TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

‘Pensávamos que o pior já tinha ficado para trás. Todo dia tem funcionário chorando no plantão’

Médico de hospital em Florianópolis narra a rotina na unidade diante do novo avanço da doença. ‘Estamos atendendo com 130% da capacidade’, ressalta o profissional

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2021 | 15h00

Depoimento de Luis Pires, médico, diretor técnico do Hospital Florianópolis, referência para tratamento da covid-19, que chegou a atingir 130% de lotação nesta semana

"Quando começou a pandemia, fui morar no apartamento da minha sogra para ficar isolado, e ela veio para minha casa ficar com minha esposa e as crianças. Permanecemos assim por alguns meses. A rotina desde o início foi bastante pesada, praticamente 24 horas atento, quando não no hospital, ligado no sobreaviso ou negociando transferências e insumos pelo telefone. Mas lá em março do ano passado, quando tudo começou, não esperávamos que iria durar tanto. 

Não aguentei ficar tanto tempo longe da família, acabei voltando para o apartamento. Tomamos todas as medidas de segurança para isso. Fui infectado em outubro do ano passado, e praticamente toda a equipe também foi contaminada. Depois do 'boom' de julho do ano passado, pensávamos que o pior já tinha ficado para trás, e aí veio essa nova onda e derrubou toda a equipe novamente. 

Tivemos casos de profissionais que não aguentaram a pressão e pediram afastamento, perdemos amigos... É uma coisa que nunca imaginei viver em 13 anos de Medicina. Todos os dias quando chego no hospital, tem funcionário chorando no plantão. 

Lá fora, familiares de pacientes esperando respostas, ou uma vaga de UTI, todos muito aflitos. Nós já não trabalhamos mais com expectativas, só atendemos os pacientes que estão lá fora morrendo. É o que tenho dito para a equipe todos os dias: não podemos pensar o que vai acontecer, tem paciente na fila e não tem com que se iludir, é colocar para dentro do hospital e atender. Hoje (domingo, 28 de fevereiro) estamos atendendo com 130% da nossa capacidade, com gente internada em poltronas aguardando leito.” /Depoimento a Fábio Bispo, especial para o Estadão

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