National Institutes of Health (NIH)
Coronavírus visto de uma imagem de microscópio National Institutes of Health (NIH)

Pesquisadores brasileiros sequenciam genoma do coronavírus identificado no País

Apenas 48 horas depois da identificação do primeiro caso nacional da doença, cientistas do Instituto Adolfo Lutz, da USP e da Universidade de Oxford conseguiram decifrar o vírus que chegou no Brasil

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2020 | 18h42

SÃO PAULO - Em apenas 48 horas desde a confirmação do primeiro caso brasileiro de infecção pelo novo coronavírus, pesquisadores brasileiros conseguiram sequenciar o genoma do vírus que chegou ao País. Acompanhe as últimas notícias sobre o coronavírus em tempo real.

O trabalho foi conduzido por cientistas do Instituto Adolfo Lutz, do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da USP e da Universidade de Oxford. Eles fazem parte de um projeto chamado Cadde, apoiado pela Fapesp e pelo Medical Research Centers, do Reino Unido, que desenvolve novas técnicas para monitorar epidemias em tempo real.

Conhecer os genomas completos do vírus, que recebeu o nome de SARS-CoV-2, nos vários locais onde ele aparece, é importante para  compreender como se dá sua dispersão e para detectar mutações que possam alterar a evolução da doença. Isso pode ajudar no desenvolvimento de vacinas e de tratamentos.

A amostra, retirada do paciente de 61 anos de São Paulo, que tinha passado quase duas semanas na região da Lombardia, a mais afetada da Itália, confirma que ela veio da Europa. É geneticamente parecida com a de um genoma sequenciado na Alemanha. 

Pesquisadores italianos já isolaram o vírus que circula no país, mas não depositaram ainda o sequenciamento do genoma em nenhum banco público para comparação.

“Uma sequência só não revela muita coisa, mas a importância é mostrar que rapidamente somos capazes de fazer e colocar isso à disposição de outros cientistas do mundo. Quanto mais genomas tivermos, mais podemos entender como a epidemia vai evoluindo no mundo. Por isso precisamos ter isso muito rapidamente”, explicou ao Estado a pesquisadora Ester Sabino, do Instituto de Medicina Tropical.

Em média, no resto do mundo, os grupos de pesquisa estão levando cerca de 15 dias para conseguir fazer o sequenciamento. O projeto brasileiro foi lançado justamente com o objetivo de agilizar esse processo, para ajudar a fornecer informações com mais rapidez.

“Temos trabalhado para desenvolver uma tecnologia rápida e barata. Todos os casos que forem confirmados no Adolfo Lutz serão sequenciados. A ideia é fornecer informações que possam ser usada para entender a epidemia em curso, para que outros cientistas possam comparar os dados. Essa cadeia de informação de todo mundo junto é importante para o mundo poder responder à epidemia", diz.

Segundo ela, há pequenas mutações, mas a taxa de variação deste vírus é até baixa. 

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Casos suspeitos de coronavírus no Brasil chegam a 182, diz Ministério da Saúde

Dado foi atualizado nesta sexta. País segue com um caso confirmado, em São Paulo, onde um homem de 61 anos está em isolamento domiciliar. OMS diz que vírus está em 46 países

Daniel Weterman e Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2020 | 17h10
Atualizado 28 de fevereiro de 2020 | 19h33

BRASÍLIA - O número de casos suspeitos de infecção pelo novo coronavírus, o Covid-19, no Brasil aumentou de 132 para 182, de acordo com plataforma do Ministério da Saúde atualizada às 16h10 desta sexta-feira, 28. O País segue com um caso confirmado, o de um homem de 61 anos na capital paulista que está em isolamento domiciliar. Acompanhe as últimas notícias sobre o coronavírus em tempo real.

Das notificações suspeitas, 71 foram descartadas. A maioria dos casos suspeitos está em São Paulo (66), no Rio Grande do Sul (27) e em Minas Gerais (17).  O ministério destacou que os casos suspeitos do novo coronavírus só passarão a ser classificados dessa forma se a pessoa monitorada tiver febre, um sintoma a mais (como tosse e dificuldade respiratória) e ter viajado para um dos 16 países em alerta nos últimos 14 dias. 

