dos softwares de conversas por vídeo, como o Skype, as mídias digitais devem ser evitadas por crianças com menos de 18 meses de idade.

"As mídias digitais se tornaram uma parte inevitável da infância para muitas crianças pequenas e as pesquisas têm foco em como isso afeta o desenvolvimento infantil", disse uma das autoras das novas recomendações, Jenny Radesky, da Universidade de Michigan (Estados Unidos).

"Sobre as crianças com mais de três anos, a pesquisa é sólida: programas educativos de alta qualidade podem ensinar a elas novas ideias", disse a pesquisadora. 

No entanto, segundo ela, abaixo dos três anos, as crianças têm cérebros imaturos e, por isso, têm dificuldade para transferir o que veem na tela para o conhecimento do mundo real. "Ainda não sabemos se a interatividade ajuda ou atrapalha esse processo", disse Jenny.

Segundo ela, a primeira infância é um momento de rápido desenvolvimento cerebral, quando a criança precisa de tempo para brincar, dormir, aprender a lidar com emoções e a construir relacionamentos. 

"A pesquisa sugere que o uso excessivo de mídias pode interferir nessas importantes atividades. Nossas recomendações destacam maneiras pelas quais as famílias e pediatras podem ajudar a gerenciar esse equilíbrio saudável", explicou.

Passar tempo demais utilizando mídias digitais da forma errada pode afetar a qualidade de sono, o desenvolvimento e a saúde física e mental da crianças, segundo a academia. "O uso pesado de mídias na pré-escola está associado a um pequeno, mas considerável, aumento no índice de massa corporal", diz a declaração.

A academia recomenda banir o uso de mídias digitais uma hora antes de ir dormir e desligar todos os aparelhos quando não estão em uso. Outra recomendação importante é impedir o acesso da criança às telas (de celulares, computadores, tablets e TVs) quando elas estão em seu quarto, durante as refeições e na hora de brincar com os pais.

O uso das mídias digitais como meio para acalmar as crianças deve ser evitado, segundo os autores, embora eles observem que elas podem ser úteis em algumas circunstâncias específicas como viagens em aviões ou procedimentos médicos. 

Segundo Jenny, banalizar o uso de mídias digitais para acalmar as crianças pode limitar sua capacidade de regular as próprias emoções. "Temos que ser realistas sobre a onipresença das mídias digitais. Elas estão se tornando uma parte da nossa cultura e da nossa vida cotidiana. Por isso, é ainda mais importante que os pais ajudem as crianças a entender a maneira saudável de utilizar essas mídias desde a mais tenra idade", disse Jenny.

Jenny dá alguns exemplos de como as mídias digitais podem ser usadas como uma ferramenta de apoio à conexão entre os familiares: "falar no Skype com os avós, assistir vídeos de ciência juntos, colocar uma música na internet e dançar juntos, ver um filme em família à noite."

A interação dos adultos durante o uso de mídias pelas crianças é crucial, segundo a pediatra, para ajudar que as crianças menores apliquem no mundo em volta delas o que estão vendo nas telas. "Os estudos que fundamentaram as recomendações mostram que isso é essencial especialmente para as crianças mais novas, com idade de 18 a 36 meses", disse.

Os autores reconhecem que programas educativos bem produzidos, como a atração americana Vila Sésamo, podem ajudar a alfabetização e a interação social de crianças de três a cinco anos. Mas muitos programas que os pais acreditam estar na categoria "educacional" na realidade trazem pouca contribuição educativa.

Os autores também recomendam que os pais reduzam o seu próprio tempo colados às telas. O uso intensivo de aparelhos celulares está associado a uma menor interação verbal e não-verbal entre pais e filhos e pode estar associado a mais conflitos entre eles.

Os pediatras também são encorajados, nas recomendações, a se tornarem "mentores de mídia", ensinando como escolher bons conteúdos digitais. "Os médicos têm a oportunidade de educar as famílias sobre o desenvolvimento do cérebro e guiar os pais na escolha de produtos e fontes de qualidade", diz a declaração.

Veja a seguir as principais recomendações

Crianças de zero a cinco anos:

- Evite o uso de mídias digitais (com exceção de conversas por vídeo) por crianças com menos de dois anos.

- Se a mídia digital for introduzida para crianças entre 18 meses e dois anos, escolha programação de alta qualidade e use a mídia junto com a criança. Evite que a criança use mídias digitais sozinhas.

- Não se sentir pressionado a introduzir tecnologias precocemente. As interfaces são tão intuitivas que as crianças vão aprender a usá-las rapidamente assim que tiverem contato.

- Para crianças de dois a cinco anos, limite o uso de telas a uma hora por dia, com programação de alta qualidade. Assista a programação junto ao seu filho e ajude-o a entender o que está vendo.

- Evite programas com ritmo rápido e jogos com conteúdo que leve à distração ou que seja violento.

- Desligue sempre as TVs e outros aparelhos quando não estiverem em uso.

- Evite usar as mídias digitais como a única forma para acalmar seu filho. Isso pode levar a problemas com o estabelecimento de limites e a capacidade para se acalmar sozinho e para regular as emoções.

- Teste os jogos antes de deixar as crianças usá-los. E sempre jogue junto com elas.

- Mantenha as crianças sem acesso a telas nos quartos, na hora das refeições e na hora de brincar com os pais. Os próprios pais devem deixar seus celulares de lado nessas horas e lugares.

- Estabeleça uma regra: nada de telas uma hora antes de ir para a cama.

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