Eve Edelheit/The New York Times
Eve Edelheit/The New York Times

Perder o cabelo pode ser outra consequência da pandemia

Médicos afirmam que queda de cabelo vem atingindo pacientes que tiveram covid-19 e também pessoas que não foram diagnosticadas com a doença; estresse é apontado como uma das causas do problema

Pam Belluck, The New York Times

28 de setembro de 2020 | 12h08

Annrene Rowe estava se preparando para comemorar seu 10º aniversário de casamento no meio do ano quando notou um ponto sem cabelos no seu couro cabeludo. Nos dias seguintes, seu volumoso cabelo, na altura dos ombros, começou a cair em tufos, amontoando-se no ralo do chuveiro. “Eu estava chorando histericamente”, disse Annrene, 67 anos, de Anna Maria, Flórida.

Annrene, que ficou hospitalizada por 12 dias em abril com sintomas do novo coronavírus, logo encontrou histórias surpreendentemente semelhantes em grupos on-line de sobreviventes de covid-19. Muitos disseram que vários meses após contrair o vírus, começaram a perder uma quantidade surpreendente de cabelo.

Os médicos dizem que também estão atendendo muito mais pacientes com queda de cabelo, um fenômeno que eles acreditam estar de fato relacionado à pandemia do novo coronavírus, afetando tanto as pessoas que tiveram o vírus quanto as que não ficaram doentes.

Em tempos normais, algumas pessoas perdem uma quantidade perceptível de cabelo após uma experiência profundamente estressante, como uma doença, uma grande cirurgia ou um trauma emocional.

Agora, segundo os médicos, muitos pacientes em recuperação de covid-19 estão experimentando queda de cabelo - não pelo vírus em si, mas pelo estresse fisiológico de enfrentá-lo. Muitas pessoas que nunca contraíram o vírus também estão perdendo cabelo devido ao estresse emocional da perda de emprego, dificuldades financeiras, morte de parentes ou outros acontecimentos devastadores decorrentes da pandemia.

“Há muitos, muitos estresses de muitas maneiras em torno desta pandemia, e ainda estamos vendo queda de cabelo porque muito do estresse não foi embora”, disse Shilpi Khetarpal, professora de dermatologia no centro médico acadêmico Cleveland Clinic.

Antes da pandemia, havia semanas em que Shilpi não via um único paciente com queda de cabelo desse tipo. Agora, disse ela, chegam cerca de 20 desses pacientes por semana. Uma delas era uma mulher que tinha dificuldade em lidar com as atividades escolares dos dois filhos pequenos enquanto trabalhava em casa. Outra era uma professora do segundo ano tentando ansiosamente garantir que todos os seus alunos tivessem computadores e acesso à Internet para as aulas on-line.

Em uma pesquisa de julho a respeito dos sintomas pós-covid entre 1.567 integrantes de um grupo de sobreviventes, 423 pessoas relataram perda de cabelo incomum, de acordo com o grupo Survivor Corps e Natalie Lambert, professora de pesquisa da Escola de Medicina da Universidade de Indiana, que ajudou a realizar a pesquisa.

Emma Guttman-Yassky, a nova presidente do departamento de dermatologia da Escola de Medicina Icahn do Monte Sinai, disse que tratou muitos profissionais de saúde da linha de frente contra o novo coronavírus por causa da queda de cabelo, incluindo funcionários do hospital.

“Alguns deles tinham covid-19, mas não todos”, disse ela. “É o estresse da situação. Eles estavam separados de suas famílias. Eles trabalhavam por muitas horas. ”

Para a maioria dos pacientes, a condição deve ser temporária, dizem os médicos, mas pode durar meses.

Existem dois tipos de queda de cabelo que a pandemia parece estar provocando, segundo os especialistas.

Em uma condição, chamada de eflúvio telógeno, as pessoas perdem muito mais do que os normais 50 a 100 fios de cabelo por dia, geralmente começando vários meses após uma experiência estressante. Trata-se essencialmente de uma mudança ou "falha do sistema de crescimento do cabelo", disse Sara Hogan, dermatologista da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que tem atendido até sete pacientes por dia com a condição.

Em ciclos de cabelo saudáveis, a maioria dos fios está em fase de crescimento, com uma pequena porcentagem em uma fase curta de repouso e apenas cerca de 10% dos fios em fase de queda ou telógeno. Mas com o eflúvio telógeno, “os cabelos estão caindo mais e crescendo menos”, disse Shilpi, e até 50% dos cabelos podem pular para a fase de queda, com apenas cerca de 40% na fase de crescimento.

O fenômeno, que algumas mulheres também experimentam após a gravidez, geralmente dura cerca de seis meses, mas se as situações estressantes persistirem ou se repetirem, algumas pessoas desenvolverão uma condição crônica de queda de cabelo, disse Sara.

A outra condição de queda de cabelo que está aumentando agora é a alopecia areata, na qual o sistema imunológico ataca os folículos capilares, geralmente começando com um pedaço do cabelo no couro cabeludo ou na barba, disse Mohammad Jafferany, psiquiatra e dermatologista da Universidade Central Michigan.

“Sabe-se que isso está associado ou pode ser agravado por estresse psicológico”, disse Jafferany.

Emma disse que viu “um grande aumento neste tipo de alopecia”.

Nem todos os pacientes tinham covid-19, disse ela, mas os que tinham tendiam a progredir muito rapidamente de uma ou duas áreas calvas para “perder pelos por todo o corpo”, incluindo sobrancelhas e cílios. Ela disse que pode ser porque a inflamação que alguns pacientes com covid-19 apresentam aumenta as moléculas imunológicas ligadas a doenças como a alopecia.

Os especialistas não sabem exatamente por que o estresse desencadeia essas condições, que afetam mulheres e homens. Pode estar relacionado ao aumento dos níveis de cortisol, um hormônio do estresse, ou aos efeitos no suprimento de sangue, disse Sara.

A queda de cabelo em si pode causar mais estresse, disse Shilpi, especialmente para as mulheres, cujo cabelo costuma estar mais ligado à identidade e autoconfiança.

Os especialistas recomendam uma boa nutrição, vitaminas como biotina e técnicas de redução do estresse como ioga, massagem no couro cabeludo ou meditação para atenção plena. Alguns também recomendam o minoxidil, um medicamento para o crescimento do cabelo, mas Sara avisa aos pacientes que ele pode causar mais queda de cabelo antes de começar a funcionar.

Com a alopecia areata, disse Emma, alguns casos são solucionados sem tratamento e outros são ajudados por injeções de esteroides, mas alguns podem se tornar permanentes, especialmente se não forem tratados precocemente.

Para pessoas deprimidas ou traumatizadas pela queda de cabelo, Jafferany recomenda psicoterapia, mas não necessariamente medicamentos, porque alguns antidepressivos e ansiolíticos podem agravar a queda de cabelo.

Sara disse que alguns pacientes consideram a situação tão perturbadora que evitam lavar ou pentear os cabelos porque notam mais a queda durante essas atividades. Ela diz a eles que não devem ter medo desses cuidados pessoais.

E acrescentou: “Os pacientes não gostam quando eu digo isso, mas eles concordam: o cabelo não é crucial para sua sobrevivência”. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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