Pesquisadores criam materiais odontológicos 100% nacional

O interesse crescente de odontólogos pela área de desenvolvimento de materiais provocou uma reestruturação na Coppe, um dos mais renomados programas de pós-graduação de Engenharia do País, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A instituição e duas agências de fomento à pesquisa, que investiram até agora R$ 1 milhão, apostam, assim como os dentistas-engenheiros, na produção de tecnologias nacionais. Conseqüentemente, em um barateamento dos custos do setor, que hoje depende de produtos importados. No Programa de Engenharia Metalúrgica e de Materiais do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), 45 trabalhos, entre teses e dissertações, foram defendidos desde 1998, quando ingressaram no curso os dois primeiros dentistas. Embora ainda não tenha sido depositada nenhuma patente, há estudos promissores, que podem resultar em produtos nacionais pioneiros. Além disso, mestres e doutores já começam a se organizar para formar empresas, com o apoio da própria instituição, que inscreve, por ano, em seu processo seletivo, cerca de 50 odontólogos - proporcionalmente, representam a metade do total do candidatos. "O País não tem tradição na área de biomateriais. Mas o governo sabe da importância de se investir nisso. Metade dos nossos estudantes dentistas dedica tempo integral à pesquisa. São uns desbravadores. Começam a criar um nicho", observa a coordenadora do programa, Glória Dulce de Almeida Soares. Ela conta que a instituição criou a disciplina de biomateriais, além de três laboratórios específicos para Odontologia, com foco em materiais dentários e engenharia óssea. Formado na UFRJ, com mestrado na Coppe, o doutorando Vinícius Bemfica, de 30 anos, trabalha no desenvolvimento de uma porcelana, chamada vidro-cerâmica, usada em coroas dentárias. As disponíveis no mercado são importadas. "Estamos agora em uma etapa de pigmentação do material. E isso é feito pelo pessoal da Química. É uma troca importante", explica ele, acrescentando que o produto está sendo desenvolvido com matéria-prima nacional, no caso, o mineral feldspato. Bemfica dedica tempo integral à UFRJ, onde começou a dar aulas na graduação em Odontologia. Passa boa parte do tempo no Laboratório de Cerâmicas Dentárias. O local foi construído com recursos do Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (Pronex), da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). "Aqui tem tudo", mostra, orgulhoso, o estudante-professor, exibindo máquinas, catálogos, próteses e pigmentos. Assim como Bemfica, Juliana Antonino, de 28 anos, já concluiu o mestrado na Coppe, e gostou tanto da área de pesquisa e desenvolvimento que ingressou no doutorado, onde tenta algo inédito: criar um aparelho para simular, com mais precisão, os movimentos da boca durante a mastigação. O instrumento utiliza saliva artificial e é necessário para avaliar a resistência de materiais ao desgaste dos dentes. "Fiquei três anos dentro de consultório. Senti necessidade de saber por que determinados materiais eram menos resistentes. Geralmente, seguimos o que diz o representante do fabricante, que é estrangeiro." Empreendedorismo As amigas Taís Munhoz e Camila Dolavale, ambas de 27 anos, e alunas do doutorado, já pensam em abrir uma empresa, buscando apoio na incubadora da UFRJ. Trabalham com cimento ionômero de vidro, material usado em restaurações dentárias, e particularmente adequado para lugares onde não há energia elétrica. Taís já conseguiu fazer uma modificação no material, que aumenta a resistência dele em cerca de 50%. "Ele é importante, pois a mistura do pó com o líquido pode ser feita sem energia elétrica. Por isso é muito usado no atendimento público, que vai até pontos distantes, como comunidades indígenas. Mas não é tão resistente como outros similares. É isso que estamos tentando aprimorar", explica. A amiga Camila também pesquisa materiais para restauração dentária, com partículas cerâmicas e de vidro. Quer fazer resinas compostas mais duráveis, que podem trazer mais economia e conforto para os pacientes. "As que existem duram menos de oito anos." No mestrado, estudantes já pensam em prosseguir na área de pesquisa, como Bruna Veiga e Aline Costa, de 23 anos. "Fiquei com medo de entrar na pós e fugir muito da prática. Mas bateu uma frustração na clínica, pois não sabia direito com que material estava trabalhando. As gavetas ficavam entupidas de amostras", diz Bruna, avaliando que o desenvolvimento de tecnologias nacionais pode resultar em uma mudança no setor. Bemfica tem a mesma opinião. "É algo que pode contribuir para reduzir os preços. A Odontologia é muito cara, em parte, por causa dos produtos, que são importados".

Agencia Estado,

09 de outubro de 2006 | 10h10

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