Thierry Santos / IFSC USP
Thierry Santos / IFSC USP

Pesquisa da USP usa toxina de planta brasileira para combater o HIV

Proteína de uma trepadeira do nordeste foi capaz de destruir células infectadas com o vírus; cientistas estimam que testes clínicos para desenvolvimento de futuro medicamento levarão de 10 a 15 anos

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2017 | 18h32

SOROCABA - Uma planta trepadeira presente na flora do nordeste brasileiro pode ser a chave para eliminar o vírus HIV, causador da Aids, do organismo humano. Um estudo da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com uma universidade americana, demonstrou que a proteína pulchellina, extraída da Abrus pulchellus tenuiflorus, planta nativa do Brasil, foi eficaz na destruição de células infectadas pelo vírus, sem causar estragos às células sadias. A proteína age ligada a um anticorpo que tem a capacidade de detectar o vírus mesmo em estado latente, em células que ainda não apresentaram a doença.

De acordo com o professor da USP no Instituto de Física de São Carlos (IFSC), Francisco Eduardo Gontijo Guimarães, orientador da pesquisa, a substância da planta é altamente tóxica, mas tem sua ação abrandada e direcionada para atingir apenas as células infectadas. "Ao identificar a célula com o vírus, a proteína se desprende do anticorpo e destrói aquela célula, sem estender sua ação às células sadias."

O passo importante, segundo ele, foi conseguir um anticorpo que reconhecesse o vírus mesmo quando ele está escondido na célula, fora do alcance dos retrovirais normalmente usados para o controle do HIV. "O vírus muda muito rapidamente, o que dificulta detectá-lo, mas ele deixa rastros na membrana da célula que esses anticorpos reconhecem."

O professor explica que o HIV se instala nos glóbulos brancos, células do sistema imunológico que defendem o organismo contra doenças e infecções, e libera toxinas que enganam o sistema de defesa, transmitindo a mensagem de que as células infectadas estão sadias.

"O coquetel de antirretrovirais usados para o tratamento da Aids aumenta a sobrevida e melhora a qualidade de vida dos pacientes, mas os medicamentos que o compõem precisam ser muito fortes e acabam causando efeitos colaterais. Além disso, ele não atua onde não há carga viral, ou seja, nas células onde o vírus não está ativo, por isso acreditamos que nossa terapia, se for desenvolvida até o final, poderá ser muito importante no tratamento da Aids."

Guimarães destacou a "feliz coincidência" de ter sido procurado pelo pesquisador iraniano Muhammad Sadraeian, interessado em fazer doutorado na USP de São Carlos, dando sequência à tese que desenvolveu na Universidade de Teerã em imunoterapia - tratamento fundamentado na aplicação de anticorpos. Ele e a bióloga Ana Paula Ulian de Araújo, do Grupo de Biofísica Molecular do Instituto, já trabalhavam em pesquisas sobre a pulchellina.

"Sugeri a ele trabalhar com essa proteína e ele teve a brilhante ideia de aplicar nas células infectadas pelo HIV", contou Guimarães. "Existem imunotoxinas capazes de matar células cancerígenas, mas o desafio era fazê-las atuar sobre células adormecidas, como as infectadas pelo HIV. E isso aconteceu rapidamente, com a eliminação de 90% das células doentes em dez minutos", explicou Sadraeian.

O orientador conta que, em dois dias, o pesquisador iraniano apresentou um plano de trabalho. "A gente precisava de um laboratório que trabalhasse com HIV e conseguimos uma parceria com o Health Scienses Center (Centro de Ciências da Saúde) da Universidade do Estado da Luisiana. Os anticorpos foram cedidos por um instituto americano que é referência em Aids e conseguimos a doação de uma linhagem de células infectadas junto à Harvard Medical School", relata Guimarães.

O doutorando da USP ficou um ano trabalhando nos Estados Unidos até conseguir ligar a proteína à toxina. "Assim que a pulchellina foi conjugada aos anticorpos, estes a guiaram para dentro dos glóbulos brancos infectados. A toxina foi liberada e eliminou o vírus. Achamos o anticorpo certo para ser ligado à pulchellina e reconhecer o vírus mutante", explicou.

Para o professor Guimarães, o avanço é uma importante contribuição do Brasil aos esforços mundiais de combate à Aids. No entanto, para que a descoberta se transforme em terapia, há um longo caminho a percorrer. "Temos de fazer testes em animais e, depois, em pessoas. Nos Estados Unidos, para sair do laboratório e virar produto de farmácia, são necessários de 10 a 15 anos. No Brasil, nem dá para calcular o tempo. Se pudesse, eu colocaria todo esforço pelo resto da minha vida nesse projeto." O avanço obtido pelos pesquisadores da USP foi publicado na edição de agosto da Scientific Reports, revista científica do grupo Nature.

Os pesquisadores deram entrada a um pedido de patente da descoberta em conjunto com a Universidade da Luisiana. Sadraeian ainda aguarda a aprovação de uma bolsa para prosseguir com as pesquisas nos Estados Unidos. Ele e o professor Guimarães veem a possibilidade de usar o mesmo princípio para o tratamento de pessoas com câncer.

"Acreditamos que a imunotoxina, resultado da conjugação da toxina com os anticorpos, será eficaz para destruir células doentes de câncer." Conforme dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2015, ao menos 36,7 milhões de pessoas conviviam com o HIV no mundo. No Brasil, são 827 pacientes, segundo o Ministério da Saúde.

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