Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Pesquisa na cidade de São Paulo mapeará coronavírus em bairro para rastrear imunidade

Imunidade coletiva é fundamental para que os governos possam planejar, após o pico da covid-19, a flexibilização das medidas restritivas

Bia Reis, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 05h00

Cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) se preparam para iniciar um projeto-piloto com o objetivo de descobrir quantas pessoas já estão imunes ao novo coronavírus na região da capital paulista que abrange os bairros de Itaim-Bibi, Jardim Paulista, Pinheiros, Perdizes, Barra Funda, Lapa, Alto de Pinheiros, Vila Leopoldina, Jaguara e Jaguaré. A chamada imunidade coletiva é fundamental para que os governos possam planejar, após o pico da covid-19, a flexibilização das medidas restritivas, sem risco de uma segunda onda de infecção.

Assim como ocorre com os outros vírus da família corona, pesquisadores acreditam que, ao entrarmos em contato com o Sars-cov-2, ficamos imune a ele. Acontece que o número de pessoas com anticorpos para o novo coronavírus é desconhecido. Por falta de testes, apenas pacientes em estado grave têm sido testados no Brasil. Estima-se que, entre os infectados, 80% desenvolvam sinais leves da doença, como cansaço, febre ou dor de garganta, e 20% necessitem de assistência médica. 

“O estudo vai medir o porcentual de pessoas imunes ao vírus na população em geral. São essas pessoas que, ao entrarem novamente em contato com o novo coronavírus, não vão desenvolver nem transmitir a doença. Como falamos mais dos mortos e dos pacientes graves, os casos leves ou assintomáticos ficam completamente invisíveis”, afirma Beatriz Tess, professora e pesquisadora do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP. O projeto, que será financiado pelo Instituto Semeia, em parceria com o Grupo Fleury e o Ibope, aguarda aprovação na Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).

Para o estudo, o Ibope utilizará uma metodologia conhecida como amostra probabilística, que permite apontar, com base em um determinado número de testes, o porcentual da população infectada na região analisada. Serão sorteadas de forma aleatória 720 residências, que receberão a visita de um pesquisador e um enfermeiro. Em cada uma das casas, um morador com mais de 18 anos será sorteado e convidado a participar. 

O selecionado terá de preencher um questionário e doar um pouco de sangue, que será retirado por meio de pulsão intravenosa, como ocorre em um laboratório. No fim do estudo, receberá o resultado do exame e saberá se está ou não imune ao Sars-cov-2.

Para informar a população, o Ibope entregará folhetos na zona oeste e as casas sorteadas receberão uma carta de esclarecimento, com telefones tanto do Ibope quanto do Fleury. Segundo Márcia Cavallari Nunes, CEO do Ibope, a campanha de comunicação é importante porque a região, que abriga residências de classes média e alta, é conhecida pelo alto índice de recusa em pesquisas. “Mas acreditamos que as pessoas terão interesse em participar, porque, além de contribuir com a ciência, saberão se estão imunes ao vírus.”

“Definimos o tamanho da amostra levando em conta recursos e a capacidade operacional. Para termos um resultado confiável, precisamos que pelo menos 500 pessoas aceitem participar”, afirma a epidemiologista Maria Cecília Goi Porto Alves, pesquisadora do Instituto de Saúde, da Secretaria de Estado de Saúde, também envolvida no projeto-piloto. A pesquisa nas ruas deve demorar de três a quatro dias.

De acordo com o infectologista Celso Granato, diretor-clínico do Grupo Fleury, foram levados em consideração dois aspectos para a escolha do teste utilizado na pesquisa: qualidade e possibilidade de fornecimento em escala. “Avaliamos uma variedade muito grande de testes rápidos e a maioria não é de boa qualidade. Há alguns bons, mas precisamos que haja disponibilidade para as próximas etapas da pesquisa.”

Edgar Rizzatti, diretor executivo médico e técnico do Fleury, aponta ainda outra vantagem do teste sorológico em relação ao rápido. “Ele é quantitativo, ou seja, vamos conseguir dimensionar a quantidade de anticorpos produzidos pelo organismo em resposta ao vírus.” Com esse dado, os pesquisadores poderão, por exemplo, cruzar a quantidade de anticorpos com os sintomas (ou a ausência deles) descritos pelo morador testado.

A ideia é que neste projeto-piloto seja estruturada toda a dinâmica da pesquisa – da metodologia à logística, incluindo a abordagem da população – para que ela possa ser replicada, explica o biólogo Fernando Reinach, colunista do Estado, que aglutinou o grupo de cientistas ao redor da proposta. “Depois vamos refazer o estudo na mesma área, com uma determinada frequência, para acompanharmos o avanço do vírus. E queremos expandir para toda a cidade, quem sabe para todo o Estado e o País. Sabendo o porcentual da população imune ao vírus em uma certa área, os gestores poderão pensar até em estratégias regionalizadas de flexibilização do isolamento.”

O projeto-piloto fará uma fotografia do atual cenário do coronavírus. Para acompanhar o avanço da doença será preciso refazer a pesquisa a cada duas ou três semanas – o prazo será decidido de acordo com diversos fatores, entre eles o aumento do número de mortes. Pedro Passos, fundador do Instituto Semeia, que está bancando os cerca de R$ 400 mil necessário para a primeira parte da pesquisa, acredita que não faltarão recursos para as próximas etapas. “A pandemia reuniu o setor privado, ONGs, a sociedade como um todo. Nunca havia visto uma mobilização como esta para atuar em uma crise.” Parceiros do projeto, o Ibope e o Grupo Fleury não cobraram os valores de mercado para o trabalho. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.