Brian Snyder/Reuters
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Pesquisa de vacina contra coronavírus se torna uma competição global

Nos três meses que se passaram desde que o vírus começou a se espalhar, China, Europa e Estados Unidos saíram em disparada para se tornarem os primeiros a produzir a vacina

The New York Times

21 de março de 2020 | 15h00

WASHINGTON – Está em curso uma corrida armamentista global por uma vacina contra o coronavírus. Nos três meses que se passaram desde que o vírus começou a se espalhar, China, Europa e Estados Unidos saíram em disparada para se tornarem os primeiros a produzir a vacina

Mas, ainda que exista cooperação em muitos níveis – até mesmo entre empresas que normalmente são ferozes concorrentes –, paira sobre o esforço a sombra de uma abordagem nacionalista que poderia dar ao vencedor a chance de beneficiar sua própria população e ganhar vantagem para lidar com as consequências econômicas e geoestratégicas da crise.

O que começou como uma questão de quem receberia os elogios científicos, as patentes e, finalmente, as receitas por uma vacina bem-sucedida de repente se tornou uma questão mais ampla e urgente de segurança nacional. 

E por trás da disputa há uma dura realidade: qualquer nova vacina que se mostre eficaz contra o coronavírus – já estão sendo realizados ensaios clínicos nos Estados Unidos, China e Europa – certamente será escassa, pois os governos farão tudo para garantir que sua própria população seja a primeira da fila.

Na China, mil cientistas estão trabalhando na vacina, e o problema já foi militarizado: pesquisadores afiliados à Academia de Ciências Médicas Militares desenvolveram o que é considerado a vacina com maior chance de sucesso e estão recrutando voluntários para ensaios clínicos.

A China “não ficará para trás dos outros países”, disse Wang Junzhi, especialista em controle de qualidade de produtos biológicos da Academia Chinesa de Ciências, na terça-feira, 17, em uma entrevista coletiva em Pequim.

O esforço ganhou feições de propaganda. Já foi denunciada como fake uma fotografia vastamente compartilhada de Chen Wei, virologista do Exército de Libertação Popular, recebendo uma injeção do que seria a primeira vacina, em uma viagem que ela fez a Wuhan, onde surgiu o vírus.

O presidente Donald Trump vem conversando em reuniões com executivos do setor farmacêutico sobre maneiras de garantir a produção de uma vacina em solo americano, para garantir que os Estados Unidos controlem sua distribuição. Autoridades do governo alemão disseram acreditar que o presidente americano tentou atrair uma empresa alemã, a CureVac, para fazer a pesquisa e produção de uma possível vacina nos Estados Unidos.

A empresa negou ter recebido uma oferta de aquisição, mas seu principal investidor deixou claro que houve algum tipo de abordagem.

Questionado pela revista alemã Sport 1 sobre como se deu o contato, Dietmar Hopp, cuja Dievini Hopp BioTech Holding detém 80% da empresa, disse: “Não conversei pessoalmente com o presidente Trump. Ele falou com a empresa, e imediatamente eles me contaram e perguntaram o que eu pensava, e desde o primeiro momento conclui que era algo fora de cogitação”.

O relato da abordagem foi suficiente para levar a Comissão Europeia a encaminhar mais US $ 85 milhões à empresa, que já contava com o apoio de um consórcio europeu de vacinas.

No mesmo dia, uma empresa chinesa ofereceu US $ 133,3 milhões por uma participação acionária em outra empresa alemã na corrida da vacina, a BioNTech.

“Houve um despertar global para a noção de que a biotecnologia é uma indústria estratégica para nossas sociedades”, disse Friedrich von Bohlen, diretor da holding que detém 82% da CureVac.

E, assim como as nações fizeram questão de construir seus próprios drones, seus próprios aviões stealth e suas próprias armas cibernéticas, elas não querem depender de uma potência estrangeira para ter acesso aos medicamentos necessários na hora da crise.

Depois de duas décadas terceirizando a produção de medicamentos para a China e a Índia, “queremos todo o processo de produção perto de casa”, disse von Bohlen.

Alguns especialistas veem a concorrência geopolítica como algo saudável, desde que todos os sucessos sejam compartilhados com o mundo – o que as autoridades governamentais sempre dizem que vão fazer.

Mas elas não dizem como, ou mais importante, quando. E muitos analistas lembram o que aconteceu durante a epidemia de gripe suína em 2009: exigiu-se que a empresa australiana que foi uma das primeiras a desenvolver uma vacina de dose única atendesse à demanda da Austrália antes de receber os pedidos de exportação para os Estados Unidos e outros países.

Isso provocou indignação, teorias da conspiração e audiências no Congresso sobre as razões da falta de vacinas.

“Queremos que todos cooperem, que todos corram o mais rápido possível rumo à vacina e que os melhores candidatos avancem”, disse o Dr. Amesh Adalja, do Centro de Segurança em Saúde da Universidade Johns Hopkins.

Mas, se os pesquisadores que apresentam sinais de sucesso ficam se perguntando se suas empresas serão nacionalizadas, disse ele, isso cria uma complicação que “ninguém quer no momento de fazer uma vacina o mais rápido possível”.

