Bruno Kelly/Reuters
Bruno Kelly/Reuters

Pelo menos 1,1 milhão de crianças perderam um dos pais ou avós por causa da covid

Total sobe chega a 1,5 milhão durante os primeiros 14 meses da pandemia, se forem considerados cuidadores secundários; taxa em países como Brasil mostra que uma a cada 1 mil crianças foi afetada

Redaçao, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2021 | 05h00

A pandemia tem todos os tipos de efeitos, incluindo 1,1 milhão de crianças que perderam pelo menos um cuidador primário para a covid-19, seja um dos pais ou os avós responsáveis diretos por elas, de acordo com um estudo baseado em modelos e publicado nesta quarta-feira, 22, pela revista científica The Lancet.

O total sobe durante os primeiros 14 meses da pandemia e chega a 1,5 milhão de crianças, se forem considerados cuidadores secundários (avós e outros parentes, com idade entre 60 e 84 anos, vivendo na mesma casa e ajudando os pais), além dos cuidadores primários. O estudo, utilizando dados de 21 países, aponta que em lugares como Brasil, Peru, África do Sul, México, Colômbia, Irã, Estados Unidos, Argentina e Rússia, a taxa de mortalidade de cuidadores primários foi de pelo menos uma a cada 1 mil crianças.

Os autores observaram ainda que 1,13 milhão de crianças perderam um dos pais ou um avô de custódia devido a uma morte associada à covid-19. Destes, 1 milhão era órfão da mãe, do pai ou de ambos, embora a maioria tenha perdido um dos pais, e não ambos.

No total, 1,56 milhão de pessoas sofreram a morte de pelo menos um dos pais, avô de guarda, avô coabitante ou outro parente idoso que vivia com eles.

As mortes associadas à covid-19 foram, em todos os países, mais elevadas entre os homens do que entre as mulheres, especialmente nas faixas etárias médias e mais velhas. No total, houve cinco vezes mais perdas de pais do que de mães.

A análise utilizou dados de mortalidade e fertilidade para modelar as taxas de orfandade associadas ao coronavírus e as de custódia e coabitação de avós (60-84 anos), entre 1º de março de 2020 e 30 de abril deste ano. Para isso, eles utilizaram informações coletadas em 21 países, incluindo Brasil, Argentina, Colômbia, França, Alemanha, Quênia, Malawi, África do Sul, Espanha e EUA, que foram responsáveis por quase 77% das mortes por covid-19 no mundo inteiro, para extrapolar uma estimativa global mínima.

Os pesquisadores se referem a mortes associadas à doença, ou seja, a combinação das causadas diretamente pela covid e aquelas devidas a fatores como confinamento, restrições de reuniões e movimento, diminuição do acesso ou aceitação de cuidados de saúde e tratamento de enfermidades crônicas. 

Experiências traumáticas, tais como a perda de um pai ou cuidador, estão associadas ao aumento do uso de substâncias, saúde mental e outras condições crônicas de saúde e comportamento. "Estudos como este desempenham um papel crucial na iluminação das consequências duradouras da pandemia para as famílias e a futura saúde mental e bem-estar das crianças em todo o mundo", afirmou a diretora do Instituto Nacional sobre o Abuso de Drogas (Nida), uma das financiadoras do trabalho, Nora Volkow.

"Embora o trauma que uma criança sofre após a perda de um dos pais ou cuidador possa ser devastador, há intervenções baseadas em evidências que podem evitar consequências adversas, como o uso de substâncias. Devemos garantir que as crianças tenham acesso a elas", acrescentou Volkow, conforme citado pela Lancet. / AGÊNCIA EFE

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