Assista à entrevista concedida pelo Ministério da Saúde sobre o coronavírus nesta sexta

 

#AoVivo - Ministério da Saúde atualiza situação sobre o #coronavírus

Publicado por Ministério da Saúde em  Sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

O Ministério da Saúde divulgou nesta sexta os primeiros vídeos da campanha de prevenção ao novo coronavírus. As peças divulgadas nas redes sociais dão dicas sobre formas de contágio, (como a transmissão por saliva, tosse, espirro e aperto de mãos) e orientações sobre ambientes (como evitar aglomerações e manter espaços ventilados). A propaganda também orienta sobre quando procurar uma unidade de saúde.

Os vídeos foram divulgados no canal do ministério no Youtube. O governo também divulgou na internet um terceiro vídeo, apenas para redes sociais, com etiquetas de higiene ao tossir e espirrar.

Assista ao vídeo do Ministério da Saúde sobre prevenção ao coronavírus

OMS aponta coronavírus em 46 países

O número de casos do novo coronavírus tem se estabilizado na China, epicentro da doença, mas se espalhado para mais regiões do mundo. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentados pelo Ministério da Saúde nesta sexta-feira, 28, apontam para 46 países com casos confirmados - 9 novos desde quinta-feira, 27.

O mundo registrou até o momento 2.804 mortes pelo novo vírus, sendo 42 óbitos entre quinta e sexta-feira. O índice de letalidade na média global é de 3,4% desde dezembro, sendo 1,6% fora da China. Pela primeira vez, a Coreia do Sul registrou mais casos novos (505) que a China (439), onde os primeiros registros da doença foram identificados.

"Temos uma tendência de estabilização de casos na China e aumento em outros países, principalmente a partir de Coreia do Sul e Itália", disse o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira, durante coletiva de imprensa. O Ministério da Saúde reiterou o pedido para a OMS atualizar a classificação do coronavírus como uma "pandemia" global.

"Esta mudança vai implicar numa redução de busca de relação com o local provável de infecção e vai nos permitir focar principalmente nos grupos etários mais vulneráveis, que são adultos com mais de 60 anos", afirmou Oliveira.

Edital será lançado para compra de leitos de UTI

O Ministério da Saúde anunciou que vai publicar ainda nesta sexta-feira, 28, um edital para compra de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Serão comprados blocos de dez leitos para serem instalados em hospitais de referência caso sejam necessárias internações. 

Pela licitação, de acordo com o secretário-executivo do ministério, João Gabbardo dos Reis, a empresa vencedora da licitação terá de ir aos hospitais e instalar os equipamentos de UTI em uma semana. Além disso, a mesma companhia será responsável pela manutenção dos aparelhos e terá prazos específicos para resolução de eventuais problemas. 

Além da licitação, municípios, Estados e hospitais poderão fazer parcerias com o Ministério da Saúde para instalação de outros leitos de tratamento intensivo, disse Gabbardo. A orientação a pacientes com casos suspeitos e confirmados de coronavírus tem sido isolamento em casa até o desaparecimento dos sintomas. 

Uma edição extra do Diário Oficial da União será publicada nesta sexta-feira, anunciou o secretário. Além dos leitos da UTI, a pasta lançará editais para comprar  máscaras e aventais e vai publicar contratos para aquisição de outros 16 produtos já licitados, como álcool em gel. 

A demanda pode levar o Ministério da Saúde a demandar um reforço orçamentário no caixa. Para 2020, o orçamento do ministério é calculado em aproximadamente R$ 130 bilhões. 

O ministério estima que gastará R$ 140 milhões para compra dos insumos após o País começar a monitorar a doença, cujos primeiros registros ocorreram em dezembro na China. O valor pode variar pela quantidade de insumos comprados e pela pressão do mercado frente à alta demanda.

"As despesas para aquisição desses equipamentos de proteção individual e dos leitos estão dentro do nosso orçamento. Dependendo do tamanho que a epidemia tiver, da quantidade de internações necessárias e das áreas de UTI, nós vamos precisar de algum reforço orçamentário", afirmou o secretário-executivo do ministério, João Gabbardo dos Reis. 

