Marcelo Chello/Estadão
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Pesquisa aponta gargalos em infraestrutura de postos de saúde que podem afetar vacinação

Quase metade das unidades de 883 municípios não tem geladeiras com medição de temperatura, o que é necessário para manter a qualidade do imunizante. Levantamento foi feito pelo Instituto Locomotiva, integrante do grupo Unidos pela Vacina, que tenta identificar e solucionar obstáculos

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2021 | 16h10

Quase a metade dos postos de saúde em 883  municípios do País não tem geladeiras com medição de temperatura e alarme em boas condições em todas as unidades de atendimento, 21% apresentam deficiências na infraestrutura básica, como a disponibilidade de água, sabonete, papel toalha e lixeira com pedal. Também quatro em cada dez unidades não contam com termômetros suficientes para medir temperaturas das caixas térmicas nem salas adequadas à vacinação.

Esses são alguns dos vários gargalos de infraestrutura nos postos de saúde detectados em uma pesquisa com dirigentes municipais, feita pelo Instituto Locomotiva, que integra o grupo “Unidos pela Vacina”.

Lançado no início deste mês pela empresária Luiza Trajano, do Magazine Luiza, o movimento já conta com mais de 400 participantes voluntários, entre profissionais liberais, executivos de grandes empresas, pessoas físicas e jurídicas, que estão trabalhando a todo vapor para agilizar a vacinação.

“Não somos protagonistas da vacinação, o protagonista é o poder público que tem a condição de comprar, distribuir e fazer acontecer a vacinação”, diz Marcelo Silva, presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV), um dos voluntários do movimento e responsável pelo grupo de comunicação com o governo. Ele faz a interface com os governos federal, estaduais, municipais, procurando identificar os gargalos em 5.500 municípios, para removê-los e acelerar a vacinação.

Outro executivo voluntário, João Carlos Brega, presidente da Whirlpool para América Latina, responsável em buscar parcerias no setor privado para viabilizar os insumos necessários, diz que essa radiografia da situação dos municípios é peça fundamental para acelerar e remover os obstáculos. Até a última segunda-feira, a pesquisa, que está em andamento, tinha traçado o diagnóstico das condições de 883 cidades espalhadas pelo País, exceto o Distrito Federal.

“As pessoas entendem que o Brasil sabe vacinar e não foi surpresa expertise do SUS (Sistema Único de Saúde). Mas há um desafio grande na distribuição, no processo de fazer chegar a vacina, nas campanhas de divulgação e a preocupação com o negacionismo”, afirma Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva e responsável pela pesquisa.

Além da falta de geladeiras, ele destaca, por exemplo, deficiências na conectividade que é tão importante para monitorar a vacinação. Em 23% dos municípios, as unidades de saúde não usam internet para registros de vacinação, sendo que em 14% não há computador. A fatia dos “sem computador” sobe para 28% nos municípios da região Norte.

Outro ponto crucial revelado pela pesquisa é a estratégia usada na vacinação. Embora 98% dos municípios tenham programado vacinação em domicílio para grupos prioritários, metade, em média, não planejou postos volantes com sistema drive thru. Em cidades com mais de 50 mil habitantes essa fatia é menor, 20%. Mas é um aspecto importante, porque atinge os mais vulneráveis à doença. “Também 44%, em média, das cidades planejam abrir as unidades de saúde nos finais de semana, o que afeta a população mais pobre”, diz Meirelles.

Dirigentes municipais veem distribuição de vacinas como maior desafio

Entre os desafios apontados pelos dirigentes municipais, o principal é a distribuição das vacinas (49%), que sobe para 59% em cidades menores com até 10 mil habitantes. Na sequência, são citados como desafios os recursos humanos para aplicação e a divulgação da vacinação, ambos com 18% das respostas.

Em relação à população, o maior desafio, na opinião dos gestores municipais de saúde, é a falta de entendimento do cronograma de vacinação (53%), seguido pela descrença na vacina ou fake news (28%).

Diante deste quadro, os gestores municipais de saúde estão céticos. Apenas um quarto acredita que será possível vacinar toda a população até setembro deste ano, que é a meta do grupo “Unidos pela Vacina”. Apenas seis em cada dez (59%) acham que vão conseguir encerrar 2021 com a população imunizada e 41% acham que a vacinação só será concluída no ano que vem. Para Silva, a meta de concluir a vacinação até setembro é difícil, mas factível, uma vez que estão surgindo novas opções de vacinas.

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