Athit Perawongmetha/Reuters
Athit Perawongmetha/Reuters

Peguei o coronavírus: por enquanto, não é tão mau

Homem de 70 anos relata como foi contrair o vírus no cruzeiro Diamond Princess, que ficou em quarentena no litoral por 14 dias

Carl Goldman, Washington Post

02 de março de 2020 | 20h47

Peguei o coronavírus. E não tem sido tão mau assim. Estou chegando perto dos 70 anos, e a vez em que fiquei mais doente foi quando tive bronquite, muitos anos atrás. Naquela ocasião, fiquei de cama alguns dias. Dessa vez é muito mais fácil: nada de calafrios nem dores de corpo. Respiro com facilidade e não estou com o nariz entupido. Sinto o peito apertado, e tenho acessos de tosse. Se estivesse em casa com sintomas semelhantes, eu provavelmente iria ao trabalho como sempre.

Contraí o vírus no Diamond Princess, o cruzeiro que ficou em quarentena no litoral de Yokohama por 14 dias, ao fim de uma viagem de 16 dias que fiz com minha mulher, Jeri. Quando deixei o navio duas semanas atrás, sentia-me bem. Verificamos a temperatura do corpo durante a quarentena. Jeri e eu cedemos uma amostra de tecido para testar a presença do vírus. Não tínhamos febre; o resultado do exame ficaria pronto em 48 horas. O resultado do teste não tinha chegado quando embarcamos nos ônibus que nos levariam ao aeroporto, onde dois aviões do governo americano nos esperavam.

Quando decolamos de Tóquio, eu estava com tosse, mas pensei que fosse efeito do ar seco da cabine. Sentia-me cansado - mas, na nossa situação, quem não se sentiria assim? Cochilei.

Quando acordei, estava com febre. Fui até o fundo do navio de carga, onde a força aérea tinha preparado um cordão de isolamento feito com telas plásticas. Mediram minha temperatura. O termômetro marcou 39,5˚C. Assim, sentei-me na área isolada e adormeci até o pouso na Califórnia, na Base Aérea Travis.

Funcionários do Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) embarcaram no avião e disseram que três de nós, isolados, seriam levados a Omaha (com os cônjuges, se eles assim desejassem). O CDC tinha uma ala de isolamento no hospital da Universidade de Nebraska. Chegamos no dia 17 de fevereiro, recebidos por uma frota de ambulâncias e carros de polícia. As autoridades me colocaram em uma maca e me levaram até uma van, resultando em uma cena muito dramática. Apesar de cansado, poderia andar com facilidade.

No campus do hospital, fui colocado em uma unidade de contenção biológica. O espaço era vedado, com janelas duplas que davam para um salão, e uma porta grande e pesada. Duas câmeras me observavam o tempo todo; havia um conjunto de monitores de computador equipados com microfones, permitindo que eu e a equipe médica nos comunicássemos com funcionários do CDC no comando central, no salão. 

A sala foi usada pela última vez durante a epidemia de Ebola em 2013.

Médicos e enfermeiros analisaram o caso comigo e fizeram uma série de exames laboratoriais. Usavam roupas pesadas de proteção biológica vedadas com fita adesiva e equipadas com um motor para facilitar a circulação do ar. Parecia algo saído de “O Enigma de Andrômeda”. Quando vieram os resultados do teste, algumas horas mais tarde, não fiquei surpreso em saber que tinha o coronavírus. Posteriormente, o resultado do exame de Tóquio confirmou o resultado - contraí o vírus antes mesmo de deixar o navio.

Não fiquei muito assustado. Sabia que não tinha saída agora. Ao que parecia, eles me submeteriam a uma quarentena de pelo menos 14 dias mesmo se eu não estivesse com o vírus. Tantos passageiros da viagem tinham ficado doentes, entre eles um de meus amigos, que eu já estava mais ou menos acostumado à ideia de adoecer também. Mas o resultado do exame da minha mulher indicou que ela não estava com o vírus, e ela foi conduzida a uma quarentena em uma instalação diferente, a alguns quarteirões de distância. Depois de tantos dias juntos no navio, acho que os dois gostaram de passar algum tempo sozinhos; mantivemos a comunicação pelo celular.

Durante os primeiros dias, a equipe do hospital me manteve com o acesso intravenoso, mais como forma de precaução, usando-o para me dar magnésio e potássio, apenas para me garantir um suprimento de vitaminas. Fora isso, o tratamento consistiu em litros e litros de uma bebida que parecia Gatorade - e, quando a febre passou um pouco dos 37,7˚C, recebi um pouco de ibuprofeno. A enfermagem entrava no quarto de hora em hora, verificando meus sinais vitais, perguntando se eu precisava de algo e recolhendo amostras de sangue.

Aprendi a desligar todos os monitores que verificavam o oxigênio, pressão sanguínea e ritmo cardíaco para poder ir ao banheiro ou simplesmente andar um pouco pelo quarto, para manter o sangue fluindo. Mas nunca aprendi a ligar esses monitores novamente sem fazer uma bagunça com os fios. Depois de 10 dias, saí da contenção biológica e fui transferido à instalação onde estava Jeri. Agora podemos trocar mensagens de vídeo cada um em sua quarentena, em quartos vizinhos.

Em relação ao meu exame mais recente, na quinta feira, o resultado ainda deu positivo para o vírus. Mas, a essa altura, não preciso mais de muita atenção médica. A enfermagem verifica se tenho febre duas vezes ao dia e recolhe amostras de sangue, pois concordei em participar de um estudo clínico que busca um tratamento para o coronavírus. Se o resultado do teste der negativo por três dias seguidos, serei liberado.

O tempo passou mais rapidamente do que eu esperava. Com o notebook, consigo trabalhar um pouco à distância. Retomo o contato com amigos. Caminho pelo quarto, tentando dar mil passos a mais por dia. Também assisto ao noticiário. É surreal ver todos em pânico - coletivas de imprensa, mercado de ações em queda, fechamento de escolas - por causa de uma doença que eu tenho. Parece provável que o coronavírus vai se espalhar pelos Estados Unidos, mas, se todos entrarem em pânico, a situação será ainda pior. Com base na minha experiência, recomendo a todos que consigam um bom termômetro digital, apenas para ficar com a consciência tranquila se o nariz começar a escorrer. Tive sorte, relativamente: pelo menos seis passageiros do Diamond Princess morreram por causa do vírus, dos cerca de 705 passageiros que o contraíram. Mas o coronavírus não precisa ser uma calamidade horrível.

Em janeiro, quando saí de casa, se alguém me dissesse que eu só voltaria em março - que passaria mais de 24 dias confinado por contrair um vírus novo no centro daquilo que pode se converter em uma pandemia - eu teria entrado em pânico. Mas, agora que isso está acontecendo, estou levando um dia por vez. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL


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