A pasta está contabilizando os gastos com o coronavírus separadamente das demais despesas do ministério, detalhou Gabbardo. Caso seja necessário, o governo poderá encaminhar um projeto de lei ao Congresso Nacional para reforçar o orçamento da pasta ou, se considerar a situação como urgente, fazer o acréscimo por meio de medida provisória.

Sequenciamento genético

Em coletiva de imprensa, o Ministério da Saúde também noticiou que o Instituto Adolfo Lutz publicou o sequenciamento genético do novo coronavírus após a identificação de um paciente brasileiro com a doença.

"Isso ajuda no desenvolvimento de testes diagnósticos e de uma série de outros desenvolvimentos tecnológicos. Tem um peso muito grande", afirmou o secretário de Vigilância em Saúde da pasta, Wanderson Oliveira.

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Quem decide a alta é só o médico, diz presidente do Cremesp após 'fuga' de hosptial

Mario Jorge Tsuchiya comentou o caso do paciente que deixou o Hospital São Paulo por vontade própria. Para ele, a instituição deveria fazer um boletim de ocorrência relatando evasão

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2020 | 18h20

A alta é uma prerrogativa do médico e pacientes não podem decidir quando sairão do hospital. Essa é a opinião do presidente do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), Mario Jorge Tsuchiya, ao comentar a saída de um paciente suspeito de coronavírus do Hospital São Paulo, na zona sul da capital, nesta quinta-feira. 

Como o Estado revelou, o paciente voltou esta semana de uma viagem à Itália e apresentou sintomas de gripe. O primeiro exame para coronavírus deu negativo, mas ele foi colocado na área de isolamento da instituição e aguardava o resultado da contra-prova, um segundo teste feito pelo Instituto Adolfo Lutz

Foi quando o homem resolveu ir para a casa. "Quem determina a alta é o médico, enquanto ele estiver no hospital a responsabilidade é do hospital. Se não teve alta, algum motivo teve para ele ficar", diz Tsuchiya. Para ele, o Hospital São Paulo "teria a obrigação" de fazer um boletim de ocorrência relatando a evasão do paciente para se resguardar de ser responsabilizado depois. "Configura uma evasão de um local que ele deveria estar para própria segurança e para a segurança da sociedade", completa.

Ao comentar o caso em coletiva de impresa nesta sexta-feira, o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira, disse que o Ministério da Saúde vai orientar os hospitais e unidades de saúde a irem atrás de pacientes suspeitos de infecção pelo novo coronavírus que abandonarem os exames.

O protocolo, segundo o secretário, será tentar identificar o destino do paciente e investigar onde esteve e com quem manteve contato. “O fato de ter dado negativo não significa que é coronavírus”, ressalvou Oliveira. “Não estamos vivendo uma epidemia, vamos com calma. Ele (paciente) ficará em isolamento respiratório (domiciliar) se necessário”, disse.

Um familiar do paciente que conversou com a reportagem afirmou que ele deixou o hospital porque foi "negligenciado" e chegou a fazer um boletim de ocorrência relatando o ocorrido. Ele teria ficado sem cobertores e sem comida. Também não teria sido informado corretamente dos procedimentos adotados. O paciente não quis dar entrevista e pediu para não ter seu nome publicado. Segundo este familiar, ele passa bem e está sendo assessorado por médicos particulares. 

Procurado, o Hospital São Paulo informou, em nota, que "houve cuidado e respeito ao paciente e foram seguidas as recomendações oficiais para a assistência ao paciente em risco de infecção pelo coronavirus". Não foi informado se a instituição registrou a saída do paciente. A nota do hospital diz ainda: "O paciente evoluiu com melhora do estado geral, afebril durante a internação. Os exames laboratoriais e radiografia de tórax foram normais. Permaneceu internado aguardando os resultados da pesquisa viral. Por questões pessoais, o paciente não aceitou ficar internado, e encontra-se em sua residência sob acompanhamento da Unidade de Vigilância Sanitária do Município."

Na noite desta sexta-feira, o hospital também informou que está em contato constante com o paciente e que ele está em isolamento domiciliar "em função do referido paciente apresentar quadro clinico compatível com a recuperação em residência". 

