Thomas Peter/Reuters
Thomas Peter/Reuters

Pesquisa aponta que população negra é infectada 2,5 vezes mais que a de brancos na capital paulista

Amostras de sangue indicam que 19,7% dos participantes que se identificam como negros possuem anticorpos à covid-19, enquanto que nos que se declaram brancos era de 7,9%

João Prata, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2020 | 14h54

A população negra é infectada 2,5 vezes mais pelo coronavírus do que a de brancos, aponta pesquisa realizada na cidade de São Paulo. Amostras de sangue colhidas entre os dias 15 e 24 de junho indicam que 19,7% dos participantes que se identificam como negros possuem anticorpos contra a covid-19, enquanto que nos que se declaram brancos o porcentual é de 7,9%.

Essa é a segunda fase do estudo comandado por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com apoio do Instituto Semeia e participação de profissionais do Laboratório Fleury e Ibope Inteligência. A pesquisa realizou exames sorológicos em 1.183 pessoas, todos maiores de 18 anos, em 115 regiões diferentes da cidade - em cada região foram sorteados 12 domicílios.

O estudo separou distritos com maior e menor renda, segundo dados do IBGE. E a conclusão é que a epidemia da covid-19 no Município de São Paulo reflete a desigualdade social. A infecção pelo coronavírus diminui em localidades onde a população tem melhor nível educacional. Ela é 4,5 vezes maior nos indivíduos que não completaram o ensino fundamental, por exemplo, quando comparada com os que terminaram o ensino superior: 22,9% e 5,1%, respectivamente. 

Participantes que vivem em habitações com cinco ou mais indivíduos apresentam índice de infecção de 15,8%, quase duas vezes mais do que aqueles que dividem a casa com um ou dois indivíduos, que é de 8,1%. "É como se tivesse duas epidemias correndo ao mesmo tempo na cidade. Não dá para comparar, mas traduz a expansão que afeta mais os que têm menos recursos, porque são os que precisam ir trabalhar, porque têm menos condições de fazer o isolamento", disse o infectologista Celso Granato, diretor Clínico do Grupo Fleury, pesquisador líder do projeto.

Segundo Beatriz Tess, professora do departamento de Medicina Preventiva da USP, a questão da desigualdade social já era, de certa maneira, esperada pelo que se vê sobre a evolução da doença nas cidades. "Mas a pesquisa, ao mostrar esses dados, traz uma coisa muito importante que é a magnitude dessa diferença."

De modo geral, do total de 1.183 entrevistados que tiveram as amostras de sangue analisadas, 11,4% têm anticorpos. Estima-se que aproximadamente 958 mil pessoas maiores de 18 anos já foram infectadas pelo novo coronavírus na capital paulista, que tem população de pouco mais de 8 milhões de habitantes acima dessa faixa etária. Considerando somente óbitos confirmados até a data do estudo, estima-se que a taxa de letalidade na população maior de 18 anos é de 0,7%.

Uma nova pesquisa mais detalhada deve sair em um mês, informou o biólogo Fernando Reinach, colunista do Estadão, que reuniu o grupo de cientistas ao redor da proposta. "A quantidade e possibilidade de informações são bem maiores. Será possível dimensionar a contaminação dentro da casa, entender todos os sintomas, compreender casos de pessoas assintomáticas, analisar índice de vulnerabilidade", disse.

A pesquisa

A renda de cada bairro na cidade de São Paulo é traçada por uma média geral. Na capital paulista há peculiaridades como, por exemplo, na região do Morumbi, onde há uma área nobre e também uma grande comunidade. O IBGE pega a média de cada localidade e estabelece um índice. A pesquisa utilizou esse índice como base e dividiu a cidade em duas, com distritos mais ricos e mais pobres. Os bairros foram subdivididos em 115 setores censitários. Em cada um deles, houve o sorteio de 12 residências para fazer parte do estudo. 

Uma semana antes de fazer a visita, é feita uma ligação para o local sorteado para evitar rejeição. Pelo rigor metodológico, pesquisadores não podem simplesmente bater na casa vizinha se houver recusa. A aleatoriedade é importante para aumentar a representatividade da amostra e evitar resultados com viés.

Um pesquisador do Ibope e um enfermeiro do Fleury, paramentados, visitam a casa sorteada. O exame é oferecido a todos os moradores da residência, pois contribui também para novas etapas do estudo. Por exemplo, para medir o índice de transmissão entre familiares.

Quem aceita participar da pesquisa preenche um questionário e doa um pouco de sangue, retirado por meio de pulsão intravenosa, como ocorre em um laboratório. 

A primeira fase teve o estudo divulgado em maio e apontou que nos seis bairros com maior incidência de covid-19 na cidade de São Paulo, até então, 5,19% dos moradores dessas localidades desenvolveram anticorpos ao coronavírus. O levantamento apontou também que 91,6% dos casos de infecção estavam fora das estatísticas oficiais.

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