Lam Yik/Reuters
Lam Yik/Reuters

Percepção de risco e queda gradual no uso da máscara; leia análise

O problema é que a pandemia não acabou e, olhando para China e Europa, uma nova onda pode vir por aí

Daniel Martins de Barros*, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2022 | 19h14

Se de uma hora para outra os guardas de trânsito parassem de multar a falta de cinto de segurança imagino que pouca diferença faria. Estamos tão acostumados ao cinto que não deixaríamos de usá-lo: o custo envolvido no uso é pequeno e o benefício nos parece bastante razoável, pois mesmo raros os acidente sem cinto são mais graves. 

Tudo seria bem diferente se houvesse uma polarização na sociedade entre um grupo que fosse contra e os que fossem a favor. Nessa situação haveria uma disputa de narrativas entre os benefícios versus os malefícios de se usar o cinto de segurança. Os contras diriam que era perigoso, pois poderíamos ficar presos no carro; apontariam a baixa probabilidade de um acidente; fariam alarde sobre casos nos quais o cinto houvesse falhado. Mas diante das evidências acachapantes a favor do cinto, insistiram apenas na liberdade individual, dizendo que o Estado não pode nos obrigar a usar algo que não queremos.

Nesse mundo paralelo, quando o uso deixasse de ser obrigatório veríamos mais pessoas deixando de usar. Primeiro os detratores do cinto. Depois alguns defensores da não obrigatoriedade – só alguns, pois muitos ainda iriam usar pelo sim, pelo não. E achando-se relativamente seguras mais pessoas o abandonariam. Com o aumento das notícias sobre lesões graves por falta de cinto que aconteceria, a percepção de risco seria novamente elevada, mais gente voltaria a usar, e seguiríamos nessa gangorra até atingir uma estabilidade.

Algo parecido acontecerá agora com o uso das máscaras. Embora o incômodo seja pequeno para a maioria das pessoas, as máscaras se tornaram objeto de disputa como bem sabemos; com a queda do número de casos e sua menor gravidade em função da vacinação, a percepção de risco cai e as pessoas começarão a abandonar seu uso. Primeiro as que eram contra; depois as que eram a favor do uso opcional; por último as outras pessoas, por se sentirem seguras.

Mas a pandemia não acabou, e olhando para a China e para a Europa nesse exato momento parecem grandes as chances de uma nova onda vir por aí. Se isso acontecer, o aumento de casos elevará a sensação de risco, fazendo com que mais pessoas voltem a optar pelas máscaras. Mas para forçar os governos a enfrentar o desgaste de torna-las novamente obrigatória tal onda teria que ser grande e letal como está acontecendo em Hong Kong, onde não por acaso a o governo suspendeu a realização de atividades físicas ao ar livre ou o consumo de bebidas em transporte público como desculpas para não usar a máscara. Resta torcer para que não seja o nosso caso.

*É PSIQUIATRA DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS (IPQ-HC)

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