Para o advogado Fabricio Angerami Poli, especialista na área de saúde, é de responsabilidade da instituição manter o paciente em observação para que não haja uma evasão. "Se ele saiu sem avisar o médico, difícil responsabilizá-lo, mas a institutição deve ter responsabilidade sobre o paciente, o médico não fica o tempo todo com ele. Em um caso como esse, o paciente deveria ter sido observado mais de perto."

Segundo ele, o caso é muito delicado e a legislação não deixa claro qual deveria ser a conduta do médico no caso da evasão. A medida provisória editada pelo governo Bolsonaro, e transformada em lei, este mês fala em  "realização compulsória" de exames, testes laboratoriais e tratamento médico. "A lei não deixa claro se deveria segurar o paciente nesse caso, mas na minha interpretação, ele deveria fica no hospital até o último resultado."

Em Paraty, a Justiça do Estado do Rio aceitou um pedido do município nesta sexta-feira para manter em internação hospitalar compulsória um casal de franceses com suspeita de ter contraído coronavírusEles queriam deixar a cidade, apesar de estarem em isolamento e esperando resultados de exames. 

 

 

 

 

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'Ainda é cedo para falar em cura', diz médico que lidera estudos sobre coronavírus

O gaúcho André Kalil diz que o mais importante é encontrar uma medicação que resolva os sintomas clínicos do vírus rapidamente

Gonçalo Júnior, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2020 | 16h28

O médico gaúcho André Kalil lidera um ensaio clínico na Universidade de Nebraska, nos Estados Unidos, para testar o remédio que é considerado o mais promissor na tentativa de combate à doença respiratória Covid-19. O infectologista de 53 anos afirmou ao Estado que a droga chamada remdesivir foi apontada pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) americanos como a de maior potencial em relação aos outros medicamentos. O remédio já apresentou efeitos contra doenças semelhantes, como a Sars, por exemplo, em animais e no ambiente laboratorial (in vitro).

O projeto, financiado pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), parte dos Institutos Nacionais de Saúde, pretende envolver mais 50 centros de pesquisa, dentro e fora dos Estados Unidos. O hospital da Universidade do Nebraska é especializado em contenção biológica e se tornou uma das poucas unidades do mundo a receber pacientes de ebola, por exemplo. De acordo com a universidade, este é o primeiro ensaio clínico nos Estados Unidos a avaliar um tratamento experimental.

Kalil revela que, na primeira fase da pesquisa, 200 pessoas infectadas vão receber doses do remdesivir; outras 200 serão tratadas com placebo. Visualmente, o placebo é idêntico ao remédio, mas sem efeito. “Quando chegarem os resultados dos primeiros cem pacientes, vamos tentar entender se há efeito. Em caso positivo, vamos trabalhar em cima dele. Se não, colocamos uma medicação nova”, afirma o médico formado pela Universidade Federal de Pelotas (RS), com residência na Universidade de Miami e que trabalha nos Estados Unidos há 20 anos.

Como são feitos os testes em busca de um remédio para o novo coronavírus?

O estudo envolve 400 pacientes. Duzentos pacientes vão receber um remédio chamado remdesivir e outros 200 vão receber placebo. Estamos ainda no início, mas a ideia é envolver 50 centros hospitalares, dentro e fora dos Estados Unidos. O estudo será conduzido de maneira rápida. Quando você limita o número de centros, a velocidade do estudo fica mais lenta. A ideia é tentar achar a melhor terapia o mais rapidamente possível. Começamos com o remdesivir, mas vamos começar a planejar outras medicações. Trata-se de um estudo adaptativo.

Como assim?

Se o remdesivir mostrar eficácia logo, ele será transferido para o grupo de controle de pacientes e trazemos uma droga nova para o grupo de intervenção. Se ele não funcionar, a gente utiliza uma droga nova. Vamos testar várias medicações novas no mesmo estudo. Por isso, a importância do termo “adaptativo”. Nós vamos nos adaptando. É um estudo dinâmico. A ideia não é testar uma só droga, mas quantas forem necessárias.

Por que esse remédio foi escolhido?

