Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Perfis desmistificam rotina de pacientes com doenças graves como câncer

'Sei que o que estou passando é muito difícil. Não quero romantizar o câncer. Quero repartir esse peso', diz Daniela Toledo Saldanha, que fala no Instagram sobre seu tratamento

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2019 | 09h00

SÃO PAULO - A primeira publicação sobre o assunto no Instagram foi no dia em que ela raspou o cabelo. “Eu ia por a legenda: ‘começar a enfrentar essa bodega’ - porque não gosto muito de 'textão'. Mas essa foto não significa isso. (...) Resolvi abrir isso porque me ajuda a tornar mais leve. Estou aberta pra quem quiser falar comigo, a ideia é desmistificar. Aliás acabei de inventar a hashtag #DesmistificandoOCâncer.”

A partir daí, Daniela Toledo Saldanha, que nunca foi muito de redes sociais ou, como ela mesma diz, nunca pensou em ser “bloguerinha”, começou a receber uma enxurrada de mensagens de amigos e desconhecidos em sua conta @dandansal.

“As pessoas queriam saber o que estava acontecendo, como eram as sessões de quimioterapia, o que eu sentia ou por que o cabelo estava caindo”, contou ela, de 43 anos.

Ao perceber a reação das pessoas, Dani começou a fazer stories e vídeos sobre o seu tratamento contra um agressivo câncer de mama.

“Sou leiga, mas falo aquilo que as médicas me explicam e conto como me sinto. Para mim, faz bem falar. Não sou o tipo de pessoa que guarda esse tipo de coisa. Sei que o que estou passando é muito difícil. Não quero romantizar o câncer. Quero repartir esse peso. Sinto que ao falar, eu venço o medo. E, ao mesmo tempo, ajudo as pessoas a enfrentarem esse tipo de situação também.”

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Começou a contagem regressiva! DEZ! YAAAAY! #DesmistificandoOCâncer #CâncerDeMama #DesmistifiCA @bucotavares Turbante @estacaooutono

Uma publicação compartilhada por Dani (@dandansal) em

Claro, ao abrir sua vida em uma rede social, Dani também recebeu mensagens com sugestões de tratamentos alternativos, correntes de orações e até receitas de garrafadas “invencíveis contra o câncer”. “Tem esse lado, que é meio chatinho. Mas tento entender isso como um jeito de as pessoas expressarem carinho e preocupação." Dani sabe que ainda tem um longo tratamento pela frente, mas espera o dia em que poderá postar o último vídeo ou foto dizendo que acabou. “Não me iludo. Sei que ainda tem muito pela frente. Óbvio que tenho medo, mas sou otimista. Ainda vou publicar esse post falando da cura.”

'Eles gostam de ver meus vídeos porque não se sentem sozinhos'

De maneira espontânea, Dani começou a falar sobre o câncer para os seus seguidores. Assim como ela, outras pessoas têm recorrido às redes sociais para ter esse tipo de conversa com amigos e desconhecidos. A youtuber Giovanna Moreschi, 20 anos, por exemplo, tem Ataxia de Friedreich - doença degenerativa rara que, aos poucos, tem limitado seus movimentos. Ela reagiu a essa condição fazendo vídeos (e publicando fotos no Instagram), em que aparece praticando atividades físicas e esportes radicais.

“Eu ia em médicos, realizava muitos tratamentos e todo mundo me perguntava sobre o que eu tenho. Pensei que devia ter um lugar onde pudesse explicar, me falaram do YouTube, já que sou muito comunicativa. Então, resolvi compartilhar minha história”, contou.

Giovanna falou que no início achava que iria se comunicar apenas com um nicho de pessoas com doenças raras, mas não foi o que aconteceu.

“Me procuram pessoas que passaram por depressão, por um momento difícil. Elas gostam de ver meus vídeos, porque não se sentem esquecidos e sozinhos. E por eu falar das coisas com muita positividade e leveza, começam a não olhar as dificuldades como fim do mundo.”

Por outro lado, a exposição também tem ajudado a própria jovem: “Não me sinto alguém que tem de esconder o que tenho. Me sinto livre e entendida, me sinto igual a todos mesmo sabendo que sou diferente”, completou.

Paloma Lira, 22 anos, também é uma personalidade do YouTube (conhecida nas redes como Cinderela Country). Portadora de ictiose lamelar - doença rara que causa descamação da pele -, ela usa suas redes para falar de maquiagem e autoestima. “Tudo começou em 2016, quando criei o canal no YouTube e decidi compartilhar um pouco da minha vida com as pessoas - e assim poder passar alguma mensagem para quem sofre de baixa estima ou algo do tipo”, disse. 

Segundo Paloma, o retorno de seus vídeos e posts tem um efeito muito positivo.

“Me emociono com cada história que recebo de pessoas que passam por alguma coisa na vida. Elas me dizem que e posso inspirá-las. Isso me emociona demais e me inspira quando não estou em dias melhores”, disse.

Apesar disso, a exposição nas redes também tem seus contratempos.

“Você está sujeita a tudo. Críticas construtivas e críticas ofensivas. As (críticas) construtivas têm me ajudado muito a evoluir como pessoa e como figura pública na internet. Sobre as, ofensivas tem umas que doem demais, mas sempre entrego na mão de Deus e logo passa, desejo bem as pessoas que me ofenderam”, concluiu. 

Buscar aprovação pública pode ser armadilha

A psicóloga Andressa Miiashiro afirma que, ao compartilhar uma doença ou dor com outras pessoas nas redes sociais, há "a oportunidade de ressignificar aquilo que se sente”. “Pode existir um acolhimento, oportunidade de enxergar a doença de uma outra forma, como um aprendizado, por exemplo. Enfim, pode fazer com que as pessoas consigam dar sentido diferente para aquele problema ou doença”, explicou.

“Para quem vê esse tipo de conteúdo, fica aquela sensação de ‘não estou sozinho’ ou ‘não é só comigo'." Por outro lado, a psicóloga adverte que compartilhar esse tipo de experiência em busca de aprovação pública também pode ser uma armadilha. “Ao contrário do que se imagina, isso também pode criar baixa autoestima. É preciso ficar atentos em relação à dependência de aprovação nas redes sociais”, disse.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.