Dan Sala
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Pequena Lô leva representatividade para as redes ao fazer graça com o cotidiano

Nascida com uma síndrome ligada à displasia óssea, ela conquistou a internet com sua maneira divertida e sua determinação; ela ganhou o prêmio MIAW transforma PCD no MTV Miaw

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2022 | 16h15

Destacar-se fazendo humor não é tarefa fácil – ainda mais no Brasil, onde quase tudo vira piada. Para se destacar, é preciso ter um diferencial. No caso de Lorrane Silva, conhecida nas redes sociais como Pequena Lô, esse diferencial veio da sua facilidade de falar, de maneira divertida, sobre situações cotidianas com que qualquer um possa se identificar, e não apenas pessoas com deficiência física – grupo em que ela se encaixa por ter uma síndrome associada à displasia óssea

“Desde pequena dava para perceber que eu adorava ser filmada e fazer graça, era algo muito espontâneo. Eu decidi investir nisso”, conta. “Hoje, as pessoas me conhecem pelo que eu faço e não pela minha condição física. E é assim que tem de ser: a deficiência não tem de vir primeiro que a pessoa”, afirma ela, que ganhou esta semana o prêmio  MIAW Transforma PCD no MTV Miaw 2022.

Timidez e medo nunca foram palavras que combinaram com a psicóloga e criadora de conteúdo Lorrane Silva, a Pequena Lô. Desde criança, fazer palhaçadas e alegrar as pessoas ao seu redor também enchiam de alegria essa mineira, natural de Araxá. “Eu cresci vendo meu pai contar piada na roda de família e lembro de gostar muito daquilo. De ver as pessoas rindo, ficando feliz. Então eu sempre contava piada e histórias para os meus amigos e eles adoravam”, lembra.

Aos 19 anos, ela decidiu levar esse seu lado para as redes sociais e criou um canal no YouTube. “Eu fui muito insegura, porque ali com os meus amigos era algo espontâneo, não tinha um público, e eu era uma pessoa com uma condição física diferente, uma mulher no humor, que não é fácil, e não tinha referências de uma pessoa com deficiência que fizesse um trabalho assim.”

No mesmo ano, entrou na faculdade de Psicologia em Uberaba (MG) e foi morar com as amigas. “Passei a pegar ônibus sozinha, ir para o mercado, para a faculdade, fazer estágio. Então aprendi a ter uma independência grande. O que fez com que eu mudasse muita coisa internamente”, conta. Dentre elas, uma maior confiança em si mesma. 

“Quando eu falei que ia mudar, não tinha medo, mas meus familiares tinham. E eles falavam que eu não iria aguentar ficar lá, que iria voltar porque eu tinha limitação para fazer as coisas. Fiquei sete anos fora.”

CIRURGIAS NA INFÂNCIA

Lorraine nasceu com os membros encurtados em razão de uma síndrome não nomeada que tem relação com displasia óssea. Por conta disso, ela passou a ter dificuldades de andar e teve de passar por cinco cirurgias antes dos 11 anos para a reparação. Depois, ela começou a usar cadeira de rodas e muleta para se locomover.

Quando começou a fazer vídeos na internet, sua condição física estava presente no roteiro, com temas como bullying e preconceito – ainda que com um pouco de humor. Com o tempo, Pequena Lô entendeu que poderia falar sobre tudo e só a sua presença já era suficiente para mostrar inclusão e representatividade

“Eu sou importante para mostrar a importância que nós temos no mundo. As diferenças sempre vão existir, mas o respeito tem de prevalecer. Eu sou diferente de você, você é diferente do outro, mas a gente pode conviver em um mesmo local”, opina. 

Durante a pandemia, com a chegada do Tik Tok ao Brasil e o aumento da produções de vídeos para o Instagram, seus vídeos viralizaram fazendo com que ela chegasse aos 10 milhões de seguidores nessas redes. Os temas são variados, mas o estilo é sempre mantido.

“O que me trouxe até aqui foi meu jeito de ser, então eu mantenho o padrão da essência. Sou eu que gravo e eu que edito, porque se mudar, não vai estar sendo eu. E as pessoas me conheceram desse jeito”, diz ela, que tem como seguidores de crianças a idosos. 

PSICOLOGIA NO DIA A DIA

Embora ela não tenha consultório nem faça atendimentos, Pequena Lô diz que a psicologia está presente em seu dia a dia. “Eu uso para tudo: fazer um vídeo, conversar com os meus seguidores”, conta. E há limites para o humor? “Eu nunca tive em mente que, para ser engraçada, preciso ofender alguém. Acho que a gente tem de se olhar primeiro antes de falar do outro.”

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Hoje as pessoas me conhecem pelo que faço e não pela minha condição física. A deficiência não tem de vir primeiro
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Lorrane Silva, criadora de conteúdo

Apesar do grande número de fãs, Pequena Lô tem de lidar também com haters – algo muito comum nas redes sociais. Porém, graças a sua vivência, apoio dos pais e percepção sobre saúde mental, isso não a afeta. “Eles tentam achar um lugar que dói no outro. Só que quando a pessoa tem uma segurança dela mesma, a gente ignora, porque sabemos que o nosso caráter não é daquele jeito. E eles não conhecem a gente. Quinze segundos não são suficientes para isso. Então eu falo o seguinte: não gostou? Um beijo, amor. Porque é só o começo.” 

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