Nós avaliamos várias medicações que têm alguma atividade contra o vírus. De acordo com os dados científicos, o remdesivir se mostrou com a maior probabilidade de inibir o coronavírus. Esse foi o motivo pelo qual decidimos começar com o remdesivir. Mas, como se trata de uma atividade in vitro e também em animais, a gente precisa continuar com inúmeros testes para saber se ele tem atividade em seres humanos.

Como será a expansão para os outros centros médicos?

Planejamos envolver 50 centros inicialmente, talvez mais. A ideia é começar a expandir nos Estados Unidos e tentar envolver outros países.

Ainda é cedo para falar em cura da doença?

Sim. Ainda é cedo para falar em cura. Gostaríamos de encontrar uma medicação que tivesse a propriedade de curar, mas o objetivo mais importante do ensaio clínico é que as pessoas resolvam os sintomas clínicos rapidamente. É importante que elas saiam dos hospitais rapidamente e possam sobreviver à infecção. É um objetivo clínico que as pessoas melhorem e possam voltar às suas atividades normais. A questão de cura é relativa. Ela vai depender da medicação e da resposta de cada indivíduo.

Existem prazos definidos para esse estudo?

Não temos um prazo definido. O estudo foi planejado para três anos. A ideia é encontrar o mais rápido possível as drogas que funcionam e as drogas que não funcionam. Dependendo da evolução dos pacientes, nós podemos começar a identificar o que funciona e o que não funciona em poucos meses. Mas vai depender obviamente da progressão da situação atual.

O índice de letalidade preocupa?

O índice de letalidade hoje é de 2,5% e 3%. Certamente, o índice é mais baixo que a Sars, que era de 10%. Dos coronavírus, o atual é o que apresenta menor índice de letalidade. Por outro lado, nós temos de nos preocupar. Nos Estados Unidos, o índice de letalidade do influenza, nossa gripe forte, é em torno de 0,2% e 0,3%. Já tivemos entre 15 mil e 16 mil mortes só por influenza nesta estação. Aparentemente, o número parece baixo (2% a 3%), mas significa um número enorme de mortos. Temos de ver dos dois lados.

Uma situação como essa cria certa ansiedade e expectativa nas pessoas em relação à descoberta de medicamentos. Como conciliar a urgência com o rigor científico?

Em uma situação dessas, o pânico não ajuda em nada. O pânico faz com as pessoas deixem de fazer o que tem de ser feito, como lavar as mãos, por exemplo. Ela não ajuda nem no nível individual e também não ajuda no rigor da ciência. Não há nada de positivo. É preciso trabalhar de maneira racional mesmo em situações difíceis como essa. Em situações assim, o rigor científico tem de ser ainda mais observado. Em situações como o ebola e o H1N1, por exemplo, nós observamos oportunistas que querem oferecer terapias que não funcionam e podem causar até mortes. A ciência é a única maneira de descobrir o que funciona e aquilo que não funciona contra a epidemia. É muito importante fazer a ciência correta em um momento como esse. 

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Justiça autoriza internação compulsória de casal francês suspeito de ter coronavírus

A dupla tentou deixar a unidade hospitalar, mas a Prefeitura de Paraty acionou o Poder Judiciário solicitando a manutenção da internação

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2020 | 14h29

RIO DE JANEIRO - A Justiça do Estado do Rio aceitou um pedido do município de Paraty, na região da Costa Verde, a manter em internação hospitalar compulsória um casal de franceses com suspeita de ter contraído coronavírus. A dupla chegou à cidade na segunda-feira, 24, e procurou atendimento na quinta-feira. Desde então, eles estão mantidos em isolamento.

O casal ainda tentou deixar a unidade hospitalar, mas a Prefeitura acionou a Justiça. A informação foi divulgada pela TV Globo e confirmada pelo Estado. O caso tramita em segredo de Justiça.

Apesar da internação compulsória autorizada pelo Poder Judiciário, ainda não foi confirmado que o casal tenha contraído de fato o coronavírus. O caso é um dos nove investigados no Estado como suspeito.

Antes de viajar a Paraty, os dois franceses teria passado quatro dias na cidade do Rio. A dupla chegou ao País vinda de Barcelona, na Espanha.

