Amanda Perobelli/Reuters
Amanda Perobelli/Reuters

Pequenas cidades brasileiras que seguem a OMS têm poucos casos e óbitos por covid-19

Estudo mostra que seis municípios do interior, com medidas rigorosas e fiscalização, barraram a doença até setembro; algumas iniciativas poderiam ser replicadas em cidades maiores, dizem especialistas

Roberta Jansen, RIO

26 de abril de 2021 | 15h00

Logo que os primeiros casos de covid-19 foram registrados em São Paulo há mais de um ano, a prefeitura de Guanambi entrou em alerta. A diretora de Atenção Básica da cidade, Kelle Araújo, logo percebeu que seria uma tragédia se o coronavírus se espalhasse na comunidade. O município baiano, com menos de 100 mil habitantes, fica a mais de 700 quilômetros de Salvador, e tem poucos recursos médicos.

A solução, pensou Kelle, seria retardar ao máximo a entrada do Sars-CoV2 em Guanambi. E, quando isso acontecesse, tentar conter a disseminação do vírus na comunidade. A estratégia funcionou. Até a última sexta-feira, 23, a cidade havia registrado 6.180 casos e 61 óbitos por covid-19. Como Kelle, outros cinco gestores de pequenas cidades do Norte e do Nordeste do País fizeram o mesmo. Tiveram resultados igualmente positivos frente à realidade nacional.

Um estudo do Instituto de Estudos de Políticas em Saúde (IEPS) analisou a resposta à covid nesses seis pequenos municípios. Todos tiveram baixo número de casos e poucas mortes. A análise das estratégias adotadas por Tanhaçú (BA), Brotas de Macaúbas (BA), Santa Helena (PB), Cachoeira do Piriá (PA), Buriti (MA) e Guanambi, revelou que adotaram procedimentos semelhantes.

Municípios restringiram mobilidade e se empenharam para que medidas fossem cumpridas 

Todos recorreram a medidas preventivas de restrição de mobilidade, na contramão do que preconiza o governo federal. E, sobretudo, houve vontade política de que as medidas fossem respeitadas.

“Em meados do ano passado, decidimos acompanhar a situação nos municípios de pequeno e médio porte no Norte e no Nordeste que, naquele momento, eram as regiões mais afetadas pela pandemia”, contou a pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Gabriela Lotta, uma das autoras da nota técnica do IEPS.

Segundo a pesquisadora, logo ficou “muito evidente” que algumas cidades, com perfil muito parecido ao da maioria dos municípios daquelas regiões, tiveram resultados muito superiores às demais. Não registraram nenhum caso até setembro. Em alguns casos, mesmo em áreas em que havia alta incidência da doença. 

Os pesquisadores ficaram curiosos. Queriam entender por que naqueles municípios os resultados tinham sido tão superiores. Resolveram analisar as medidas adotadas naquelas cidades.

“Fizemos entrevistas com os gestores e logo ficou evidente que os seis municípios tinham adotado todas as medidas preconizadas pela OMS”, contou Gabriela. “Mas não foi só isso, porque outros municípios também adotaram essas medidas. Só que no caso deles, houve uma verdadeira vontade política de fazer com que elas realmente funcionassem.”

Um exemplo é a barreira sanitária. Alguns gestores apenas distribuíram folhetos educativos na entrada das cidades. Nesses seis casos, o empenho foi bem maior. Quem estava apenas de passagem era acompanhado. O objetivo era garantir que, de fato, não entraria na cidade.

A moradores que retornavam, não foi apenas recomendado isolamento de 14 dias. Cada um foi cadastrado. As autoridades fiscalizaram, para garantir que o isolamento era respeitado.

“Antes mesmo de os primeiros casos surgirem, tínhamos grupos de educadores nas ruas, orientando a população sobre as medidas de higiene e distribuindo máscaras”, contou Kelle Araújo. “Fizemos também muitas campanhas nas rádios.”

Quando os primeiros casos foram identificados, os pacientes foram isolados. Seus contatos foram rastreados e quarentenados. O atendimento a pessoas com sintomas gripais foi separado dos demais. Assim, tentavam conter a disseminação da doença. Eventualmente, as cidades adotaram medidas de lockdown. Elas foram devidamente negociadas com os comerciantes locais.

“A narrativa de todos os gestores foi similar”, contou Gabriela. “Eles sabiam que, se a situação saísse do controle, teriam muito pouca condição de enfrentar, por conta da capacidade hospitalar.”

Para especialistas ouvidos pelo Estado, em parte o sucesso é explicado pela dinâmica das cidades menores. No entanto, dizem, muitas medidas poderiam ter sido adotadas com sucesso por cidades maiores.

“Uma parte tem muito a ver com a dinâmica dos municípios pequenos que correspondem a 70% dos municípios brasileiros, como por exemplo, as barreiras sanitárias e o controle entre a comunidade”, disse Gabriela. “Mas várias outras medidas poderiam ter sido adotadas pelos municípios grandes como o trabalho com atenção primária, as estratégias de vigilância, maior isolamento social, fortalecimento dos profissionais da saúde e as políticas econômicas e sociais.”

Especialista em gestão de saúde da UFRJ, Chrystina Barros concorda com a colega.

“A densidade demográfica menor facilita o controle, claro”, disse. “A construção de parcerias e a quebra de resistência são mais fáceis em um ambiente menor, onde as pessoas se conhecem e acabam tendo mais empatia e consciência de saúde coletiva. Mas dá para ver claramente o quanto o investimento na atenção primária faz diferença”.

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