Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Pesquisa sobre imunidade dos paulistanos ao coronavírus começa nesta quinta em seis bairros

Projeto-piloto vai entrevistar e coletar sangue dos moradores do Morumbi, Bela Vista, Jardim Paulista, Pari, Belém e Água Rasa

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2020 | 05h00

Cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) iniciam nesta quinta-feira, 30, uma pesquisa com o objetivo de estimar a porcentagem dos moradores de seis bairros na capital paulista que já tiveram contato com o coronavírus e desenvolveram anticorpo. Essas pessoas devem ser resistentes ao vírus e provavelmente não vão desenvolver a doença.

Utilizando dados da Secretaria Municipal de Saúde, o projeto-piloto vai entrevistar e coletar sangue dos moradores de três bairros com maior número de casos confirmados de covid-19 (Morumbi, Bela Vista e Jardim Paulista) e também dos três com mais óbitos (Pari, Belém e Água Rasa). A escolha dos distritos representa uma readequação da linha inicial da pesquisa às regiões mais sensíveis ao vírus. O plano inicial era investigar os locais com maior número de casos.

O projeto é fruto de uma parceria das universidades públicas com a iniciativa privada. Os questionários serão aplicados pelo Ibope Inteligência e as coletas ficam sob a responsabilidade do Grupo Fleury. Os dois parceiros do projeto não cobraram os valores de mercado para o trabalho. O financiamento de R$ 400 mil para a primeira parte da pesquisa fica por conta do Instituto Semeia. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) e a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).

Ao todo, serão sorteadas 720 residências, que receberão a visita de um pesquisador e um enfermeiro. Em cada casa, um morador maior de idade será sorteado. Os outros moradores da residência, se desejarem, também poderão ser analisados. Se aceitarem participar, as pessoas irão preencher um questionário e doar um pouco de sangue venoso, como em um laboratório. No fim do estudo, todos os analisados receberão o resultado do exame pelo correio e saberão se estão ou não imunes. Não há custos para participar. O infectologista Celso Granato, diretor-clínico do Grupo Fleury, destaca a acurácia do teste sorológico, modalidade escolhida para o estudo. “Optamos por esse teste depois de avaliar cerca de 300 amostras de pacientes. Ele teve performance boa, com sensibilidade superior a 90%”, diz.

Márcia Cavallari Nunes, CEO do Ibope, explica que vai aplicar o método de amostra probabilística, capaz de apontar o porcentual da população infectada na região analisada a partir de um determinado número de testes. A quantidade de entrevistas vai ser proporcional à população de cada bairro. Um dos desafios do projeto-piloto é superar a taxa de recusa dos moradores, que gira em torno de 30%. A epidemiologista Maria Cecília Goi Porto Alves, pesquisadora do Instituto de Saúde, da Secretaria Estadual de Saúde, também envolvida no projeto-piloto, afirma que pelo menos 500 pessoas devem participar para que o resultado seja confiável. Se um morador se recusar, ele não pode ser substituído por causa da regras do método estatístico.

Para conscientizar os moradores, o Ibope entregará folhetos nos locais de coleta entre hoje e sábado. “Embora a taxa de recusa seja elevada em algumas regiões, nós estamos em condições mais favoráveis, pois as pessoas estão em casa por causa do isolamento social. Além disso, é um teste que todo mundo gostaria de fazer”, avalia Márcia.

Trabalho será de compor quebra-cabeça

A imunidade dos moradores é um dado importante para compor o quebra-cabeças do enfrentamento à pandemia. De acordo com Beatriz Tess, professora e pesquisadora do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, essa informação deverá se somar a outros dados, como a ocupação dos leitos de UTI, por exemplo, para ajudar o governo a planejar a flexibilização das medidas restritivas que foram adotadas no dia 24 de março para evitar a propagação do vírus. “Testar pessoas, independentemente dos sintomas, vai oferecer um dado muito importante. Entender como o vírus se comporta na população em geral, não somente nos casos graves, pode ajudar gestores a planejarem medidas regionalizadas de flexibilização do isolamento social”, explica.

O governador João Doria (PSDB-SP) decretou o isolamento social para tentar evitar a disseminação do novo coronavírus. O comércio em geral foi obrigado a fechar, com exceção dos serviços essenciais, como saúde, alimentação e segurança. O poder estadual estuda flexibilizar as restrições a partir do dia 11 de maio, mas condiciona essa reabertura à elevação dos índices de isolamento social. Os índices têm oscilado entre 47% e 59%. Nesta terça-feira, o número foi 48%. O ideal é 70%.

O biólogo Fernando Reinach, colunista do Estado, responsável por reunir os cientistas do projeto-piloto, afirma que esse estudo pode ser aperfeiçoado a partir dos aprendizados obtidos com o projeto-piloto e, com isso, tornar-se uma prática rotineira de verificação do comportamento do coronavírus. “Devemos refazer o estudo, com uma determinada frequência, para acompanharmos o avanço do vírus na cidade”, explica o especialista.

Pedro Passos, fundador do Instituto Semeia, aposta na expansão do projeto. “Queremos estimular essa parceria entre as esferas pública e privada para caminharmos rapidamente e termos resultados substantivos. Numa segunda parte, nosso objetivo é levar o projeto para toda a cidade de São Paulo”, avalia.

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