Coronavírus no Brasil

O Brasil confirmou na noite de terça-feira, 25, o primeiro caso com teste positivo para o novo coronavírus. Trata-se, segundo o Ministério da Saúde, de um homem de 61 anos, residente em São Paulo, com histórico de viagem para a Itália, na região da Lombardia (norte do país), a trabalho, sozinho, no período de 9 a 21 de fevereiro. O paciente, segundo as autoridades, está bem, tem sinais brandos da doença e ficará em isolamento domiciliar.

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OMS eleva para 'muito alto' o risco do coronavírus

O vírus que surgiu na China no fim do ano passado já chegou a 50 países e soma 2.858 mortes mortes e mais de 83 mil infectados, de acordo com a OMS

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2020 | 12h37
Atualizado 29 de fevereiro de 2020 | 14h07

SÃO PAULO - A ocorrência do coronavírus já em mais de 50 países, em todos os continentes, e o aumento de nações que registram transmissão local da doença levou a Organização Mundial de Saúde (OMS) a elevar o nível de alerta no mundo. O risco de dispersão e de impacto do Covid-19 foi de alto para muito alto. 

O anúncio foi feito nesta sexta-feira, 28, pelo diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, que afirmou que o contínuo crescimento do número de casos e países afetados é claramente motivo de preocupação. Ele continua defendendo, porém, que ainda é possível trabalhar para tentar conter essa expansão e exortou os países a se prepararem, ficarem alertas e agir rapidamente. 

Na quinta-feira, ele já tinha dito que “todo país deve estar pronto para seu primeiro caso, seu primeiro cluster, a primeira evidência de transmissão comunitária e para lidar com a transmissão comunitária sustentada. E deve estar se preparando para todos esses cenários ao mesmo tempo”.

Mas a organização continua evitando usar a palavra pandemia, o que é defendido por alguns especialistas. O Brasil, no entanto, tem discordado.

Nesta sexta, o Ministério da Saúde reiterou o pedido para a OMS atualizar a classificação do coronavírus. “Esta mudança (para pandemia) vai implicar numa redução de busca de relação com o local provável de infecção e vai nos permitir focar principalmente nos grupos etários mais vulneráveis, que são adultos com mais de 60 anos”, afirmou o secretário de Vigilância da Saúde do ministério, Wanderson Kleber de Oliveira.

Ghebreyesus defende que ainda há margem para atuar em contenção de casos. “O que temos visto no momento são epidemias de Covid-19 em vários países, mas a maioria dos casos ainda pode ser rastreada a contatos conhecidos ou a clusters de casos. Não temos evidências, ainda, de que o vírus está se espalhando livremente nas comunidades”, afirmou nesta sexta. 

“Enquanto for este o caso, ainda temos a chance de conter o coronavírus se ações robustas forem tomadas para detectar os casos rapidamente, isolar e cuidar dos pacientes e rastrear os seus contatos”, disse. 

Para Entender

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Doença está deixando vítimas na Ásia e já foi diagnosticada em outros continentes; Organização Mundial da Saúde está em alerta para evitar epidemia

O vírus que surgiu na China no fim do ano passado já chegou, de acordo com a OMS, até sexta, a 51 países, além da China. Foram cinco novos desde quinta: Dinamarca, Estônia, Lituânia, Holanda e Nigéria (o primeiro país da África sub-saariana). 

Após a checagem da organização, o México também informou que registrou seu primeiro caso. 

Segundo a OMS, havia 78.961 casos confirmados na China e 4.691 em 51 países. O número de mortes total chegou a 2.858 mortes (67 delas fora da China). Em 24 horas, a China havia reportado 331 novos casos – o valor baixo em um mês de epidemia. Já os novos casos no resto do mundo foram de 1.027

Dos novos registros, 24 casos foram exportados da Itália para 14 países e 97 casos foram exportados do Irã para 11 países desde quinta. No Brasil, o Ministério da Saúde informou que investiga 182 casos suspeitos, mas continua com apenas um confirmado até o momento.

Pandemia ou não?

