Pesquisa independente questiona neutrino mais rápido que a luz

Segundo cientistas, partícula subatômica não apresentou nível de energia esperado para viagem mais veloz que a luz

estadão.com.br com agências internacionais,

21 de outubro de 2011 | 12h36

Um experimento científico independente está questionando a descoberta de um neutrino mais rápido que a luz, anunciada pela Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern, na sigla em francês) em setembro. Segundo o site da revista Nature, o trabalho, publicado no site arXiv.org, afirma que as partículas subatômicas não apresentaram o nível de energia previsto pela experiência do Cern para uma partícula que estaria viajando mais rápido que a luz.

 

O Icarus, diferentemente do Opera, não mede a velocidade dos neutrinos diretamente e mostrou que o espectro de energia dos neutrinos não correspondeu ao esperado para o caso das partículas serem realmente mais rápidas que a luz. Segundo os cientistas, o espectro de energia apresentado pelo Opera apresentou as mesmas inconsistências, não obedecendo ao efeito Cohen-Glashow.

 

O efeito Cohen-Glashow é, segundo a revista Nature, a extensão do fato de que a velocidade de uma viagem na velocidade da luz através de materiais, como a água, é mais lenta que no vácuo. E partículas carregadas, como elétrons, são capazes e exceder essa menor velocidade quando viajando no vácuo e, quando isso acontece, eles apresentam um espectro de energia alterado. 

 

Os cientistas concluíram que os neutrinos do experimento do Cern teriam esse mesmo comportamento, no entanto, o espectro de energia alterado não foi detectado.

 

A descoberta. O Cern anunciou no dia 22 de setembro que partículas fundamentais, conhecidas como neutrinos, são capazes de viajar a uma velocidade mais rápida que a da luz. Antonio Ereditato, porta-voz dos cientistas, disse que medições recolhidas nos últimos três anos mostraram que um feixe de neutrinos produzido na Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern, na sigla em francês), próximo a Genebra, percorreu 732 quilômetros no subsolo e atingiu o Laboratório de Gran Sasso, na Itália, 60 nanossegundos mais rápido que a luz (mais informações nesta página).

 

"Nós temos grande confiança nos resultados. Checamos e rechecamos todas as possíveis fontes de erros e não encontramos nada", afirmou Ereditato. "Queremos agora que outros cientistas verifiquem tudo de forma independente", disseram os cientistas na época do anúncio. Se confirmada, a descoberta comprometerá a teoria da relatividade especial, formulada por Albert Einstein em 1905, que diz que a velocidade da luz é uma constante cósmica e nada no universo poderia viajar mais rápido.

 

A descoberta, totalmente inesperada segundo os cientistas, surgiu no contexto do Projeto Opera, uma iniciativa conjunta do Cern e do laboratório italiano. Cerca de 15 mil feixes de neutrinos - partículas subatômicas que vagam pelo universo e não costumam interagir com a matéria - foram produzidos durante três anos no Cern e enviadas para o Gran Sasso, onde eram capturadas por detectores gigantes.

 

A luz teria percorrido a mesma distância - de 732 quilômetros - em 2,4 milésimos de segundo. Os neutrinos levaram um tempo 60 bilionésimos de segundo menor. "É uma diferença minúscula", afirmou Ereditato, que também leciona na Universidade Berna, na Suíça. "Mas conceitualmente é incrivelmente importante."

 

 

 

O pesquisador, no entanto, não quis comentar o que acontecerá se outros cientistas confirmarem os resultados. "O achado é tão impressionante que, por enquanto, todos devemos ser prudentes", disse. "Nem quero pensar nas implicações."

 

Confirmação. Um resultado semelhante havia sido obtido em 2007, nos Estados Unidos. Cientistas detectaram neutrinos enviados do Fermilab, em Illinois, chegando aos detectores do Projeto Minos, em Minnesota, antes do tempo previsto. Mas como o experimento não possuía controles muito confiáveis, a descoberta foi encarada com ceticismo. Agora, com o anúncio do achado europeu, os americanos querem repetir o experimento com mais cuidado. 

 

A existência dos neutrinos, um elemento subatômico com massa muito pequena e produzido no decaimento radioativo ou em reações nucleares foi confirmada em 1934. Contudo, ainda intriga os cientistas. Em um único dia, milhões de neutrinos produzidos pelo Sol atravessam o corpo humano.

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