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Pesquisa sugere que proteína do corpo humano poderia ser usada para tratamento da dengue

Estudo da UFMG é o primeiro a identificar que molécula anti-inflamatória funciona como indicador da severidade da dengue e como 'freio' de hemorragias

Isabela Moya, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2022 | 15h00

Nos dois primeiros meses deste ano, houve alta de 35,4% nos casos de dengue no Brasil, segundo o Ministério da Saúde. Foram registrados 30 óbitos e 128.379 casos. Não há um tratamento específico para a dengue, mas os resultados de uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) representam um avanço na identificação da gravidade da doença e podem servir para que, futuramente, seja desenvolvido um tratamento próprio para a arbovirose.

O estudo, que teve início em 2015 e foi publicado em março deste ano na revista científica internacional eLife, descobriu que pacientes com dengue grave têm uma redução de uma proteína presente no corpo humano responsável por ‘frear’ o agravamento da doença, em comparação com pacientes com a forma leve da dengue, que possuem uma maior quantidade da dessas moléculas anti-inflamatórias, ou ainda em relação a pacientes saudáveis. Isso significa que a proteína Anexina A1 funciona como um biomarcador da dengue, ou seja, é um dos indicadores de severidade da doença.

Vivian Costa, autora da pesquisa ao lado de Michelle Sugimoto, afirma que o trabalho é o primeiro a identificar a importância dessas moléculas em uma doença infecciosa. “Já existiam trabalhos mostrando que essas proteínas que freiam a inflamação são importantes para controlar as doenças que não são causadas por micro-organismos – como artrite, reumatoide e asma –, mas não existia nenhum indício de que isso funcionava para doenças infecciosas como a dengue, extremamente relevante no contexto brasileiro”, explica a pesquisadora e professora da UFMG.

Uma hipótese levantada com base nos resultados é de que essa proteína possa ser usada para tratar a doença, em associação com drogas antivirais e outros medicamentos. Mas é necessário validar a hipótese por meio de testes em humanos, explica Vivian. “Fizemos testes em camundongos. Em alguns deles retiramos essa proteína, e outros continuaram com a molécula. Percebemos que, após mimetizar a doença, aqueles que não tinham a proteína desenvolviam uma dengue mais grave em relação àqueles que possuíam a molécula, resultado bastante parecido com o que verificamos na análise do sangue de pacientes", diz ela. 

Outro teste feito pelas pesquisadoras foi usar um ‘pedacinho’ da proteína para tratar os camundongos com dengue. “O resultado foi que a gente reverteu a doença grave, sugerindo que isso poderia ser utilizado não apenas como biomarcador, mas também como tratamento”, explica a pesquisadora, reforçando a necessidade de que esses testes sejam replicados em pacientes humanos, para verificar se a aplicação da proteína Anexina A1 no sangue é suficiente para a melhora do quadro da dengue.

Ela esclarece que já existem testes clínicos – em humanos – sendo realizados com porções dessa molécula para verificar a interação com outras doenças, o que indica que é possível que testes sejam feitos também para a dengue. “Obviamente, a gente precisa de recursos, porque desenvolver testes clínicos requer muitos gastos. Precisamos de investimento na pesquisa para que ela evolua”, diz Vivian. O próximo passo do grupo de pesquisadores, coordenado pelo professor Mauro Teixeira, é descobrir se essas moléculas que freiam a inflamação também atuam em outras doenças virais como a covid-19, a febre chikungunya e a zika - estas duas últimas também transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti.

Além disso, a pesquisa avaliou também o mecanismo de atuação da proteína Anexina A1. Vivian explica que ela atua nos mastócitos, célula do corpo responsável por gerar sangramento e que é ativada pelo vírus da dengue, causando sangramentos e choque. “Descobrimos, por meio dos testes in vitro e em animais, que a proteína consegue modular a ativação dessas células que causam hemorragia, deixando ela menos ativada, então os pacientes têm menos hemorragia”, diz a cientista, que recebeu em 2020 o prêmio do programa Para Mulheres na Ciência pela pesquisa. O prêmio, concedido pela Unesco Brasil, Academia Brasileira de Ciências (ABC) e L’Oreal Brasil, é destinado a jovens mulheres cientistas que conduzem projetos de alto mérito.

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