Especialistas ouvidos pelo Estado defendem que ainda não ter declarado uma pandemia faz sentido. “A partir do momento que isso for feito, significa que há transmissão sustentada em tantos lugares que já não faz mais sentido tentar conter os casos. Se declara pandemia, a China pode não mais se sentir impelida a controlar os 100 milhões de pessoas que estão sob confinamento. Os países que têm transmissão sustentada perdem ou acham que perdem a obrigação de conter. Se virou pandemia, por que vou gastar esforço político e de recursos de fazer cordão sanitário?”, comenta o epidemiologista Eduardo Massad, da Faculdade de Medicina da USP.

“Mas se a China e os outros países não tivessem feito isso, haveria muito mais casos pelo mundo”, diz. 

Para o também epidemiologista Eliseu Alves Waldman, da Faculdade de Saúde Pública da USP, deve ser apenas uma questão de tempo para virar de fato epidemia, mas ainda há que se tentar amortizar esse processo. “Numa doença de transmissão respiratória, não existem medidas para pará-la. A expectativa é que o vírus vai mesmo se espalhar. Mas é importante ao máximo retardar o processo, para que a evolução se dê de maneira gradual. Porque quanto mais rápido for, com certeza, mesmo em países desenvolvidos, as estruturas dos sistemas de saúde poderão entrar em colapso.”

Ele apon­ta ain­da que, ao de­cla­rar pan­de­mia, a OMS tem de en­vi­ar re­cur­sos hu­ma­nos e financei­ros pa­ra apoi­ar paí­ses mais po­bres a li­dar coma do­en­ça, o que au­men­ta cus­tos e dificuldades. “Existem motivos para tomarmos todas as providências necessárias e possíveis para evitar o pior – como ter um aumento muito rápido da doença em um número muito grande de países.”

O diretor-executivo do programa de emergências da OMS, Michael Ryan, explicou que a elevação de risco de alto para muito alto reflete o fato de que a doença está surgindo em muitos países e o fato de que alguns estão sofrendo para conter a propagação. E que serve principalmente como mensagem para que os países que têm os primeiros registros ajam rapidamente para tentar conter a propagação. “É um chamado para acordar e ficarem prontos. O alerta é para dizer que podemos conter isso”, afirmou.

Confira as notificações feitas por cada país:

  • China: 2.788 mortes entre 78.824 casos
  • Hong Kong: 94 casos, 2 mortes 
  • Macau: 10 casos 
  • Coreia do Sul: 2.337 casos, 16 mortes 
  • Japão: 931 casos, incluindo 705 do navio de cruzeiro Diamond Princess, 11 mortes 
  • Itália: 650 casos, 15 mortes 
  • Irã: 388 casos, 34 mortes 
  • Cingapura: 98 
  • Estados Unidos: 60 
  • Alemanha: 53 
  • Kuwait: 45 
  • Tailândia: 41 
  • França: 38 casos, 2 mortes 
  • Bahrain: 36 
  • Taiwan: 34 casos, 1 morte 
  • Espanha: 32 
  • Malásia: 25
  • Austrália: 23 
  • Emirados Árabes Unidos: 19 
  • Reino Unido: 19 
  • Vietnã: 16 
  • Canadá: 14 
  • Suécia: 7 
  • Iraque: 6 
  • Omã: 6 
  • Rússia: 5 
  • Croácia: 5 
  • Suíça: 5 
  • Israel: 4 
  • Grécia: 4 
  • Filipinas: 3 casos, 1 morte 
  • Índia: 3 
  • Líbano: 3 
  • Romênia: 3 
  • Paquistão: 2 
  • Finlândia: 2 
  • Áustria: 2 
  • Holanda: 2 
  • Geórgia: 2 
  • México: 2 
  • Egito: 1 
  • Argélia: 1 
  • Afeganistão: 1 
  • Macedônia do Norte: 1 
  • Estônia: 1 
  • Lituânia: 1 
  • Bélgica: 1
  • Bielorrússia : 1 
  • Nepal: 1 
  • Sri Lanka: 1 
  • Camboja: 1 
  • Noruega: 1 
  • Dinamarca: 1 
  • Brasil: 1
  • Nova Zelândia: 1 
  • Nigéria: 1 
  • Azerbaijão: 1

 

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Folião deve evitar bloco de rua por causa do novo coronavírus?

