RICARDO LIMA/AE
RICARDO LIMA/AE

Pesquisadores brasileiros criam teste capaz de prever risco de obesidade e diabete

Método tem 96% de precisão e utiliza inteligência artificial combinada com o estudo de moléculas ligadas ao processo de acúmulo de gordura no organismo

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2020 | 08h00

A combinação de inteligência artificial e o estudo de moléculas ligadas ao processo de acúmulo de gordura no organismo levou pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolverem uma tecnologia capaz de identificar se uma pessoa tem predisposição para engordar e desenvolver doenças como diabete e hipertensão. Com mais de 95% de precisão, o método pode ser usado mesmo que o paciente não seja obeso e funciona como uma estratégia para que ele receba orientações para mudar o estilo de vida antes de apresentar o quadro.

A nova técnica utiliza um software que foi treinado para identificar a presença de moléculas capazes de predizer se uma pessoa pode desenvolver o excesso de peso e doenças associadas. A tecnologia lê os resultados de análises de amostras de sangue feitas por um equipamento chamado espectrômetro de massas, que faz o mapeamento das moléculas.

"Na minha tese de doutorado, decidimos fazer um estudo de biomarcadores de ganho de peso por metabolômica, que é o estudo das pequenas moléculas de um organismo, do produto final do metabolismo do nosso corpo. O grande diferencial desse trabalho é a utilização de técnicas da inteligência artificial para chegar ao biomarcador", explica Flávia Luísa Dias Audibert, nutricionista e doutoranda da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.

Dos 18 biomarcadores analisados, cinco se enquadraram no perfil do estudo: quatro são ligados a processos inflamatórios e produção de radicais livres e um de diabete relacionada com quadros de obesidade.

"A inflamação já está bem descrita na literatura como um processo relacionado à obesidade. O ganho de peso é um processo inflamatório de baixo grau, não é como quando se tem uma bactéria. Não é visível e não tem sintomas, como febre. Os radicais livres têm a mesma relação e, além disso, estão ligados com o envelhecimento."

Segundo Flávia, os dados de 180 pacientes, entre pessoas com peso normal e acima do peso, foram utilizados para "treinar" o software. "A precisão de acerto desses biomarcadores é de 96%. Para esse modelo, quanto mais amostras receber, mais preciso ele fica", diz Flávia.

Os resultados da pesquisa, que recebeu incentivo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), foram publicados na revista Frontiers in Bioengineering and Biotechnology.

Futuro

Diante do aumento no Brasil da obesidade e doenças associadas - como diabete e hipertensão -, o método pode ser um aliado na prevenção desses casos.

"É uma ferramenta de apoio para a intervenção nutricional e o cuidado clínico. Sabemos que parte da população está obesa, e isso tem um peso muito grande na saúde pública."

Em julho do ano passado, o Ministério da Saúde apresentou um levantamento que apontou aumento de 67,8% no número de pessoas obesas no período de 2006 a 2018 no País. Em 2018, 19,8% da população era considerada obesa.

Os dados, da Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), mostraram ainda que mais da metade da população está acima do peso (55,7%).

Segundo relatório de 2019 da Federação Internacional de Diabete, há 16,8 milhões de pessoas de 20 a 79 anos que vivem com a condição no Brasil.

Flávia estima que, com investimento público e privado na tecnologia, é possível que a técnica esteja disponível para a população em cinco anos.

Mesmo assim, o grupo já liberou os códigos do programa para download gratuito. "Qualquer pesquisador que tenha acesso a um espectrômetro de massa pode fazer a análise de dados."

Coordenador do trabalho, Rodrigo Ramos Catharino, que é professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unicamp, explica que o teste utiliza técnicas que podem ser adotadas com as tecnologias disponíveis e poderiam ser utilizadas tanto na rede privada quanto no Sistema Único de Saúde (SUS).

"A gente sempre pensa em devolver para a sociedade o que a gente recebe. Estamos preocupados com a qualidade de vida das pessoas que ganham peso, e não há nada parecido no mercado. Desenvolvemos coisas simples e aplicáveis para que as pesquisas cheguem às pessoas, para que a tecnologia brasileira chegue e beneficie a população", afirma Catharino, que também é coordenador Laboratório Innovare de Biomarcadores da universidade.

 

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