Executivos das principais empresas farmacêuticas do mundo disseram na quinta-feira que estavam trabalhando juntos e com os governos para garantir que uma vacina seja desenvolvida o mais rápido possível e distribuída de forma equitativa. Mas eles imploraram aos governos que não monopolizem a vacina que vier a ser desenvolvida, dizendo que isso seria devastador para o objetivo mais amplo de eliminar a pandemia de coronavírus.

“Gostaria de aconselhar a todos a não entrarmos nessa armadilha de dizer que agora temos de guardar tudo em nossos países e fechar as fronteiras”, disse Severin Schwan, executivo-chefe da Roche, uma empresa farmacêutica suíça. “Seria completamente errado adotar um comportamento nacionalista que realmente atrapalharia as cadeias de suprimentos e prejudicaria as pessoas no mundo todo”.

A presunção quase diária de Trump de que importantes descobertas estão a caminho aumenta a pressão. Embora medicamentos antivirais para tratar os efeitos do coronavírus possam ser testados sob as diretrizes de “uso compassivo”, as quais permitem experimentos com pacientes desesperadamente graves, a vacina ainda vai demorar pelo menos 12 a 18 meses, afirmam autoridades dos Estados Unidos e líderes de grandes empresas farmacêuticas.

“As vacinas são injetadas em pessoas saudáveis, por isso precisamos garantir a segurança”, disse na quinta-feira David Loew, vice-presidente executivo da Sanofi Pasteur, na França. Sua empresa está trabalhando com a Eli Lilly e a Johnson & Johnson nos Estados Unidos, a Roche e a Takeda no Japão.

Em tempos normais, sempre há um elemento de competição nacional no desenvolvimento de drogas. Meses antes de o coronavírus começar a explodir em Wuhan, o FBI começou uma força-tarefa para erradicar os cientistas que os investigadores acreditavam que estavam roubando dados de pesquisas biomédicas dos Estados Unidos, mirando sobretudo cientistas de ascendência chinesa, entre eles cidadãos americanos naturalizados. Foram 180 casos sob investigação no ano passado.

Em uma teleconferência na quinta-feira, executivos das cinco maiores empresas farmacêuticas disseram que estavam trabalhando para aumentar a capacidade de fabricação do setor, compartilhando recursos para aumentar a produção assim que for identificada uma vacina ou um medicamento antiviral. Eles defenderam programas de teste múltiplos para aumentar as chances de sucesso e, em seguida, o licenciamento imediato, possibilitando uma rápida expansão da produção.

Uma vez aprovada a vacina, “precisaremos vacinar bilhões de pessoas em todo o mundo, então estamos procurando alternativas de onde e como produzir”, disse Loew.

Mas são os governos que decidem como a vacina é aprovada e onde ela pode ser vendida.

“Se os países disserem: ‘Vamos bloquear o suprimento para que possamos proteger nossa população’, então será um desafio levar a vacina para os locais onde ela pode fazer a maior diferença em termos epidemiológicos”, disse Seth Berkley, executivo-chefe da GAVI, uma organização sem fins lucrativos que fornece vacinas para os países em desenvolvimento.

Porém, cientes desses perigos, vários governos europeus e grupos sem fins lucrativos já tomaram medidas para impedir que os Estados Unidos ou a China tenham monopólio sobre uma potencial vacina contra o coronavírus.

Depois que a epidemia de Ebola atingiu a África Ocidental entre 2014-16, Noruega, Grã-Bretanha e outros países, sobretudo europeus, juntamente com a Fundação Bill & Melinda Gates, começaram a contribuir com milhões de dólares para uma organização multinacional, a Coalition for Epidemic Preparedness Initiative [Coalizão para Iniciativas de Preparação para Epidemias], para financiar a pesquisa de vacinas.

Todos os seus acordos de financiamento incluem cláusulas para acesso igualitário, garantindo que “as vacinas apropriadas estejam disponíveis para as populações quando e onde forem necessárias para interromper um surto ou reduzir uma epidemia, independentemente da capacidade de pagamento”, informou a organização em comunicado.

Nos últimos dois meses, a coalizão financiou pesquisas sobre oito das vacinas mais promissoras contra o coronavírus – inclusive na CureVac, a empresa alemã.

Tudo isso deixa ainda mais obscuro o que exatamente Trump queria com a CureVac (se é que de fato houve uma abordagem) e por que a empresa demitiu seu executivo-chefe nos Estados Unidos, Daniel Menichella, dias depois de ele se reunir com a força-tarefa de coronavírus da Casa Branca, na presença de Trump. A Casa Branca não quis comentar.

A própria empresa emitiu notas cuidadosamente elaboradas negando qualquer oferta de aquisição. “Talvez alguém tenha dito alguma coisa”, disse Von Bohlen. “Mas não há nenhuma oferta formal dos Estados Unidos”.

E nem precisaria haver. A mera possibilidade de oferta foi suficiente para fazer com que as autoridades europeias aumentassem o financiamento. / Tradução de Renato Prelorentzou 

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