Médica vê chance maior de propagação de doenças já conhecidas, como a gripe; Prefeitura de SP terá tendas de atendimento médico

Isaac de Oliveira, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2020 | 12h00

SÃO PAULO - Em muitas cidades do País, o fim de semana ainda é de carnaval e de blocos nas ruas. Mas, com a confirmação do primeiro caso do novo coronavírus no Brasil, surgiu o receio: é preciso evitar aglomerações ou dá para curtir a folia? Especialistas afirmam que a transmissão da doença vinda da China é possível, com a chegada de viajantes de áreas onde já existe surto, mas a chance maior é de contrair outros vírus respiratórios mais comuns, como a influenza. Por enquanto, as autoridades de saúde pública não vetaram a realização de eventos ou deram recomendações expressas de evitar a festa. Em regiões onde já existe epidemia da nova doença, eventos foram cancelados, como ocorreu com o tradicional carnaval de Veneza, na Itália.

Aqui no Brasil, o secretário executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo dos Reis, disse que a pasta não recomenda o cancelamento de eventos, como jogos esportivos ou blocos de pré-carnaval. Mas, segundo ele, deve prevalecer o "bom senso" e as pessoas que têm sinal de doença respiratória devem evitar locais com aglomeração.

Professora de Infectologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Nancy Bellei afirma que a disseminação da influenza, já conhecida pelos brasileiros, deve aumentar nas próximas semanas. Para quem vai para a rua, cuidados devem ser tomados, como se afastar de quem tosse ou espirra, pois mesmo no estágio de incubação pode haver transmissão. “Em ambientes abertos, como blocos, a questão é mais o contato próximo. Com gotícula, secreção, o contágio é mais difícil do que em ambientes fechados”, diz ela, também consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia.

O virologista Pedro Vasconcelos também avalia risco maior de contrair outras doenças, como a própria influenza e o sarampo. “Este é o período sazonal da gripe e ela tende a um aumento. A concentração num determinado espaço físico, como é o caso do carnaval, em que as pessoas estão em blocos ou agrupadas em arquibancadas, cria a tendência de que aumente o risco de transmissão de doenças com transmissão respiratória”, diz Vasconcelos, do Instituto Evandro Chagas.

Para Entender

Coronavírus: veja o que já se sabe sobre a doença

Doença está deixando vítimas na Ásia e já foi diagnosticada em outros continentes; Organização Mundial da Saúde está em alerta para evitar epidemia

Por causa da identificação do novo coronavírus no Brasil, o governo federal decidiu antecipar a campanha de imunização contra gripe, que vai começar em 23 de março. O imunizante não previne contra a nova doença, mas vai facilitar a identificação dos casos do coronavírus chinês pelos profissionais de saúde. Nos últimos anos, autoridades de saúde pública também têm alertado para a queda nas taxas de vacinação contra sarampo, que também pode levar à morte e tem um potencial de contaminação bem mais alto. Um infectado pelo Covid-19, o novo coronavírus, costuma infectar, em média, outras duas ou três pessoas. Já em relação ao sarampo, essa taxa sobe para 18.

Prefeitura de SP vai montar tendas de atendimento durante o pós-carnaval

A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal da Saúde, informou que durante o pré-carnaval terá postos médicos montados e disponíveis para a população nos locais de grande concentração durante os desfiles. No domingo, 1º, haverá dois megablocos - da funkeira Anitta e da cantora de axé Daniela Mercury. Segundo a pasta, as tendas serão abertas duas horas antes dos eventos e fechadas quando a Polícia Militar encerrar a programação do local.

Cada posto contará com profissionais da saúde, médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem, que estarão à disposição da população para atendimentos pontuais e  a indicação de unidades de saúde específicas, caso seja necessário atendimento. Além disso,  conforme o Município, os profissionais de saúde também foram capacitados para orientar o folião sobre os cuidados e a prevenção quanto ao novo coronavírus. No fim de semana, também haverá no Anhembi, na zona norte da capital paulista, o desfile das escolas de samba vencedoras do carnaval 2020. / COLABOROU FELIPE RESK

 

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