Gustavo Queiroz/EPO
Gustavo Queiroz/EPO

Pesquisadora cria absorvente para melhorar higiene menstrual de pessoas de baixa renda

Protótipo biodegradável usa fibras de bambu e banana, espuma de soja ou celulose e tem camada impermeável

Julio Cesar Lima, especial para o Estadão

12 de junho de 2022 | 05h00

CURITIBA – A designer de produtos paranaense Rafaella de Bona Gonçalves, de 25 anos, desenvolveu absorventes e tampões biodegradáveis para melhorar a higiene menstrual das pessoas em situação de vulnerabilidade. O estudo e o trabalho renderam a ela a indicação para a primeira edição do Young Inventors Prize do Escritório Europeu de Patentes (European Patent Office, EPO). Os vencedores serão anunciados no dia 21.

Rafaella disse ter se inspirado na necessidade encontrada pelas pessoas mais vulneráveis e na forma como isso as afetava. “O design social e o sustentável sempre foram os que brilharam mais os meus olhos. Nos meus projetos, eu tento visar ao social e ao sustentável. Esse é um dos propósitos de minha profissão, um jeito de deixar o mundo um pouco melhor. Desde a faculdade, meus professores mostraram esse caminho do design social e sustentável .Foi o que me inspirou mais. Resolvi pesquisar a respeito dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. O primeiro desses objetivos é acabar com a pobreza, então, vi o aspecto da pobreza menstrual”, relatou.

Mesmo com esse incentivo, e com a indicação ao prêmio Rafaella ressalta algumas dificuldades para uma futura produção em escala comercial dos absorventes desenvolvidos por ela. “Os protótipos que estamos fazendo são feitos de forma manual. Essa é uma das dificuldades de desenvolver e produzir em escala, pois não temos maquinário para isso, a gente não dá conta. É mais para teste mesmo. Assim que a gente tiver um maquinário, vai ficar mais viável fazer estudo sobre a matéria prima e escolher aquela que seja biodegradável, mas que possua um poder de escala. Por isso, estamos estudando várias matérias primas”, disse.

O projeto atual, segundo os responsáveis, usa uma fibra de bambu macia para a primeira camada; fibra de banana, espuma de soja ou celulose de madeira para a segunda; e uma camada externa impermeável e biodegradável. A banana, a fibra, é fornecida pela cooperativa Rede Mulheres de Fibra, que também fabrica outros produtos com resíduos de banana e emprega mulheres carentes.

Rafaella disse que no futuro será necessário dar atenção às questões ligadas à vigilância sanitária. “Como ele não foi para o mercado, ainda está na fase de prototipação, e ainda estamos estudando os materiais, de que forma será o maquinário e como o absorvente se comporta no ciclo menstrual, a gente ainda não fez nenhuma aprovação com a Vigilância. Porém, para que ele vá para o mercado, como é um item de higiene, precisará passar por aprovação.”

Preconceito

Para a designer, houve mudanças de comportamento em relação ao tema da pobreza menstrual, que antes, segundo ela, era percebido com certo preconceito. “Houve uma melhora, desde que eu comecei o projeto, em 2018. Naquela época, quando falava com autoridades políticas, algumas não davam muita bola e chegaram a falar: ‘Ah, agora tenho que me preocupar até com menstruação’. Isso me chocava bastante. Havia muito preconceito, pois era um projeto voltado para pessoas em vulnerabilidade e em situação de rua”, afirma.

“Acredito que, de lá pra cá, mais gente passou a conhecer o problema da pobreza menstrual, que ficou ainda maior depois da pandemia. A própria ONU fala sobre isso e há uma luta para que as políticas públicas enfrentem a questão. Mas ainda há muito pelo que batalhar nessa área , assim como para exigir das autoridades”, ressalta.

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